requirements for non-radiological assessments of waste disposal
3.1 Quantitative human health risk assessment methods
O advento da convergência de estilos e de tendências é um processo típico do mundo das narrativas tradicionais que vão se modificando a partir da evolução tecnológica ligada à forma compositiva e que, por sua vez, também sofistica os processos de leitura da narrativa ficcional.
Tal advento foi historicamente incentivado pelo contexto da produção cultural, seja com o material acústico, gráfico, imagético, e pode-se traçar o processo evolutivo na hibridização e na procura de formas alternativas e inovadoras de contar narrativas ficcionais.
Jenkins (2008) afirma que todas as mídias estão convergindo para o espaço do ambiente virtual, o que ele denomina como cultura da convergência. Isso demanda que encaremos a literatura como mídia, segundo a fundamentação de Gitelman (2006). Assim podemos identificar um processo de migração da tecnologia narrativa literária para o ambiente virtual.
Citando Jenkins (2008):
Bem-vindo à cultura da convergência, onde velhas e novas mídias colidem, onde a mídia corporativa e a mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis. A cultura da
158 convergência é o futuro, mas está sendo moldada hoje. Os consumidores terão mais poder na cultura da convergência – mas somente se reconhecerem e utilizarem esse poder tanto como consumidores quanto como cidadãos, como plenos participantes de nossa cultura.(p. 328).
A literatura para a geração digital é perpassada também por uma educação midiática, onde o aspecto interativo e o de consumo cultural são levados em conta, e para reforçar isso, citamos uma declaração de Jenkins: “Precisamos repensar os objetivos da educação midiática, a fim de que os jovens possam vir a se considerar produtores e participantes culturais, e não apenas consumidores, críticos ou não. Para atingir este objetivo, precisamos também de educação midiática para os adultos.” (2008, p. 328).
Fundamentamo-nos no conceito de cultura proposto por Lotman, que afirma que se pode “considerar a cultura como uma língua e como um conjunto de textos redigidos nessa língua”. (LOTMAN apud AGUIAR E SILVA, 1998, p. 94).
A literatura é um capital cultural, não é apenas um capital de consumo, pois não aborda apenas temas agradáveis ao consumidor e, sim, muitas vezes reflete temáticas questionadoras e perturbadoras. É um capital de identidade, de humanização, de compartilhamento do conhecimento e do imaginário de civilizações do passado, do presente e do futuro.
As instituições educacionais voltadas para o ensino de literatura não investem em leitores-consumidores, mas em leitores-cidadãos, porque a arte oferece essa consciência crítica e autocrítica da qual o mercado midiático por vezes se esquece, já que preconiza o consumo como prioridade.
A prioridade para a área de estudos literários é o leitor-criador, o leitor-reflexivo, para que novas invenções tragam desenvolvimento, não só tecnológico, mas também nas dimensões do saber humano;, e que esta revolução se estenda não só na técnica, mas nas relações sociais, nos pensamentos, nas ideologias, em busca de uma sociedade mais justa e equilibrada.
Estabelecer o equilíbrio e harmonizar e dinamizar o processo de criatividade imaginativa com o avanço tecnológico acaba sendo o que a narrativa ficcional e sua tradição oferecem ao meio virtualizado.
159 A convergência midiática e a hibridização de recursos midiáticos na elaboração das novas narrativas ficcionais mostram ser uma expansão da proposta sinestésica32 do simbolismo.
As mídias, em sua convergência e hibridização como técnica de escritura de narrativa ficcional, proporcionam o envolvimento de outros sentidos e outras estratégias mentais geradas com o texto tradicional, construído somente com palavras e técnicas de desdobramento do enredo.
Podemos integrar as possibilidades de uma ferramenta web, como a rede social Twiter.com,33 que podem gerar possibilidades de composição narrativa ficcional na elaboração de narrativas interativas trabalhando outras dimensões de interatividade baseadas nas mídias móveis, como o celular – via SMS –, mensageiro instantâneo, e-mail, site oficial ou programa especializado.
Um usuário-leitor assinante pode ler uma narrativa ficcional que podemos classificar como um m-conto (micro-conto), composto de 140 caracteres, emitido pelo Twiter.com aos filiados, ao mesmo tempo, em qualquer parte da cidade, do país ou do mundo.
Agora, mais do que nunca, a narrativa ficcional nos conecta em uma roda virtualizada tribal, nos conduzindo aos primórdios de uma memória humana e não apenas eletrônica, na integração de três mundos: o físico, o imanente diegético e o virtual. Estamos na eminência de criar uma nova forma de sociabilidade cultural fundamentada no eixo das narrativas ficcionais.
O grande dilema é equilibrar o consumo de produtos culturais, como é o caso das narrativas ficcionais, na apreciação estética, e não apenas por consumo pecuniário ou por indução flutuante dos humores da moda. Uma alternativa para isso seria investir no caráter da apreciação intelectual libertária, do estímulo do prazer estético.
Conseguir que estas duas vertentes, o comercial e o artístico, convivam sem afetar a integridade do ideal da arte, ambos ocupando um mesmo ciberespaço, constitui um grande desafio.
32 Sinestesia: a relação de planos sensoriais diferentes. Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o olfato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica. Como figura de liguaguem a sinestesia é uma figura de estilo ou semântica que relaciona planos sensoriais diferentes. Tal como a metáfora ou a comparação por símile, são relacionadas entidades de universos distintos.
33 Fundado em março de 2006, pela Obvious Corp, é uma rede social e servidor para microblogging que permite que os usuários enviem atualizações pessoais contendo apenas texto com menos de 140 caracteres via SMS.
