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The Quasi-Interpolating Scheme

distinção diltheiana151entre ciências da natureza e ciências do espírito, Clifford Geertz, valendo-se do paradigma hermenêutico, anuncia o rompimento com as taxinomias e terminologias caras às

hard sciences e insere a Antropologia na órbita das humanidades,152com a sua “teoria interpretativa da cultura”.

Para ele, a interpretação antropológica, concentra-se no significado que instituições, ações, imagens, elocuções, eventos, costumes, etc. têm para os seus “proprietários”. Debruçado, portanto, sobre os sistemas simbólicos construídos pelo homem, o interprete da cultura não apenas descreve o mundo social, mas penetra no complexo universo das significações que tornam a vida social inteligível.153 E o faz não com o auxílio das regras do método, mas, sobretudo, pela interpretação do “fluxo do discurso social”, pela “leitura” dos “textos culturais”. É nessa perspectiva, por exemplo, que o autor toma e interpreta a briga de galos balinesa154 - como um “texto”. “Texto” que diz algo do ponto de vista dos balineses, por intermédio da ação simbólica, vivida como drama.

“Texto” é na verdade, a palavra-chave na antropologia de Clifford Geertz. Em seu trabalho de campo, feito na Indonésia (Java e Bali) e no Marrocos procurou mostrar que o parentesco, o

Roberto, O trabalho do antropólogo. Op. cit.; PEIRANO, Mariza. Uma Antropologia no Plural: Três Experiências

Contemporâneas. Brasília: UnB, 1992; PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará,

1995; MARCUS, George. O que Vem (Logo) Depois do Pós: O Caso da Etnografia. In Revista de Antropologia. São Paulo: FFLCH/USP, V 37, 1994. pp. 7/31.

151No final do século XIX, Wilhelm Dilthey, foi um dos primeiros a fazer críticas sobre a continuidade das pesquisas

numa perspectiva positivista de conhecimento dos fenômenos humanos e sociais. O seu argumento e o de tantos outros pesquisadores era o de que se deveria buscar uma metodologia diferente para as ciências sociais. A sugestão era que a investigação dos problemas sociais utiliza-se como abordagem metodológica a hermenêutica, que se preocupa com a interpretação dos significados, levando em conta cada mensagem e suas inter-relações. Cf. DILTHEY, Wilhelm.

Essência da Filosofia. 3 ed. Lisboa: Presença, 1984.

152As linhas mestras de sua proposta interpretativa, apresentada ao público originalmente em 1973, podem ser

conferidas em: GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Op. cit.

153Citando Ward Goodenough, Ibidem. p. 21 diz que “(...) a cultura está na mente e no coração dos homens”, mais

ainda, a cultura de uma sociedade “(...) consiste no que quer que seja que alguém tem que saber ou acreditar a fim de agir de uma forma aceita pelos seus membros” .

formato da aldeia, o Estado tradicional, os calendários, a lei e a própria briga de galos podiam ser “lidos” como “texto”, ou para não soar estrídulo e acalmar os adeptos da literalidade, como “análogos de textos”; analogia explicita inspirada nas formulações do filósofo Paul Ricoeur155 que, ao lado das imagens do jogo (Erving Goffmam)156 e do drama (Victor Turner),157 contribui, na opinião do autor, para a reconfiguração da teoria social.

Advinda desse nascedouro, a antropologia de Clifford Geertz, está baseada num modelo filosófico que se caracteriza por uma tomada intersubjetiva, desmistificando muito daquilo que anteriormente passara sem questionamento na construção de narrativas, observações e descrições etnográficas. Contribuindo para uma crescente visibilidade dos processos criativos, poder-se-ia até dizer poéticos, pelos quais objetos culturais são inventados e tratados como significativos.

É desta maneira, que Clifford Geertz procurou “ler” a cultura como um “texto”. “Texto” este, enredado numa tessitura de significados, elaborados socialmente pelos homens, sendo a sua exegese, o ofício da Antropologia. Assim, adaptou a teoria de Paul Ricoeur ao trabalho de campo antropológico, onde aparece uma relação necessária entre o “texto” e o mundo. A interpretação antropológica configuraria, portanto, uma “leitura” “por sobre os ombros do nativo” que faz a leitura de primeira mão da cultura158.

