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Este capítulo será dedicado ao jornalismo na área da medicina, ou jornalismo médico, que constitui uma área muito peculiar da ciência e do próprio jornalismo. Em primeiro lugar, explicar-se-ão as razões pelas quais a medicina constitui um assunto com elevado interesse jornalístico. Este valor noticioso garante-lhe a presença em vários meios de comunicação social e confere-lhe uma autonomização relativa ao jornalismo de ciência, ao qual pertencia. Seguir-se-á uma caracterização do tratamento jornalístico da Medicina, bem como uma análise das funções do jornalismo médico e as principais críticas às quais está sujeito. Além disso, serão estudadas algumas consequências concretas desta mediatização, mais detalhadamente o facto de os media se assumirem como uma das mais importante fontes de informação sobre saúde para o público em geral, com consequentes riscos e benefícios. Deste modo, o jornalismo na área na medicina é causa e consequência da medicalização da sociedade, contribuindo, ainda, para a evolução da relação entre médico e doente.

Uma reflexão sobre a capacitação do jornalista para lidar com uma área tão impactante como esta encerrará o capítulo, não sem antes uma descrição do cenário particular de Portugal ao nível do jornalismo médico.

4.1) A medicina como notícia

“Os mundos da medicina e dos media existem numa simbiose única. Artigos de jornais e revistas reportam simultaneamente descobertas médicas e dão conselhos de saúde, misturando informação científica com conselhos reconfortantes” (FRIEDMAN 2004: 1). As razões e as consequências desta importância da medicina no âmbito do jornalismo são assuntos sobre os quais se refletirá neste ponto. Acerca do jornalismo médico serão analisadas, ainda, as suas características, os principais atores sociais envolvidos como fontes de informação, as funções que desempenha e as críticas de que é alvo.

a) Interesse jornalístico e social da medicina

Vários estudos têm demonstrado que a medicina é a área da ciência que mais interesse desperta na sociedade, não sendo de estranhar, por isso, que seja também a área mais noticiada. Este interesse jornalístico na medicina nem sempre teve tamanha preponderância, estando intimamente ligado a condicionalismos culturais, sociais e económicos. Além dos valores-notícia associados à medicina, ver-se-á a existência de múltiplos suportes e formatos jornalísticos, bem como a consequente autonomização da medicina em relação ao jornalismo de ciência.

Existe algum consenso na aceitação da premissa que as evoluções técnicas, científicas e ideológicas na área das ciências médicas conduziram à “medicalização” da vida. Aliás, já há alguns anos, vários autores alertavam para esta situação. Ivan Illich referia-se à “medicalização da vida” (Cit. in MOYNIHAN e CASSELS 2005: XVIII). O quadro atual é este:

uma patologização da cultura onde tudo é passível de ser medicalizado. Há uma expansão do campo da patologia para as mais diversas experiências que acaba por objetificar a vida. Neste contexto, as definições de saúde e doença são tomadas numa perspetiva dicotómica e estática que define a patologia pela simples variação quantitativa dos estados normais e caracteriza a saúde pela ausência de doença (RESENDE 2008: 124).

Note-se que esta medicalização social também é fruto da atenção mediática, ou seja, “o mundo da medicina envolve-se e difunde-se nos media que nos rodeiam” (FRIEDMAN 2004: 7). Reportando, em concreto, a realidade dos Estados Unidos, Lester Friedman acrescenta: “devido em larga medida à sua ubiquidade nos media, os assuntos médicos ocupam um papel central na consciência nacional” (FRIEDMAN 2004: 7).

Esta fixação social na medicina leva à sua presença em livros populares, conteúdos televisivos e filmes (Cf. FRIEDMAN 2004: 1). Assim, a medicina assume um papel de destaque, tanto ao nível dos produtos jornalísticos, como em campanhas divulgação e até na ficção televisiva ou no cinema. No caso do jornalismo, é assinalável a presença das notícias sobre saúde nos mais diversos suportes e formatos. Por exemplo, na imprensa proliferam em: revistas especializadas em saúde para o público em geral, revistas de informação geral e política, revistas para pais e educadores, revistas masculinas, revistas femininas, jornais de referência e também jornais sensacionalistas. Na televisão, surgem reportagens, notícias, entrevistas, debates, espaços de consultório e programas específicos sobre saúde. Também na rádio os temas médicos são alvo de tratamento noticioso, bem como de programas interativos, sendo este último caso um dos múltiplos formatos que a internet oferece.

