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Vale ressaltar que às etnografias clássicas e ao modelo geertziano, a partir dos meados dos anos 80 do último século, uma crítica tem sido feita; crítica esta chamada de pós-moderna.

Segundo a antropóloga, Teresa Pires do Rio Caldeira,171 autores críticos pós-modernos como James Clifford, George E. Marcus, Dick Cushman, Talad Asad, James Boon, Kevin Dwyer entre outros, admitem que a Antropologia Interpretativa, ao conceber as culturas como “textos” e a análise antropológica como interpretação sempre provisória, rompeu com o modelo clássico de

170Cf. LE BRETON, David. As paixões ordinárias: antropologia das emoções. Petrópolis: Vozes, 2009. p. 208. 171Cf. CALDEIRA, Tereza Pires do Rio. A presença do autor e a pós-modernidade em Antropologia. Op. cit.

etnografia. No entanto, a autora lembra que para esses autores críticos pós-modernos, esse rompimento foi apenas parcial, uma vez que, “[a] interpretação seria ainda sobre uma outra cultura entendida como entidade autônoma e separada do antropólogo, e uma atividade que re-elabora a experiência e recria a totalidade”.172

Dessa forma, para os autores críticos pós-modernos, “(...) a etnografia não deve ser uma interpretação sobre, mas uma negociação com, um diálogo, expressão das trocas entre uma multiplicidade de vozes”.173

No entanto, segundo o antropólogo George Marcus,174 estas críticas não se constituem em um modelo e, muito menos em um paradigma. Mas, ainda que fossem, é bom lembrar que, conforme sugere Roberto Cardoso de Oliveira,175 na Antropologia como nas ciências sociais em geral, os paradigmas coexistem no tempo, mantendo-se todos e cada um ativos e relativamente eficientes. Sendo assim, muitos dos mais celebrados antropólogos de ontem e de hoje não se filiam de maneira nítida a nenhum dos paradigmas, “(...) transitam, consciente e criticamente, entre os paradigmas, entre as Escolas”.176

Em outro momento, esse mesmo autor diz:

(...) a marca do exercício moderno da interpretação e que não posso deixar de destacar, uma vez que, a rigor, não apenas a boa etnografia capta versões que os próprios atores sociais ou sujeitos da pesquisa produzem sobre suas experiências vitais, os discursos nativos, mas também o pesquisador produz sua versão ou seu ponto de vista ainda que abrigado em um paradigma, ou corpo teórico ou tradição intelectual, isto é, inapelavelmente comprometido com o seu discurso científico.177

As questões pertinentes às bases de como pensar o outro e da autoria etnográfica, são antigas na Antropologia.

Qualquer um que já tenha vivido com tribos primitivas partilhando de suas alegrias e tristezas, suas privações, que vê neles não apenas objetos de estudos para serem examinados como uma célula sob um microscópio, mas seres humanos que sentem

172Ibidem. p. 141. 173Idem.

174Cf. MARCUS, George E. O que vem (logo) depois do pós: o caso da etnografia. Op.cit.

175Cf. CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O pensamento antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 1980. 176Ibidem. p.23.

177Cf. CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Da comparação: a propósito de Carnavais, malandros e heróis. In

GOMES, Laura Graziela et al. O Brasil não é para principiantes: Carnavais, malandros e heróis, 20 anos depois. Rio de Janeiro: FGV, 2000. p. 38.

e pensam, concordará que não existe uma coisa tal qual uma mente primitiva, uma maneira mágica ou pré-lógica de pensar, mas sim que cada indivíduo numa sociedade primitiva é um homem, uma mulher, uma criança da mesma espécie, com o mesmo modo de pensar, sentir e agir como homem, mulher ou criança da nossa própria sociedade.178

Dessa forma, percebe-se que a crítica feita por alguns autores pós-modernos, por vezes sugere radicalizações, sobre alguns aspectos que já foram colocados pela Antropologia Cultural em momentos passados. Mostrar isso parece ser a principal preocupação de Tereza Pires do Rio Caldeira, em seu artigo A presença do autor e a pós-modernidade em antropologia, citado anteriormente. Nele, encontram-se muitas das inquietações, das críticas e das propostas de etnografias feitas por alguns antropólogos, ditos, “pós-modernos”.

