4 Analysis and Findings
4.2 What Information on Energy is Reported by Large European Organizations?
Esta seção avalia se, de fato, ocorreu um esgarçamento ou “desadensamento” (delinkage) industrial e tecnológico no período recente. Para tanto, utilizamos, novamente, o referencial de matriz do tipo insumo-produto através de um exercício simples: subtraímos a matriz de impacto intersetorial (MIP), também conhecida como matriz de Leontief, de um determinado ano (a preços do ano anterior) da matriz de impacto intersetorial do ano anterior (a preços desse mesmo ano), conforme a fórmula abaixo:
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Tendo em vista que ambas as matrizes estão a preços do mesmo ano-base, o que reduz as influências indesejáveis da variação dos preços devido à inflação, o resultado pode ser de dois tipos distintos: (1) se o valor de cada coeficiente for positivo, houve, assim, adensamento produtivo, ou seja, os encadeamentos para trás e para frente do tecido industrial doméstico foram fortalecidos; caso contrário, (2) se o valor de cada coeficiente for negativo, houve, assim, esgarçamento do tecido produtivo. Ademais, assumimos que a produtividade foi neutra, pois a produtividade do trabalho foi aproximadamente nula no período, como visto no Capítulo 2, pelas evidências de que a produtividade total dos fatores (PTF) foi baixíssima nesse período (WILSON, 2011).105
Esse procedimento simples (subtração de matrizes) foi aplicado às matrizes to tipo insumo-produto estimadas para o período entre 2000 e 2008106. As três tabelas (Tabelas 3.4, 3.5 e 3.6) com os resultados para os três últimos anos (2006, 2007 e 2008), início do descolamento entre demanda doméstica e a produção industrial, conforme apresentado na primeira seção deste capítulo, são apresentadas para as matrizes (55 atividades)
105 É possível que o progresso técnico reduza alguns dos coeficientes da matriz, mas deve prevalecer o
adensamento (aumento do coeficiente) – se mantida a mesma classificação setorial e concomitante aumento da complexidade industrial – sobre o progresso técnico (redução de alguns coeficientes). Esse pressuposto é mais verdadeiro quando se considera um curto espaço de tempo, de poucos anos, como é o nosso caso.
106 Para tanto, utilizamos 17 matrizes de impacto intersetorial, sendo 9 a preços correntes (de 2000 a 2008), e
145 estimadas107. Nessas tabelas, os resultados negativos são marcados em vermelho, e os positivos em branco.
Consideradas as hipóteses acima, as três tabelas mostram, claramente, (em cor vermelha) que houve um esgarçamento produtivo e tecnológico notável e continuado no período em análise. Constata-se, através dessas tabelas, que a desarticulação produtiva ocorreu em praticamente todas as atividades econômicas108, ou seja, não se restringiu somente à indústria de transformação, pois os vínculos estão mais fracos ou menos densos em grau generalizado (pontos escuros confrontados com os pontos brancos das tabelas). Se associarmos esses resultados com os das seções anteriores, podemos concluir que o forte aumento dos coeficientes importados dos insumos utilizados na manufatura brasileira parece estar corroendo parte do poder de alavancar outras atividades. Como visto no Capítulo 1, a manufatura em conjunto reúne as atividades mais dinâmicas de uma economia devido a sua capacidade de encadeamentos. Assim, se um aumento na demanda final gera menos benefícios à economia doméstica do que antes, e o potencial de gerar empregos e valor agregado local arrefeceu; parte desses benefícios foi apropriada por produtores estrangeiros.
Comin (2009) chega a uma conclusão semelhante ao examinar o coeficiente de transformação industrial (CTI)109, elaborado a partir de dados da PIA-Empresa do IBGE entre os anos de 1996 a 2006. Para o autor, nesse período, houve “um processo generalizado de esvaziamento produtivo, e não de um hipotético processo de especialização que compensaria a rarefação de algumas cadeias pelo adensamento de outras” da malha industrial brasileira e, também, que “nenhum setor industrial sofreu processo significativo de adensamento produtivo” (COMIN, 2009, p. 151; grifos no original). Ademais, o autor também constatou que a rarefação das cadeias produtivas foi mais intensa nos setores de maior intensidade tecnológica.