Com esse aporte teórico, inicia-se um movimento, ao mesmo tempo teórico e metodológico, denominado de “antropologia simbólica”, que para Clifford Geertz, tendo como referência às idéias do sociólogo Max Weber, é um empreendimento essencialmente hermenêutico, preferindo o autor, dessa forma, chamá-lo de Antropologia Interpretativa.

Uma antropologia na busca do significado, onde a cultura seria pensada como um padrão historicamente transmitido, de significados incorporados em símbolos; um sistema de concepções herdadas, expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seus conhecimentos e suas atitudes acerca da vida. Portanto, como

155Paul Ricoeur faz a análise hermenêutica via a lingüística. É considerado, por alguns, como o filósofo do sentido, por

fazer investigações dos diversos usos da linguagem enquanto discurso significativo, fazendo incidir a análise fenomenológica-hermeneutica sobre a análise lingüística, fornecendo bases para que se “olhe” a cultura como um conjunto de “textos” a serem interpretados. Para esse autor, a interpretação é um processo de desvelamento de novos modos de ser, proporcionando ao sujeito uma nova capacidade de conhecer a si mesmo. O autor/interprete vê-se como participante de uma cultura e de uma realidade histórica. Cf. RICOEUR, Paul. Teoria da Interpretação: o discurso e o

excesso de significação. Lisboa: Edição 70, 1976.

156Cf. GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1975. 157Cf. TURNER, Victor W. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Op. cit.

“texto” socialmente elaborado e como contexto, no interior do qual as ações sociais podem ser descritas de forma inteligível, ou seja, “com densidade”.

A etnografia seria definida então, como “descrição densa”, e concebida como tarefa eminentemente interpretativa e – é bom lembrar – microscópica, o que levaria a teoria a manter-se mais próxima ao terreno.

Olhar as dimensões simbólicas da ação social – arte, religião, ideologia, ciência, lei, moralidade, senso comum – não é afastar-se dos dilemas existenciais da vida em favor de algum domínio empírico de formas não-emocionalizadas; é mergulhar no meio delas. A vocação essencial da antropologia interpretativa não é responder às nossas questões mais profundas, mas colocar à nossa disposição as respostas que outros deram – apascentando outros carneiros em outros vales – e assim incluí-las no registro de consultas sobre o que o homem falou.159

Esses “tateios desajeitados” das interpretações culturais são mostrados por este autor,160 talvez de forma mais adequada, na coletânea de ensaios (fruto da participação do autor em simpósios, conferências e debates, em lugares e épocas diversos), reunidos sob o título O Saber

Local: novos ensaios de antropologia interpretativa, publicado originalmente em 1983.161

Sendo assim, todo o esforço do autor, não só na obra em questão, mas em toda sua produção acadêmica, visa demonstrar que “(...) o estudo interpretativo da cultura representa um esforço para aceitar a diversidade entre as várias maneiras que seres humanos têm de construir suas vidas no processo de vivê-las”.162

Esse esgarçamento de fronteiras que este autor sugere, convida ao exercício da busca de possibilidades. A partir da “crença” de que o outro existe como legítimo, pensá-lo como interlocutor com possibilidade de diálogo. Pode-se dizer que para este autor, o conceito de cultura é essencialmente semiótico, na medida em que a cultura é abordada como teias de significados tecidas pelo próprio homem e por sua análise.

159Ibidem. pp. 40/41.

160Autor que esgarçou e ultrapassou as fronteiras disciplinares, influenciando e dialogando com outras áreas, abrindo

espaços para discussões, polêmicas e redefinições. Valendo conferir sobre isso, os vários ensaios que compõem a obra GERRTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Op. cit. Bem como: Obras e

Vidas: o antropólogo como autor. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007 e Observando o Islã: o desenvolvimento religioso no Marrocos e Indonésia. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

161Cf. GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Op. cit. 162Ibidem. p. 29.