Atualmente, os temas ligados à saúde, medicina, ciências biomédicas e medicamentos dominam a cobertura jornalística da ciência. Isto porque, segundo alguns estudos, o interesse nas notícias médicas é, no mínimo, tão grande como nas notícias de desporto. A razão parece evidente: as histórias médicas lidam com a vida humana. “Desde o surgimento da imprensa, saúde e doença ocupam espaço nas páginas dos mais importantes periódicos mundiais” (AZEVEDO 2009), mas convém esclarecer que nem sempre a Medicina foi o tema de Ciência predominante nas notícias. Na realidade, nas décadas de 50 e 60 do século XX, “as ditas ciências físicas foram durante muito tempo as que mais ganharam destaque na imprensa britânica e só a partir de meados da década de 70 perderam a liderança para a imprensa popular de Ciência biomédicas” (GREGORY e MILLER 2000: 39). Mais tarde, “a especialização gradual da informação sobre medicina e saúde nos media teve início nas décadas de 70 e 80,

em paralelo com a subida do nível educacional que induziu uma maior procura dessa informação por parte do público-alvo” (DIAS 2005: 30).

Mais recentemente, Emma Weitkamp realizou um estudo através do qual concluiu: “a saúde e a medicina dominam a cobertura noticiosa relacionada com ciência e saúde” (WEITKAMP 2003: 326). Indo ao encontro desta ideia, Giovanna Miranda constata: “o interesse do público leigo em assuntos científicos – particularmente no que diz respeito à saúde, medicina e medicamentos – está a crescer, de forma gradual, um pouco por todo o mundo” (MIRANDA 2004: 267). “Na Europa, nos assuntos de ciência nos media, a medicina surge como tema principal, alcançando 60% de interesse por parte do público” (MIRANDA 2004: 267), afirma, baseando-se no Eurobarómetro de 2001. Por sua vez, Marianne Pellechia, numa análise de conteúdo da cobertura noticiosa da ciência de três jornais diários – New York Times, Washington Post e Chicago Tribune – durante três décadas (60 a 90 do século XX), constatou que mais de 70% das notícias de ciência diziam respeito à medicina e saúde, seguindo-se as ciências naturais e físicas e, por último, a tecnologia. “A importância dada à Medicina ou à saúde não deveria surpreender, considerando que as questões biomédicas têm sido dominantes na cobertura jornalística da ciência” (PELLECHIA 1997: 57), realçou. “Há uma tendência dos principais jornais de considerarem notícia científica apenas informação de Medicina”, sublinha Atílio Vanin (Cit. in MEDINA 1991: 124), referindo-se à realidade brasileira.

Outros estudos demonstram que o interesse nas notícias de medicina pode ser maior em determinadas situações específicas: “desde os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 ao World Trade Center e ao Pentágono, bem como o medo do antrax nos Estados Unidos da América, as notícias de saúde tornaram-se uma obsessão nacional para jornalistas e espectadores” (TANNER 2004: 350). Todavia, “a popularidade das notícias de saúde surge, certamente, antes do susto do antrax nos Estados Unidos” (TANNER 2004: 350). De facto, “a divulgação das notícias de saúde era uma indústria em ascensão na década de 90, com tendência para continuar no novo milénio” (TANNER 2004: 351). Por seu turno, João Carlos Correia considera que os aspetos que conduziram ao aumento de interesse por parte do jornalismo em relação às questões da saúde e da doença são os seguintes:

as possibilidades tecnológicas de alteração das regularidades biológicas associadas ao envelhecimento dos órgãos e das células, o debate sobre os limites éticos da intervenção médica, aliados à situação verificada pelas vagas de epidemias que marcaram o final do século passado e o princípio do novo, a inflação de esperança desencadeada em torno do imaginário coletivo pelas descobertas científicas, acompanhadas pela fobia e pelo pavor suscitadas por novas situações de risco (CORREIA 2006: 1).

a formação de jornalistas especializados e, por outro, de encorajar os cientistas e os clínicos à disseminação da informação relativa aos avanços das ciências da saúde e da medicina” (DIAS 2005: 30).

