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A lembrança do tempo de amar que foi finalizado de forma trágica e repentina é marcada por vários sentimentos. Essa ambivalência diz respeito tanto aos vários significados dados no momento de viver a morte como posteriormente, no tempo do luto. Esse é o momento de viver com as lembranças deixadas de uma época que não volta mais. Assim, a saudade acompanha a dor da perda, a solidão e todo

o sofrimento ocasionado pela morte de uma pessoa querida. Quanto maior a saudade, maior o amor por aquela pessoa que não se pode mais tocar, sentir, olhar.

Esse é o sentimento que fica e com o tempo aprende-se a viver com ele. Inicialmente se acredita que a dor é tão grande que nunca passará. À vontade de estar com aquela pessoa aumenta ainda mais. Com o tempo a dor diminui, mas nunca deixara de existir, e vez por outra é despertada pela lembrança. Quando se trata de uma saudade irremediável, provocada pela morte de uma pessoa, só resta como alternativa acreditar que através de sua própria morte a saudade será sanada, pois reencontraríamos novamente a pessoa amada.

Assim, a saudade qualifica socialmente as pessoas, os momentos, os lugares e as relações e pode ser analisada como uma categoria sociológica. Para DaMatta (1993) a existência social da saudade tratada por um viés ideológico e cultural possibilita a reflexão do sentido dado a determinadas experiências vividas pelos indivíduos. Se por um lado ela é uma experiência universal comum a todos os homens em sociedade, pois se vive à experiência da passagem, da duração, da demarcação e da consciência reflexiva do tempo, por outro lado, ela singulariza e especifica elementos que não estariam presentes em outras modalidades culturais de medir, sentir e classificar o tempo.

Portanto, a saudade como categoria social expressa uma concepção especifica do tempo. Segundo DaMatta (1993):

... a saudade fala do tempo “por dentro”. Da temporalidade como experiência vivida e reversível que cristaliza uma dada qualidade. Assim, pela saudade, podemos invocar e dialogar com pedaços de tempo e assim, fazendo trazer os momentos especiais e desejados de volta. Por isso a saudade exprime igualmente como duração que pode ser (re) vivida e (re) experimentada generosa e positivamente. Com isso a saudade acena para uma percepção do tempo como experiência interna, dentro de uma hermenêutica socialmente balizada que passa de geração a geração (1993: 22).

Quando Clara narra as visitas que costuma fazer ao túmulo do ex- companheiro nota-se como esse ritual é para ela uma forma de mantê-lo vivo, de minimizar um pouco a saudade. Desse modo, do amor e da ausência nasce uma saudade que a jovem para suportá-la cria estratégias para continuar sobrevivendo. Ela acompanhou todo o processo de trato com o corpo do morto, o vestiu para o velório e zelou pelo corpo ficando ao lado do caixão durante toda a cerimônia. Apesar de seus olhos estarem comprovando aquele fato, Clara acha que nunca acreditara no ocorrido, nunca entendera porque sua história de amor teve um fim tão trágico:

Hoje em dia eu ainda sou inconformada porque como é que pode, meu Deus do céu! A gente vivia tão bem. Talvez se ele não tivesse morrido a gente já podia tá morando junto. (...) Pra mim ele não morreu. Eu chego lá no cemitério e falo: “Oi meu amor, cheguei!” Aí me sento lá no túmulo dele e converso as coisas que tá acontecendo comigo. Agora eu parei mais com isso porque eu

tô me acostumando, né, me acostumando a viver sem ele (Clara,

24 anos).

Tal é a concepção de tempo da saudade. Uma temporalidade que faz Clara aprender a viver sem o amado. É por isso que ele consola, por não ser marcado pelo relógio, por uma hora que não sabe ler a dor da saudade. Agindo como um bálsamo não possui um momento certo, contado, datado, ele apenas surge. O tempo de viver o luto contextualizado nos relatos das jovens viúvas transcorre em espaço caseiros, é um tempo que corre como lágrimas nos espaços mais íntimos da casa. Então é sobretudo intimidade, pois não engloba o tempo que DaMatta (1993) chamou de burguês, que pode ser comprado, vendido, esbanjado ou poupado, um tempo persuasivo ou coercitivo, mas que possui uma duração “poeticamente vivida e esteticamente apreendida”, sendo assim, bom ou mal, doce ou amargo, muito longo ou muito curto.

