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6. Results and Discussion

6.7 Limitation of the study

A crise da República Velha, que culminou com a Revolução de 1930, instituindo Getúlio Vargas como o novo presidente do Brasil, foi um divisor de águas na política-econômica nacional. A partir de 1930 o Estado tornou-se mais centralizador e passou a adotar políticas de desenvolvimento econômico.

O Estado, utilizando-se de seu poder de regulação e intervenção econômica, inicia a criação de entidades e empresas públicas que fariam esse papel regulador. Destarte, vários institutos foram sendo constituídos, como o do Açúcar e do álcool (1931), do Cacau da Bahia (1931), do Mate (1938), do Pinho (1941), do Sal (1941), o Departamento Nacional de Produção Mineral (1934), assim como os conselhos do Petróleo (1938), de Águas e Energia Elétrica (1939) e de Minas e Metalurgia (1940). As empresas públicas e as sociedades de economia mista também se tornaram organizações muito importantes para o sistema governamental a partir da década de 1940, como exemplos, a Companhia Siderúrgica Nacional (1941), a Vale do Rio Doce (1942), a Nacional de Álcalis (1943), A Fábrica Nacional de Motores (1943), a Companhia Hidrelétrica de São Francisco (1945) 149.

Como ordenador da estrutura desenvolvimentista nacional, o Estado atuava nos diversos setores econômicos, porém, verifica-se que desde o início dessa interferência estatal, os planos e metas governamentais sempre se direcionaram mais a algumas regiões, em detrimento de outras.

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149 GUIMARÃES NETO, Leonardo. Op. Cit., p. 94. Ver também: DRAIBE, Sônia. Rumos e Metamorfoses – Estado e

Industrialização no Brasil; 1930/1960. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 78: “A crise do Estado Oligárquico, ao

estabelecer condições para a centralização política, criou também bases para uma profunda intervenção e regulamentação econômica estatal, no espaço político constituído pelos interesses sociais e seus conflitos. Nesse campo de forças, constitui- se aceleradamente um moderno e sofisticado aparelho econômico centralizado, a partir do qual o Estado passou a atuar sobre os postos-chaves da vida econômica e social (...)”.

Concomitantemente com o aumento das disparidades econômicas regionais, a partir da década de 1950 a indústria pesqueirense inicia seu gradual declínio. Há esse tempo, o chamado Centro-Sul já se distanciava economicamente da Região Nordeste. Enquanto o Nordeste tinha uma economia eminentemente agrária, com pouca produtividade e uma indústria mais artesanal, o Centro-Sul era, em todos os aspectos, mais desenvolvido. Essas diferenças geraram, ao longo de décadas, grandes desigualdades regionais.

A política econômica estabelecida pelo governo brasileiro nos anos de 1950 e 1960 direcionou-se para o fortalecimento do setor industrial, mas esse setor teve a parte maciça de seus investimentos nas regiões Sul/Sudeste do país. Foi tal direcionamento governamental que muito atrapalhou o desenvolvimento das regiões ao norte do país e, paulatinamente, distanciou o Nordeste das demais regiões do Centro-Sul, pois a economia nordestina, antes notadamente agropastoril e produtora de bens tradicionais, não acompanhou a evolução dos estados do Sul e Sudeste.

O governo de Juscelino Kubitschek, com o slogan “50 anos em 5”, indubitavelmente promoveu o avanço das indústrias de base do país, com o desenvolvimento das indústrias do aço, do alumínio, da celulose, automotiva, da maquinaria pesada, de produtos químicos, entre outras 150. O problema é que esses planos desenvolvimentistas,

como os do governo de Juscelino, aumentaram ainda mais os desequilíbrios regionais, pois essas indústrias surgiam predominantemente no Centro-Sul.

Essas transformações econômicas também modificaram o sistema de transporte do país e a partir dos anos de 1950 a cabotagem e as ferrovias foram perdendo espaço para o transporte rodoviário, o que favoreceu o crescimento de uma articulação inter- regional. Conforme explana Olímpio Galvão: “foi apenas após a efetivação de um programa nacional de construção de rodovias nos anos 50 e 60 que o Brasil rompeu, de fato, com o estado de relativo isolamento de suas economias regionais” 151.

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150 BAER, Werner. Op. Cit., p. 81.