Na década de 80 do século XX, cresceu o interesse em temas de saúde por parte do público do Reino Unido, como o refletiam a inclusão de secções de saúde e médicas na maioria dos jornais (Cf. ENTWISTLE e BEUALIEU 1992: 367). Neste âmbito, segundo um estudo de Hansen e Dickinson realizado em 1990, “questões médicas e de saúde são os temas mais noticiados pela televisão, rádio e jornais” (ENTWISTLE e BEUALIEU 1992: 370). “A Medicina e a saúde ocupam, geralmente, um lugar de destaque em termos de cobertura noticiosa em todos os media” (GÖPFERT 1996: 364).

João Carlos Correia observa uma alteração dos critérios de noticiabilidade devido ao interesse na medicina: “raros são os jornais e telejornais que não incluem nas suas notícias, a referência à descoberta de novos vírus, novas doenças, novas possibilidades de intervenção médica, novos problemas crónicos, novas possibilidades para o corpo acompanhados por uma panóplia de soluções para estes mesmos problemas” (CORREIA 2006: 1). Indo ao encontro desta ideia, Francisco Ramírez e Javier del Moral observam:

os temas de saúde ocupam cada vez mais destaque nos meios de comunicação social, não só nas secções de meios generalistas, como também em publicações de jornais e revistas especializadas em saúde, assim como na realização de programas radiofónicos e televisivos especializados nestes temas. Na maioria dos jornais, os temas de saúde publicam-se dentro da secção genérica de Sociedade, embora alguns jornais já dediquem uma secção específica para a informação médica ou de saúde (RAMÍREZ e MORAL: 261).

O interesse social e, consequentemente, jornalístico na área da medicina tem várias explicações. Por exemplo:

esteve ao lado do homem por mais tempo. O médico, o artista prático da Ciência, viveu na sociedade e se associou essencialmente a ela por muito mais tempo. A Medicina está mais completamente incorporada no nosso pensamento. Também seu lado prático é mais fácil de ser compreendido. Além disso, o médico, em metade da sua atividade profissional, representa uma comunicação com o homem comum (Cit. in KRIEGHBAUM 1970: 85).

Por outro lado, a Medicina é um universal cultural, ou seja, “todas as sociedades humanas que alguma vez existiram tiveram certamente procedimentos estandardizados para lidar com a doença” (LEACH 1992: 23). Numa alusão à pirâmide das necessidades de Abraham Maslow, correspondem a necessidades de sobrevivência (saúde curativa ou preventiva), culturais (melhor alimentação, qualidade da forma física e atividade sexual) e de conhecimento (curiosidade natural do homem em relação ao próprio corpo) (Cf. Burkett 1990: 60-62).

Simplificando, o tema da saúde é importante para a sociedade porque todos são protagonistas, sendo certo que engloba problemas que afetam a própria pessoa ou alguém próximo nalgum momento da vida (Cf. RAMÍREZ e MORAL 1999: 261-262). Coincidindo com esta visão, num estudo realizado por Anders Hansen com jornalistas de ciência britânicos, verificou-se que um critério de valor-notícia acentuado é o “ponto de vista humano/ relevância para a vida diária, o que ajuda a explicar a predominância esmagadora da cobertura da ciência e saúde pela imprensa” (HANSEN 1994: 130).

Enfim, depois de explicada a importância dos temas ligados à medicina nos meios de comunicação social, será agora fácil concluir que, dado o seu relevo, o jornalismo na área da medicina autonomizou-se em relação ao jornalismo científico, do qual seria parte integrante.

b) Características do jornalismo médico

Um dos objetivos do jornalismo médico é a obtenção da verdade – um dos valores universais do jornalismo. Para Timothy Johnson, “a questão fundamental no jornalismo médico é saber identificar, processar e relatar informações médicas legítimas para o público em geral” (JOHNSON 1998: 89) Isto é importante, pois “uma vez que as notícias médicas avançadas pela comunicação social podem afetar decisões em vários níveis – pacientes, prestadores de serviços, responsáveis políticos, indústria – é importante que as informações prestadas sejam verdadeiras” (LEVI 2001: 29). Porém, o o jornalista de medicina tem de enfrentar algumas barreiras que dificultam o cumprimento dos objetivos do jornalismo de qualidade: “as rotinas de produção de notícias, o pouco contacto com o público, as pressões económicas, a dependência das fontes e os conflitos de interesse” (LEVI 2001: 19-25). O jornalista de medicina que deve evitar cair em algumas “armadilhas”:

reduzir as citações; tratar especialistas como sendo generalistas (os especialistas não são especialistas fora do seu campo particular); confundir ficção científica com factos científicos; ser enganado pelo jogo dos números; depender de histórias (casos interessantes ou acontecimentos isolados de sucesso ou fracasso médicos) para as provas; perguntar os efeitos de um determinado tratamento, quando faltam resultados; extrapolar da investigação para a prática clínica; promover exageradamente as implicações clínicas de um estudo; confundir os fatores de risco para as doenças; ignorar os riscos (LEVI 2001: 57-70).