Sobre o tempo da periferia, onde a morte está inscrita no seu cotidiano, Sanchez (1997) afirma que:

O tempo da periferia não é o tempo previsível do relógio, do trabalho, ao contrário, é o tempo do possível, do acaso, do aleatório, do desemprego e, de alguma forma, também do ócio. É o tempo da doença e da morte, da dor, do sofrimento e da miséria. Paradoxalmente, esse é o tempo da vida e da experiência que Benjamin acreditava ter chegado ao fim (1997: 75).

Assim, se perpetua a saudade para as jovens viúvas, moradoras dos lugares periféricos de tempos multiformes. Lá a saudade pode ser trazida e levada, desaparece e aparece quando despertada pela memória. É o momento onde o passado facilmente se converte em presente, como indaga DaMatta (1993). Para o autor, é nesse espaço relacional produzido pelo tempo que se inscreve a saudade, pois nele as pessoas desaparecem mas as relações ficam32.

Paradoxalmente permite transformar a perda em felicidade, pois demarca no presente um tempo que foi vivido, que aconteceu e foi fruto de um passado que existiu33. A saudade possibilita a leitura da perda, da velhice, enfim da inexorável passagem do homem pelo tempo e da comunicação do passado com o presente.

Sobre essa comunicação entre mundos distintos, na concepção de DaMatta (1997) há que se pensar a sociedade brasileira sob uma lógica triangular, nesse sentido o autor compreende a cultura brasileira em três mundos: o da casa, da rua e do “outro mundo”. Para o autor, esse mundos não são simples espaços geográficos, mas conjuntos de valores e significados estipulados para cada um deles, que possuem, inclusive, um tempo próprio. Assim, o tempo da casa é cíclico prevalecendo relações de parentesco e amizade, o da rua é linear e marcado por regras impessoais, e por fim, o tempo do “outro mundo” é o tempo da eternidade. Esses mundos estão interligados e se complementam, podendo por

32

No ensaio “A morte e os mortos no Brasil”, publicado em A casa e a rua. Rio de Janeiro: Editora Rocco, DaMatta diz que no Brasil, a morte mata, mas os mortos ficam. Desse modo compreendemos sua concepção relacional de entendimento dos fenômenos sociais.

diversas vezes, se comunicarem uns com os outros, criando novas relações, sem estarem necessariamente pré-definidas.

Segundo DaMatta (1997), no “outro mundo” se localiza um plano onde tudo pode se encontrar e fazer sentido, pois representa a possibilidade de se concretizar tudo o que seria impossível no plano terreno. Então é lá o lugar da morte, de enfim, como já foi diversas vezes desejado e anunciado pelas narradoras desse estudo, o lugar de reencontrar as pessoas que já morreram. O “outro mundo” também é o lugar da esperança, da justiça e da igualdade, elementos capazes de fazer desse lugar, o lugar de amenizar o sofrimento, a dor da perda e a saudade deixada por aqueles que não vivem mais nesse mundo, o nosso mundo onde se vive o luto.

Assim, trilhando junto com Roberto DaMatta os caminhos percorridos por todos que participaram dessa viagem de pesquisa, como sugeriu o Professor Octavio Ianni, qual o lugar da casa e da rua para a vida das jovens viúvas? Além de se viver o luto na casa, qual os outros significados atribuídos a esse espaço? E quanto à rua? Como esses espaços são percebidos pelas jovens viúvas após terem vivenciado as experiências de mulher, mãe e viúva de chefes de gangues juvenis? Questões que serão desenvolvidas no último capítulo, o desembarque dessa estação.

Cap“tulo 5

Enigmas e revelações sobre a vida na casa e a