Sob a perspectiva desenvolvimentista (HIRSCHMAN, 1958; PERROUX, 1967), o fortalecimento dos linkages está intrinsecamente associado ao processo de industrialização,
107 Sobre as 55 atividades vide o Apêndice Metodológico A.3.
108 Neste estudo não medimos a intensidade do delinkage de um setor (ou cadeia produtiva) perante outro.
Constata-se que na imensa maioria houve desadensamento, mas algumas cadeias produtivas desadensaram mais do que outras. No entanto, temos pistas através dos coeficientes de importados, detalhados em seções anteriores, que a maior desarticulação ocorreu em alta e média-alta tecnologia. Para verificar a intensidade, basta, ao invés de subtrair uma matriz por outra, multiplicar uma pela inversa da outra. Assim, para cada célula maior que 1, houve adensamento e aquelas menores que 1 presencia desadensamento. Por exemplo, se o resultado da multiplicação pela inversa para uma cédula for 1,20 adensou 20% e se for 0,8 desadensou 25%.
146 ou seja, o delinkage pressupõe desindustrialização110. No entanto, os nossos resultados indicam que a desarticulação ocorrida, no período recente (até 2008), não foi absoluta como aquela que ocorreu ao longo dos anos noventa do século passado, pois diferente daquele período, o número de pessoas empregadas na manufatura elevou-se de forma considerável111. Desse modo, a desarticulação presente foi relativa e em consequência do avanço da dependência (ou complementaridade) tecnológica das plantas industriais domésticas em relação às estrangeiras. Devido à indisponibilidade de dados muito desagregados, não temos como concluir a profundidade real do esgarçamento, todavia não negamos a hipótese de que, em algumas cadeias produtivas, onde houve aumento dos empregos, estes tenham sido gerados em atividades de montagem e/ou não ligadas diretamente à produção, como, por exemplo, revenda. Assim, nestes casos, independente do número de emprego total ter-se elevado, o “desadensamento” pode ter sido absoluto.
110 Comin (2009) também partilha desse argumento ao afirmar que “mudanças na densidade da indústria
brasileira no período 1996 e 2006 apontam de forma inequívoca para um processo de desindustrialização” (p. 151; grifos no original).
111 O mesmo não se pode afirmar no biênio 2010-2011, pois as importações aumentaram substantivamente
147 Tabela 3.4 - Matriz de Impacto Intersetorial (MII): MII de 2006 a preços de 2005 menos MII de 2005 a preços de 2005
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55
Nota: Cor vermelha representa os valores negativos e cor branca representa os valores positivos.
148 Tabela 3.5 - Matriz de Impacto Intersetorial (MII): MII de 2007 a preços de 2006 menos MII de 2006 a preços de 2006
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55
Nota: Cor vermelha representa os valores negativos e cor branca representa os valores positivos.
149 Tabela 3.6 - Matriz de Impacto Intersetorial (MII): MII de 2008 a preços de 2007 menos MII de 2007 a preços de 2007
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55
Nota: Cor vermelha representa os valores negativos e cor branca representa os valores positivos.
150 Conforme visto no Capítulo 2, os autores ortodoxo-liberais – como Barros e Pereira (2008) e Bonelli e Pessoa (2010) – acreditam que, no período recente, ocorreu uma reestruturação industrial virtuosa, pois a eficiência produtiva da indústria nacional cresceu. Na contramão, alguns autores heterodoxo-desenvolvimentistas – como Gonçalves (2011) – entendem que, nesse período, houve um retrocesso do desenvolvimentismo brasileiro que ficou subordinado à política monetária centrada no controle da inflação e teve como um de seus subprodutos a “dessubstituição de importações” e maior dependência tecnológica.
As evidências colhidas nesta dissertação nos permitem afirmar que ocorreram os dois processos simultaneamente ressaltados pelos autores acima: aumento da eficiência produtiva e desadensamento da manufatura nacional. Contudo, baseando-se em evidências apresentadas neste capítulo, o resultado predominante nos aproxima da abordagem desenvolvida por Gonçalves (2011). Desse modo, acreditamos que houve desadensamento industrial com aumento da dependência tecnológica dos fornecedores estrangeiros.
Uma explicação parcial para o aumento da eficiência produtiva de pontos do tecido industrial brasileiro deve-se, em grande parte, à estratégia defensiva de hedge produtivo e não de um aumento deliberado da produtividade e das exportações.
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