Em suma, Ragnar Levi defende um “jornalismo de medicina crítico” (LEVI 2001: 75). “Em vez de relatar, indiscriminadamente, o que dizem os especialistas, agindo mais como estenógrafos do que como jornalistas, os profissionais de comunicação devem verificar muito bem as coisas e saber o suficiente sobre o campo que pisam para quando cheirar a rato saber que está lá um” (LEVI 2001: 75).

diferença substancial entre a informação dita geral e a informação médica” (JOHNSON 1998: 91). Timothy Johnson explica:

as notícias de carácter geral limitam-se, muitas vezes, os acontecimentos que depois são relatados segundo a tradicional lista dos jornalistas – o famoso quem, o quê, onde, quando e porquê. Pelo contrário, as notícias médicas não ocorrem, habitualmente, num ponto isolado do tempo e não se deixam fechar nessas descrições tradicionais. Sendo assim, a informação médica é parte de um fluxo contínuo de experimentação e de produção de dados, que cresce graças às experiências passadas e que representará, inequivocamente, a mudança (JOHNSON 1998: 91).

“Se a Ciência e a Medicina necessitam de mais interpretações do que os outros tipos de notícias, nesse caso deve-se reservar mais espaço para esses artigos ampliados” (KRIEGHBAUM 1970: 194), propõe Hillier Krieghbaum. Já Warren Burkett preconiza ser necessário “compreender a cultura da saúde e da Medicina para escreverem de maneira eficiente nesta área” (BURKETT 1990: 155). “A maior parte da reportagem médica lida com notícias transcientíficas, empreendimentos científicos mais mesclados por valores económicos, políticos, de personalidade e sociais” (BURKETT 1990: 155), explica.

Dado que a medicina engloba vários termos técnicos e científicos, a linguagem é uma das dificuldades com que tem que lidar o jornalista nesta área: “a narrativa jornalística no campo da saúde tem sido alvo de muitas investigações devido à sua peculiaridade. Ao dirigir-se ao público leigo, o jornalista deve ter em conta a tradução de termos técnicos que, sendo na maior parte dos casos relacionados com as ciências médicas, biológicas ou tecnológicas, não são familiares aos leitores” (AZEVEDO 2009). Além do mais, “muitas vezes, para obter a atenção do público, os media simplificam um documento científico, reduzindo-o a uma frase apelativa” (AZEVEDO 2009).

Os valores-notícia utilizados nesta área também são alvo de estudo, sendo que alguns deles são mesmo criticados. Susan Moeller verifica que as epidemias que receberam maior atenção mediática nem sempre foram as mais graves, sendo prevalentes valores-notícia como a proximidade, ou população demograficamente semelhante à audiência daqueles media (Cit. in PONTE 2004: 13-14). Além disso, referindo-se à cobertura das epidemias pelos media norte- americanos, a investigadora constata que estes “cobrem as epidemias como cobrem outros tipos de crise: uma cobertura estereotipada, uma linguagem sensacionalista e referências ao país” (Cit. in PONTE 2004: 14). Mais: quando ocorre uma epidemia “as histórias dos media assentam no medo do público” (PONTE 2004: 14).

Outro valor-notícia recorrente na cobertura jornalística da medicina é relativo à proeminência social dos sujeitos envolvidos. Assim se explica a existência de inúmeras notícias sobre o estado de saúde de pessoas famosas: “por vezes as notícias médicas fazem-se

devido à proeminência das pessoas envolvidas” (WILLIS e OKUNADE 1997: 56). Recorde-se o caso de Rock Hudson, ator norte-americano, que faleceu em 1985, vítima de SIDA. Recuando ainda mais no tempo, descobre-se o seguinte:

nos Estados Unidos o interesse pela saúde dos presidentes sempre fez os órgãos de comunicação social voltarem os olhos para a cobertura no campo da saúde. Mas um ataque cardíaco do presidente Dwight Eisenhower, em setembro de 1955, viria abalar as reportagens de saúde. As informações publicadas não somente revelavam o estado de saúde do presidente como também intimidades de Eisenhower (AZEVEDO 2009).