160 A verdade é que um novo sistema de comunicação surge com a influência digital e dentro dele se integra o próprio sistema especializado de comunicação, que é o da narrativa ficcional. Castells (1991) refere-se à rede virtual que pode constituir esse novo sistema:
O que caracteriza o novo sistema de comunicação, baseado na integração em rede digitalizada de múltiplos modos de comunicação, é sua capacidade de inclusão e abrangência de todas as expressões culturais. [...] No entanto, não quer dizer que haja homogeneização das expressões culturais e domínio completo de códigos por alguns emissores centrais. É precisamente devido a sua diversificação, multimodalidade e versatilidade que o novo sistema de comunicação é capaz de abarcar e integrar todas as formas de expressão, bem como a diversidade de interesses, valores e imaginações, inclusive a expressão de conflitos sociais. (p. 397).
A narrativa em formato tradicional do cânone literário sobreviverá juntamente com as novas formas de composição e leitura da narrativa ficcional composta com a influência das TICs. Manovich (2002) pondera sobre a revolução do computador afirmando que as interfaces culturais se baseiam no conjunto de elementos herdados das outras interfaces anteriores a ela. Essa revolução é influenciada pelo contexto de produção e da experiência, assim como pelo acervo de conhecimentos dado ao seu criador, seja um designer ou um programador.
De forma semelhante, a narrativa ficcional se fundamenta na tradição da técnica da construção narrativa que advém dos primórdios das narrativas orais e da arte de contar histórias, desde o advento da técnica da escrita até chegar aos nossos dias, com a revolução digital.
O que isso implica para literatura? Retornando às idéias de Manovich (2000), existe uma definição de três visões de mundo que se identificam e que estão integradas ao meio de produção cultural atual: o texto impresso (técnica da escrita), o cinema (técnica áudio- visual) e a interface homem-computador (técnica digital).
O fato é que todas as três visões irão se fundamentar na produção do objeto cultural que reflita as tradições culturais, a valoração da memória e da experiência humana e o intercâmbio de informações socioculturais.
Devemos levar em conta que, na era digital, vemos a transferência da dinâmica sociocultural humana para o ambiente virtualizado e uma influência da dinâmica digital para a formação do pensamento, de sua expressão e de sua aquisição, influenciando os meios externos tanto na forma audiovisual quanto nos meios impressos.
A narrativa ficcional digital abarca a cultura da convergência, se integra e hibridiza recursos como animações, vídeos, músicas, linguagem-jogo e texto escrito e, assim,
161 imagem, som, escrita começam a escrever uma narrativa conjuntamente. Citando Jenkins, sobre o conceito de convergência:
Por convergência refiro-me ao fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório de públicos de meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do que imaginam estar falando. (Jenkins, 2008, p. 27).
A convergência permite a facilidade da hibridização de linguagens para a composição narrativa e envolve uma nova forma de elaboração da tríade da linguagem poética intensificada pelo ambiente virtual.
A aesthesis virtualizada (poesis-mimesis-catarsis) compõe um todo significante, uma unidade que comporá redes de sentidos dentro das redes de sentido multilineares da narrativa hipertextual. O conteúdo da rede comunicativa da obra literária é sempre plurissignificativo e polifônico, conforme Bakhtin (1997).
Uma narrativa com influência do meio digital utilizará, para compor sua mimesis, as descrições dos gráficos 3D, simulações visuais de elementos e do ambiente que conferem maior visibilidade do mundo ficcional virtual projetado, com possibilidade de aumentar a catarsis por meio de recursos sonoros, entre outras possibilidades.
A narrativa hipertextual e que segue o modelo fractal é complexa na construção do seu equilíbrio interno como texto, pois elabora uma rede de sentidos intrincada e estimulante, devido ao potencial simulador das ferramentas tecnológicas somadas aos recursos lingüísticos literários.
As manifestações de coesão e coerência, como também dos recursos estilísticos e técnicos, com a influência do digital, se revelam muito mais sofisticados.
Um exemplo disso seria a coesão de inferência gerada na composição de um texto como The Patchwork Girl, de Jackson, que fundamenta a sua coerência fundamentando-se na intertextualidade direta com a obra Frankenstein, de Mary Shelley. Num segundo momento, o texto utiliza o recurso de coesão textual através da imagem do corpo feminino, que estabelece links a partir dos membros. Eles remetem diretamente às lexias narrativas do conto hipertextual.
A obra literária, inerente a si, possui uma rede intrínseca de narrativas integradas pela intertextualidade, como também dimensões de leitura que demandam um grau de
162 sofisticação da habilidade de interpretar e de formação de modelos mentais prévios de leitura e escritura.
Aguiar e Silva afirma:
[...] o código literário configura-se como um policódigo que resulta da dinâmica intersistémica e intra-sistémica de uma pluralidade de códigos e subcódigos pertencentes ao sistema modalizante secundário que é a literatura e que entram em relação de interdependência – nuns casos, necessariamente; noutros casos opcionalmente – com os códigos do sistema modelizante primário e com códigos de outros sistemas modelizantes secundários. (1998, p. 100).
Esse aspecto é importante ao identificar que tal rede intrínseca de narrativas integradas, no caso de uma proposta de adaptação do clássico literário para uma dinâmica de narrativa com trama emolutória interativa, haverá de equilibrar essa rede já preexistente no clássico com a rede de formato hipertextual, multimodal e multilinear da narrativa elaborada em mundo digital.
As estruturas básicas de elementos narrativos que formam o protocolo de elaboração e identificação de narrativas ficcionais criam atualmente novas alternativas possíveis, fluindo pelas relações criadas pela cibercultura.