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4   Analysis and Findings

4.3   To What Extent is the Reported Information Meaningful?

4.3.1   Quality of Reporting

A análise pela abordagem do emprego – formal e total – indica que, após os anos 2000, não houve desindustrialização no sentido absoluto e relativo na indústria de transformação do Brasil. No nível setorial, também não houve evidências de desindustrialização. No entanto, somente em 2006, os empregos formais gerados ultrapassaram o nível de 1989, ou seja, apenas recentemente, a manufatura brasileira recuperou os empregos formais eliminados entre os anos 1980 e 1990.

Em relação ao valor adicionado, não houve desindustrialização no sentido absoluto na indústria de transformação, mas quatro setores apresentaram desindustrialização em termos absolutos, até 2008. No entanto, há indícios – a partir dos dados divulgados, recentemente, pelo IBGE (Pesquisa Industrial Mensal Produção Física) – que o número de setores que apresentam desindustrialização absoluta foi ampliado, especialmente entre 2010-2011. Os setores intensivos em trabalho acrescido do setor de material eletrônico e de comunicações apresentaram as maiores quedas.

Por sua vez, desde 2005, está em curso um processo de desindustrialização relativa pelo valor adicionado tanto em valores correntes como constantes (em valores correntes, a desindustrialização é mais aguda que em valores constantes). No entanto, não é comum os países apresentarem desindustrialização quando o valor adicionado é medido em valores constantes, o que evidência que nossa desindustrialização tem uma particularidade distinta da “natural”. Ademais, no triênio 2009-2011, a participação relativa da indústria de transformação na economia (medida em valores constantes) foi 2 pontos percentuais inferior ao ano de 1998. Ressalte-se que esse ano foi o pior momento para a indústria brasileira em termos de proporção do emprego e do valor adicionado na economia total. Assim, desde 2005, o Brasil convive com um processo de desindustrialização relativa – mesmo que alguns possam considerá-lo modesto – também em moeda constante, que não está atrelado à tendência histórica do desenvolvimento econômico mundial.

Outra característica distintiva de uma desindustrialização “natural” é que a manufatura brasileira perdeu participação relativa não só para o setor de serviços, mas também para todos os demais agregados econômicos como ‘eletricidade, água, gás e esgoto’, a indústria de ‘construção civil’ e, especialmente, para a ‘indústria extrativa’ e ‘agricultura’. Portanto, a expansão da indústria de transformação foi nitidamente inferior a todos os demais agregados, não apenas frente aos setores de serviços, como

155 seria “natural” nas etapas avançadas do desenvolvimento econômico, ou seja, houve uma especialização regressiva.

Em relação à composição setorial da indústria de transformação, houve uma melhora sensível em termos de emprego e valor adicionado. As indústrias de média-alta e alta tecnologia apresentaram, conjuntamente, uma evolução melhor perante as indústrias de baixa e média-baixa tecnologia. Assim, entre 2000 e 2008, não houve especialização regressiva da malha manufatureira doméstica, mas também não houve progressão industrial. Apesar do maior crescimento do emprego e do valor adicionado nos setores de maior intensidade tecnológica em comparação com os setores de menor intensidade tecnológica, os setores de maior intensidade tecnológica não foram capazes de influenciar a estrutura da economia rumo à maior diversificação, pois ainda representam uma pequena fração da manufatura brasileira. Na realidade, a estrutura industrial brasileira é extremante rígida e concentrada nos setores de baixa e média-baixa tecnologia em termos de valor adicionado e de empregos (especialmente neste último). Portanto, verifica-se uma inércia estrutural na indústria de transformação, embora a sensível melhora em sua composição seja um ponto positivo.

Sob a ótica do comércio exterior, os indícios de desindustrialização tornam-se mais claros a partir de meados dos anos 2000. A indústria de transformação voltou a apresentar déficit comercial a partir de 2008, crescentemente avolumado e, em 2011, cerca de 70% dos setores manufatureiros registraram déficit. Até meados dos anos 2000, os déficits comerciais estavam restritos a algumas indústrias de alta e média-alta tecnologia, mas, nos dias atuais, expandiram-se para setores tradicionais de baixa e média-baixa tecnologia. Em geral, os maiores déficits externos ocorrem em setores que pagam salários, em média, duas vezes maiores que a indústria transformação. Assim, ao importar produtos desses setores, deixam de ser aproveitadas oportunidades internas de geração de empregos qualificados e que envolvem maior conhecimento tecnológico.

Sobre a composição da pauta de exportação e importação, as evidências também não são favoráveis à perpetuação do crescimento econômico brasileiro. Desde o início dos anos 2000, verifica-se uma aguda e continuada reprimarização da pauta de exportações, enquanto as importações continuam rigidamente concentradas em produtos manufaturados de maior intensidade tecnológica. A concentração das exportações em commodities pode levar o país a problemas no balanço de pagamentos, a qualquer momento, pois seus preços são determinados no mercado internacional e são muito voláteis. Portanto, o comportamento recente das pautas de importação e exportação

156 doméstica diminuem o potencial de crescimento econômico do país no curto, médio e longo prazo (especialmente, neste último) e, dependente do contexto macroeconômico, pode aprisionar o país numa trajetória de baixo e irregular crescimento econômico.

As evidências apresentadas sobre o comércio exterior brasileiro corroboram a visão de Cambridge apresentada no Capítulo 1, Em que o Brasil apresenta os sintomas da desindustrialização em decorrência do péssimo desempenho recente dos seus produtos manufaturados, no comércio mundial. Esse mau desempenho pode ter várias origens, as quais são consistentes com a visão de Cambridge, com a literatura pós-keynesiana e com a estruturalista, a saber: taxa de câmbio equivocada, padrão de comércio brasileiro e aumento da competitividade dos nossos principais competidores.

Se aceitarmos a definição ampla de desindustrialização de Coriat (1989), que considera, conjuntamente, as três variáveis centrais desse debate – emprego, produção e comércio internacional –, não há desindustrialização no Brasil porque não houve perda de participação da indústria pela ótica do emprego. No entanto, somente uma “perna desse tripé” – o emprego – refuta a hipótese de desindustrialização, enquanto as outras duas – a produção e o comércio internacional – confirmam essa proposição, em conformidade também com alguns autores brasileiros (José Luis Oreiro; Luiz Carlos Bresser-Pereira e seus seguidores; Carmem Feijó e Júlio Gomes de Almeida; COMIN, 2009; GONÇALVES, 2011 e CANO, 2012). Portanto, ao seguirmos a definição ampla e robusta de Coriat (1989), o Brasil não apresentou, nos anos 2000, uma desindustrialização no seu sentido mais profundo possível, isto é, uma desindustrialização irreparável ou irrecuperável.

Uma explicação para o bom desempenho do emprego manufatureiro em relação à abordagem do comércio exterior e da produção está relacionada à evolução ligeiramente negativa da produtividade do trabalho desde os anos 2000, o que reforça a perda de competitividade da manufatura doméstica no comércio exterior. Ampliação do emprego com produtividade em queda – mesmo que leve – e importações de bens intermediários crescentes podem indicar que o saldo positivo de empregos ocorre em ocupações (ou funções) de menor qualificação, como operações de montagem e representação comercial. Esse fato ajuda a corroborar a conclusão de um estudo do IPEA de que 95% do saldo líquido médio anual das ocupações geradas no Brasil, entre 2000 e 2009, foram em ocupações com rendimentos mensais até 1,5 salários míninos (IPEA, 2011, p. 9).

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