Quando vista como um conjunto de mecanismos simbólicos para controle do comportamento, fontes de informação extra-somáticas, a cultura fornece o vinculo entre o que os homens são intrinsecamente capazes de se tornar e o que eles realmente se tornam, um por um. Tornar-se humano é tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção dos padrões culturais, sistemas de significados criados historicamente em termos dos quais damos forma, ordem, objetivo e direção às nossas vidas.163

Partindo desse ponto de vista, a antropologia cultural não seria uma ciência experimental à procura de leis, mas uma ciência interpretativa, em busca de significados. Nessa perspectiva, se quisermos refletir, ou ainda, se quisermos fazer uma etnografia de determinado grupo, devemos olhar o que seus participantes fazem e analisar os significados que atribuem a suas práticas. Portanto:

(...) a etnografia é uma descrição densa. O que o etnógrafo enfrenta, de fato, (...) é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes, observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de propriedade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer a etnografia é como tentar ler (no sentido de „construir uma leitura de‟) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escritos não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado.164

Desta maneira, o autor está contrapondo-se a toda a antropologia até então fundamentada nos preceitos positivistas, que buscavam de maneira geral, um procedimento “objetivista” de explicação de um dado fenômeno cultural.

Denominada pelo próprio autor, como Antropologia Interpretativa, sua teoria, como já fora dito anteriormente, busca “ler” a cultura como um “texto”, ou seja, não mais irá buscar códigos e sim possibilidades para a interpretação dos “nativos” ou do outro. O que faria então, o antropólogo, com base nesse novo aporte teórico, seria escrever uma interpretação. Uma leitura sobre o que o

outro está dizendo.

Sendo assim, a Antropologia Interpretativa, podemos dizer, representa uma reação ao “objetivismo” imposto à análise da vida cultural; que, para seu autor, esbarra na promessa de uma suposta previsibilidade dos fenômenos sociais que nunca foram alcançadas, o que para este autor é o grande equívoco de seus predecessores. Dito por ele mesmo:

163Cf. GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Op. cit. p. 64. 164Ibidem. p. 20.

[d]ez anos atrás, a sugestão de que fenômenos culturais pudessem ser tratados como sistemas significativos, capazes de propor questões expositivas, era muito mais alarmante para os cientistas sociais do que é agora, visto sua tendência a serem alérgicos a qualquer coisa literária ou inexata. Em parte, no entanto, é resultado de um reconhecimento crescente de que a física social de leis e causas – a abordagem tradicional com que esses fenômenos sempre foram tratados – não estava alcançando resultados muito positivos em termos de predições, do controle e da verificabilidade que há muito vinham sendo prometidos em seu nome. 165 Sua posição caracteriza-se (em contraposição a esse “objetivismo”) por uma tomada intersubjetiva, mas lançando-se sobre uma base objetiva, isto é, essa orientação permite ao pesquisador uma descrição etnográfica “densa” e, desta maneira, penetrar no universo simbólico do

outro, sem cair no risco do objetivismo que tenciona buscar leis, códigos e estruturas. É assim que, apoiando-se na semiótica, como já fora mencionado, o autor acredita como Max Weber “(...) que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu”.166 Onde a cultura, portanto, seriam essas teias.

O que este autor nos ajuda a perceber, é que entre as ações realizadas e os diversos e possíveis significados a elas atribuídas por seus participantes, existe “(...) uma hierarquia estratificada de estruturas significantes”,167 em torno das quais as ações são percebidas e interpretadas pelos atores. O objetivo da etnografia seria, portanto, desvendar essa hierarquia, a fim de compreender o significado das práticas que têm como objeto de observação. E sobre a tarefa do etnógrafo, afirma o autor:

(...) no estudo da cultura a análise penetra no próprio corpo do objeto – isto é, começamos com as nossas próprias interpretações do que pretendem nossos informantes, ou o que achamos que eles pretendem, e depois passamos a sistematizá-las – (...) os textos antropológicos são eles mesmo interpretações e, na verdade, de segunda e terceira mão (...) somente um nativo faz a interpretação em primeira mão: é a sua cultura.168

165Cf. GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Op. cit. pp. 9/10. 166Cf. GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Op. cit. p. 15.

