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Para entender os código de valores que regem as narrativas das jovens viúvas é necessário situar esse grupo dentro dos contextos onde experimentaram as diversas experiências de vida. Nesse sentido, a casa é inicialmente o lugar onde elas se encontram ao lado de suas famílias e onde ocupam a função de filhas. Seus relatos evidenciam que esses lugares são marcados pela autoridade familiar, pela obediência e respeito aos pais. Era o momento de ter suas vontades controladas e vigiadas, o que posteriormente as levam em busca de uma pseudo- liberdade vinculada a rua.

As jovens viúvas são provenientes de famílias basicamente nucleares. São compostas por um pai, uma mãe, irmãos e irmãs. Das sete jovens apenas duas não foram criadas tendo uma figura paterna e apenas uma é filha única. Então não podemos de forma nenhuma pensar que elas foram criadas a “solta” ou que vieram de famílias classificadas pelo senso comum como “desestruturadas”, mesmo porque são conceitos vagos que denotam apenas marcas estigmatizantes. Elas são pessoas que apesar do cotidiano miserável, onde lhes faltavam quase tudo, não culpam a falta de orientação familiar pelo fato de terem se relacionado com garotos envolvidos em gangues juvenis.

Para Elisa, a orientação familiar é imprescindível para evitar que os jovens se envolvam em atos criminosos:

Eu acho que eles se metem muito assim, com a violência porque às vezes não tem uma orientação da mãe e do pai, né. É um filho ‘desbundado’, sei não! Só entra dentro de casa só pra merendar, ou só pra almoçar e sai de novo. (...) É que o pai nem a mãe não tem moral, porque a pessoa pra ter moral não precisa bater, precisa ter moral e não bater, porque bater a pessoa fica mais safada ainda batendo. Eu acho que tem desses que não querem conselho de mãe, acha que tudo é brincadeira, e que querem ir pro mal, e acha que a mãe fica inventando mil coisas, né (Elisa,

20 anos).

Esse relato evidencia a autoridade familiar como um elemento que pode ter bastante eficácia na criação dos filhos. É comum no cotidiano dos bairros pobres a

vizinhança desempenhar um papel de “parceira” no momento de criação dos filhos34, tendo em vista que, lá os laços de solidariedade são muito fortes e as dimensões entre o que é público e o que é privado são muito pequenas. Assim, os pais que trabalham fora acreditam que seus filhos estarão sendo cuidados e vigiados. Mas essa “ausência” pode levar a uma falta de controle sobre o comportamento dessas crianças e jovens que ficam sujeitos as experiências da rua, que às vezes podem ser “perigosas”. Esse foi o caso de Elisa que sempre teve pais “ausentes” por estarem trabalhando. Assim, ela pode fazer o que quis, sem que houvesse ordens ou empecilhos, apesar de considerar que recebia de sua mãe conselhos para não se envolver com os “garotos perigosos” do bairro. Mas na realidade sua família sabia pouco sobre a vida que a jovem levava fora de casa.

Elisa disse que sempre trabalhou fora para ajudar nas despesas domésticas, já que possui uma família numerosa, e conseguiu completar os estudos. Ela mora com os pais e com quatro irmãos e a filha caçula.Tem uma outra filha que mora com a família do companheiro falecido. Ele era integrante de uma gangue do bairro e, segundo afirma, era também o chefe dessa gangue. O rapaz teve um ataque cardíaco dentro de um ônibus e o laudo médico constatou que foi provocado pelo uso de drogas. Elisa afirmou que ele era “muito doido” e ao lado dele também pode experimentar diversos tipos de drogas.

34 Diferente da prática das classes ricas e médias que podem contratar empregados ou

matricularem os filhos em tempo integral nas escolas, evitando que eles fiquem expostos aos “perigos” da rua ou longe de olhares vigilante capazes de controlar seus comportamentos.

Com o seu falecimento a família do rapaz considerou que Elisa não era capaz de criar uma criança e entrou na justiça para conseguir a guarda da menina. Eles ganharam e hoje ela enfrenta dificuldades para visitar a filha. Elisa disse que sofreu muito com a perda do companheiro e demorou um tempo para namorar outro rapaz. Esse novo relacionamento foi com o pai de sua segunda filha, outro integrante de gangue. O tempo do namoro foi curto e logo o casal se separou, mas hoje o rapaz costuma com freqüência visitar a menina, além de ajudar nas despesas de sua criação. Elisa continua trabalhando e disse não andar mais com a mesma turma. A empolgação da adolescente passou, suas aspirações e valores são outros, e hoje, seu lugar é a casa.

Para DaMatta (1997):

na rua podem-se admitir contradições próprias deste espaço. Mas na casa as contradições devem ser banidas, sob pena de causarem um intolerável mal-estar. Afinal de contas, a casa não admite contradições, se essas contradições não podem ser imediatamente postas em ordem: em hierarquia ou gradação. A equivalência entre sentimentos ou moralidades, comuns a rua, é perigosa em casa (1997:56).

Nesse sentido, a casa é o lugar dos olhares vigilantes da família, que cobra uma obediência e tenta impedir possíveis desordens. Mas à vontade de conhecer o outro lado da vida, a que se dá na rua, termina minando essa possibilidade de ordenamento e trás o conflito para a casa, pois o jovem curioso vai lutar para

enfim, experimentar os enigmas reservados ao lugar “perigoso” da rua. Na adolescência a autoridade familiar perde a sua força e o jovem sai em busca do mundo público, ele quer se fazer visível e delimitar o seu espaço, construindo marcas e alardeando seus anseios.

Assim, a calmaria da casa é substituída pelo movimento da rua, como indica DaMatta (1997):

se a casa distingue esse espaço de calma e repouso, recuperação e hospitalidade, enfim, de tudo aquilo que define a nossa idéia de “amor”, “carinho” e “calor humano”, a rua é um espaço definido precisamente ao inverso. Terra que pertence ao “governo” ou ao “povo” e que está sempre repleta de fluidez e movimento. A rua é um local perigoso (1997:57).

Inicialmente em casa elas são as filhas, mas na rua a função da mulher do chefe denota uma outra postura. É lá que seus relatos são mais extensos e norteados pela emoção e empolgação que a invisibilidade da casa ofusca. De qualquer forma a casa sempre vai representar para essas jovens o lugar do repouso, do descanso, e vez por outra elas desejarão isso. Idas e vindas marcaram a vida das jovens viúvas a casa, a suas moradas, ao lugar onde um dia o cuidado da família vai ser avaliado de outra forma, com outro significado, que só será percebido após a ida a rua, após as experiências vividas nesse lugar até então desconhecido.