Na mesma direção caminha a antropóloga Mariza Peirano,179 que busca compreender os motivos para críticas tão fortes e para a desconstrução dos “mitos” de antropólogos clássicos. Bem como, colocando-se A favor da etnografia, comenta que passado pouco mais de um século, ainda questiona-se a cientificidade da etnografia. Pode-se dizer, pela orientação desta autora, que esta mudança é mais aditiva que substantiva, em palavras, “(...) quando novas idéias, novos objetos ou novas práticas aparecem, coexistem com outros mais velhos, em vez de os expulsar”.180

Sendo assim, desde a refutação feita pelo referencial antropólogo Bronislaw Malinowisk à “antropologia de gabinete”,181 advogando a “observação participante”, definida por ele como a convivência íntima e prolongada do pesquisador com seus “informantes nativos”, que um determinado tipo de relação vem se estabelecendo.182 Relação essa, na qual o antropólogo se coloca como um instrumento de pesquisa e, de acordo com Vagner Gonçalves da Silva, ela vem “(...) proporcionando à antropologia a perspectiva intersticial (o olhar desde dentro) que é sua ferramenta básica, sua marca registrada, desde então”.183

178Cf. BERNARDO, Teresinha. Memória em branco e negro: olhares sobre São Paulo. São Paulo: EDUC/UNESP,

1998. p.36.

179Cf. PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. Op. cit.

180Cf. BURKE, Peter. O historiador como colunista: ensaios da Folha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

p. 230.

181Cf. MAILINOWISK, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril, [1922]1984.

182Vale ressaltar, só para citar alguns exemplos, que Bronislaw Malinowski não foi certamente, o único a defender a

necessidade do trabalho de campo. Lewis Henry Morgan, no que pese ter sido um teórico evolucionista, manteve contatos com grupos por ele descritos. Franz Boas, da mesma forma, também desenvolveu trabalho de campo entre os esquimós e os indígenas norte-americanos.

183Cf. SILVA, Vagner Gonçalves da. O Antropólogo e sua Magia: trabalho de campo e texto etnográfico nas

Nas últimas décadas, o tema do trabalho de campo, seus limites e os objetivos do texto etnográfico têm sido discutidos com mais virulência pelos críticos pós-modernos. “(...) as preocupações desses etnógrafos (ou meta-etnógrafos) recaíram sobre questões relativas ao próprio processo de produção das representações antropológicas”.184

De uma forma ainda que resumida, entre outras, são preocupações dos críticos pós- modernos:

(... ) de que modo as condições de coleta dos dados de campo, ao envolver dimensões como a intersubjetividade e as relações de poder estabelecidas entre antropólogo e grupo estudado, afetam as interpretações produzidas e são referidas no próprio texto etnográfico – descrição? Ou seja, de que modo as relações „sujeito-objeto‟ (como rotinas de pesquisas já consagradas) são transpostas de sua historicidade e influem na representação do outro que aparece nos trabalhos finais escritos? E mais, como pensar a pesquisa etnográfica quando o antropólogo (o „pesquisador-autor‟ ou „tradutor‟) escreve sobre e para a cultura da qual ambos, pesquisador e pesquisado, fazem parte e, muitas vezes, esse último, passando do papel de „personagem‟ para o de leitor, pode discutir as representações que os pesquisadores fazem dele? Nesse caso, o que os grupos estudados têm a dizer sobre as imagens transmitidas pela etnografia? Como avaliam o processo de inserção dos antropólogos e quais as conseqüências que o discurso científico tem, efetivamente, sobre suas práticas sociais?185

O que não se deve, no entanto, perder de vista, é a máxima de que o antropólogo se faz no campo. E essa construção, advém das diferentes dimensões de relacionamentos do antropólogo no campo com os grupos estudados, do modo pelo quais esses relacionamentos se refletem na pesquisa e como se dá a passagem do campo ao texto etnográfico186. Tendo em mente, a lição já bem antiga e sempre atual, de que na pesquisa etnográfica há que se considerar os “(...) aspectos imponderáveis da vida real”.187