167Ibidem. p. 17. 168Ibidem. p. 25.

Portanto, o que o antropólogo deve buscar no universo do outro é dominar instrumentos de comunicação (mesmo uma expressão corporal), imprescindíveis ao “entrosamento” do pesquisador no grupo pesquisado. Esses instrumentos (signos, símbolos) serão a via de acesso à maneira como esses vêem e sentem o mundo.

Para Clifford Geertz, compreender um universo simbólico significa compartilhá-lo. Essa apreensão só se efetiva com uma prolongada incursão a campo. Apenas dessa maneira, esses dados serão compreendidos. Dessa maneira, o maior objetivo do antropólogo em campo consiste – dentro de um agrupamento aparentemente incontrolável de frases, gestos, palavras – em trazer a tona códigos chaves, responsáveis pela produção e reprodução da cultura do grupo. Esses códigos abrirão o portal de entrada para o universo simbólico do pesquisado, e ao mesmo tempo, como se o antropólogo estivesse na frente de um espelho, denotarão como esse contato intersubjetivo pode proporcionar ao pesquisador a compreensão da grande questão da Antropologia, ou, parafraseando o próprio autor: por que os homens fazem o que fazem?

Para utilizar a análise antropológica proposta por este autor, como forma de conhecimento, precisamos antes de qualquer coisa, compreender o que é a etnografia, ou mais exatamente, o que é a prática etnográfica. Selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos e manter um diário são as técnicas e os procedimentos que definem o empreendimento central, que é elaborar uma “descrição densa”. Dessa forma, uma descrição, ainda que densa, é uma das possíveis leituras de um discurso ou de uma situação em análise, uma vez que:

[a] análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciência estranha, cujas afirmativas mais marcantes são as que têm a base mais trêmula, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a suspeita, a sua própria, e a dos outros, de que você não o está encarando de maneira correta. Mas essa é que é a vida do etnógrafo, além de perseguir pessoas sutis com questões obtusas.169

Como quer este autor, muitas vezes na tentativa de estabelecer um diálogo com seus interlocutores, entrevistá-los, observar seu cotidiano, imiscuir-se em suas vidas, enfim realizar seu trabalho de campo, o etnógrafo enfrenta as mais variadas situações. Posto que seus informantes/interlocutores estão ocupados em tecer esses intangíveis enredos de vida feitos de

sentidos, sentimentos, emoções e contradições, nem sempre traduzíveis ou instantaneamente resumíveis.

Um exemplo disto, se expressa na minha relação com Adonis, que por trabalhar pela manhã e parte da tarde, nossos encontros, na maioria das vezes, aconteceram em sua residência, pelo período da noite. Por morar na casa dos familiares de sua parceira, nem sempre nossas conversas fluíram como eu gostaria. A presença de outras pessoas dava para perceber, filtravam suas falas. Da mesma forma, por vezes, também me faziam ser menos incisivo nos questionamentos. No entanto, esses nossos constrangimentos, serviram-me de objeto para análise. O fato de não morar em sua própria casa, com sua filha e parceira, gera um incômodo facilmente perceptível. Da mesma forma, o fato de não ter oficializado, pelo casamento, sua união com sua parceira, gera da parte dela uma insegurança e/ou desconfiança. Digo isso, pela insistência de sua presença em quase todos os momentos de meus encontros com seu parceiro. Nesses momentos pude perceber, por sua articulação corporal, expressões de discordâncias e dúvidas. Não com relação aos compromissos de seu parceiro para com sua filha, mas com relação a ela mesma. Muito embora saibamos que nesses casos, “(...) a emoção ou o sentimento jamais se compõem de uma única tintura, frequentemente eles são mesclados e oscilam de uma tonalidade à outra, marcados pela ambivalência”.170

Mas, ciente de que nada se perde numa empreitada dessa natureza, é preciso por parte do etnógrafo, uma dose muito grande de habilidade para poder desenvolver a contento seu trabalho de campo. Afinal, como interprete, há que se aprender a dedilhar uma composição sobre um teclado de emoções.