Atualmente, “os profissionais de saúde e pesquisadores veem com certa reserva a cobertura jornalística nesse domínio” (AZEVEDO 2009).

Quanto aos principais problemas com que se depara o jornalista na área da medicina, podem enumerar-se vários:

identificar, processar e reportar notícias médicas legítimas para o público em geral; lidar com as pressões competitivas nos estabelecimentos médicos para ganhar quota de mercado e aumentar o financiamento para a pesquisa; a crescente comercialização da pesquisa médica por interesses empresariais; as tentativas flagrantes de manipular os media; as reuniões científicas que se tornaram exercícios de relações públicas organizadas para o benefício dos media; o papel controverso dos jornais científicos na área médica e a diferença entre reportar notícias generalistas e notícias médicas (FRIEDMAN 2004: 4-5).

Outras dificuldades com que se depara o jornalista ao lidar com notícias na área da medicina, são: o conceito de novidade médica, pois, por exemplo, pode ser usado para anunciar um novo tratamento e este ter resultados limitados; a dificuldade da investigação jornalística em medicina; a complexidade da linguagem médica, que é como se fosse uma língua estrangeira para a maioria dos jornalistas; a atitude de superioridade de alguns médicos, o que intimida muitos jornalistas; o cuidado, conhecimentos, verificação e pesquisa necessários na cobertura de conferências de imprensa que anunciam descobertas de investigação; a pressão do tempo, que pode fazer com que os jornalistas não encontrem ligações entre os especialistas que apresentam determinados resultados de pesquisas científicas e os fabricantes de medicamentos (Cf. WILLIS e OKUNADE 1997: 54-69).

c) Fontes de informação no jornalismo médico

Uma das “características marcantes das notícias de saúde a forte influência das fontes oficiais, publicações médicas e celebridades com prestígio”, assevera Deborah Lupton (Cit. in PONTE 2004: 13). O jornalismo na área da medicina depende muito dos atores sociais que atuam como fontes de informação jornalística. Estas fontes de informação na área médica dividem-se entre: fontes oficiais (entidades governamentais ligadas à Saúde e organismos

internacionais como a FAO, OMS, Cruz Vermelha, AMI, entre outros); fontes privadas (associações médicas, unidades de saúde, centros de investigação médica, empresas farmacêuticas, associações de pacientes, entre outros); publicações especializadas (nacionais e internacionais na área da saúde); especialistas (em cada uma das áreas de especialização) e profissionais (bases de dados e associações profissionais de jornalismo científico e médico) (Cf. RAMÍREZ e MORAL 1999: 268-269). Por outro lado, Anke Van Trigt e outros autores referem a existência de dois tipos de fontes consultadas pelos jornalistas:

os especialistas objetivos – investigadores e especialistas funcionais – e os peritos subjetivos – pacientes e porta-vozes dos grupos de interesse das empresas farmacêuticas. Os especialistas objetivos e independentes são mais frequentemente citados em artigos, enquanto os especialistas subjetivos são muitas vezes reunidos com opiniões de outros especialistas (TRIGT et al. 1994: 317).

Numa outra pesquisa realizada pelos mesmos autores, estes concluem que, a seguir às publicações científicas, “a segunda fonte mais importante diz respeito aos contactos dos investigadores com os jornalistas, direta ou indiretamente, através dos comunicados de imprensa” (TRIGT et al. 1995: 898).

Os médicos são fontes de informação óbvias, o que é constatado em várias investigações nesta área. “A principal fonte de informação sobre médicos ou novos agentes são os próprios médicos: mais de metade (55%) do total dos actore sociais ou fontes de informação poderiam ser colocados nesta categoria” (LUPTON e MCLEAN 1998: 952), conclui um estudo realizado em 1998. Além dos médicos, destacam-se o governo e os membros do sistema jurídico (Cf. LUPTON e MCLEAN 1998: 956). No entanto, a relação entre os médicos e os jornalistas nem sempre é pacífica:

no caso de algumas doenças, as dificuldades de relação entre o campo jornalístico e o campo científico agravam-se pelo recurso a profissionais insuficientemente preparados, pelas dificuldades mútuas de cooperação entre os profissionais dos dois campos, pelo escasso recurso às fontes potenciado pelas incompreensões mútuas

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