151 in: Comércio Interestadual por Vias Internas e Integração Regional no Brasil: 1943-69. RBE. Nº 53. Rio de Janeiro:

Contudo, embora as mudanças no setor de transporte tenham sido extremamente importantes para a interligação entre os mercados nacionais, esse novo sistema rodoviário foi mais um fator segregador para a Região Nordeste, pois as rodovias ligavam bem mais os estados do Sudeste, estendendo-se para o Sul, do que as demais regiões do país e, assim, precisamente explica Guimarães Neto:

“Estava-se vivendo um momento de amplas transformações no sistema de transporte que, intensificando os fluxos comerciais e reduzindo os custos, quebrava as barreiras à entrada em vários mercados anteriormente isolados. (...) No entanto, no que se refere fundamentalmente à articulação Nordeste/Sudeste, esse desenvolvimento do sistema de transporte é nodular, restringido. Dá-se prevalentemente, no interior de regiões já articuladas na fase anterior – como a Sul/Sudeste – ou no interior de regiões mais isoladas, como é o caso do Nordeste” 152.

Outra ação governamental desse período que muito prejudicou a indústria nordestina foi a adoção da Lei dos Similares Nacionais, que com o intuito de impulsionar a industrialização agravou as diferenças regionais. Nas décadas de 1950 e 1960, os países da América Latina adotaram uma infundada teoria de que só se desenvolveriam por meio de um largo programa de substituição de importações. O programa tinha como idéia central gerar uma indústria forte em produtos manufaturados, para através da acumulação de capital promover um desenvolvimento econômico auto-sustentável.

Por causa da utilização desse programa de substituição de importações, o país ficou com as exportações restritas ao excedente e o mercado nacional passou a crescer desigualmente, culminando com poucos investimentos em capital humano e a falta de uma política monetária clara. Segundo Werner Baer: “o registro de um produto como um similar tornou-se a base para a proteção tarifária e para sua classificação em uma elevada categoria cambial” 153.

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152 in: Op. Cit., p. 95. 153

Por conta da Lei dos Similares, muitas empresas estrangeiras, principalmente norte-americanas, aumentaram seus investimentos no Brasil, construindo ou adquirindo fábricas no país, pois como já não podiam importar produtos que tivessem registro de similar, para garantir mercado passaram a montar e fabricar produtos dentro do território nacional, o que incentivou uma grande entrada de capital estrangeiro na economia brasileira. Como o Nordeste, em geral, tinha pouca estrutura e potencial econômico, tornou-se grande importador de bens industrializados das companhias estrangeiras instaladas no Brasil e das indústrias nacionais do Centro-Sul e apenas mero exportador de matérias-primas.

Mesmo o Brasil apresentando no final da década de 1960 e início dos anos de 1970 altas taxas de crescimento, as disparidades já se faziam enormes, principalmente entre as regiões, pois o Nordeste continuava basicamente agrário e subdesenvolvido, ao tempo que o Sul e o Sudeste intensificavam sua industrialização. Como um paliativo para os problemas nordestinos, a partir de fins da década de 1950 foram surgindo órgãos que iriam gerar novos investimentos na região, como a SUDENE, o BNB, o BANDEPE, e vários outros, na tentativa de amenizar as desigualdades regionais.

Neste ensejo político-econômico, a indústria pesqueirense já estava submersa na crise, um período que marca o fim das atividades industriais das fábricas Paulo de Britto, Tigre e Rosa. A Peixe, por sua vez, lutava bravamente para se manter no mercado, mas a concorrência com as congêneres do Sudeste e as dificuldades regionais anteriormente expostas, somadas a outros fatores, impossibilitaram que a fábrica mais tradicional do município continuasse sua história de sucesso.

Em fins de 1960, com toda a sua crise estrutural e com a dispersão e o desinteresse da família fundadora da fábrica, os Britto de Freitas, a Peixe tornou-se propriedade da Brascan, um grupo canadense que depois a vendeu ao grupo Vigor. A partir de então a Fábrica Peixe, que não mais representava o empresariado local, teve suas atividades restringidas ao fornecimento de produtos que teriam acabamento industrial no Sudeste 154.

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154 “A Fábrica Peixe não mais tinha no mercado regional a base de sua produção. Daí os produtos semi-acabados, como o

caso da massa de tomate a partir da qual se prepara o extrato de tomate, para terem seu acabamento industrial no SUDESTE passou a constituir a política econômica da Empresa”. CAVALCANTI, Célia. Op. Cit., p. 88.