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4.1 QSS-PC levetidsmålinger

Para os autores, esse contexto que propiciaria o surgimento da nova sociedade não era, contudo, totalmente inédito. Dessa forma, recorrem à história para pensar exemplos que poderiam esclarecer os possíveis desenvolvimentos, voltando novamente à Antiguidade, mais especificamente, ao Império Romano.

Pensando conforme a metáfora heurística, os autores afirmam que as condições que poderiam se manifestar até o começo do século XXI nas nações desenvolvidas difeririam das do século XX de maneira semelhante à diferença que o Império Romano representou frente ao mundo pré-clássico. Assim, apesar dos clichês sobre a decadência de Roma, os autores afirmam que os primeiros 200 anos do Império foram um período de prosperidade, paz e bom governo. Porém, foi também o início de uma era de ansiedade e apreensão, já que, conforme várias argumentações553, a “fibra moral” dos romanos degenerou pela falta de um desafio no período de estabilidade e prosperidade. Todavia, afirmam que essas relações de causa e efeito são inconclusivas, mas não impedem uma série de paralelos entre a atualidade e o período do Império554.

Dando continuidade à comparação, argumentam que, quando Augusto ascendeu ao poder (entre 30 e 27 a.C.), Roma possuía 76 feriados por ano. Já no momento da morte de Nero (68 d.C.), 176. Assim sendo, acreditavam que, atualmente, se a produtividade crescesse 3 ou 4% ao ano, dificilmente ela seria usada em prol de maior produtividade, mas, tal como acontecera no Império Romano, esse aumento provavelmente se reverteria em lazer. Frente a isso, seria possível que, nos próximos 33 anos, os americanos – e provavelmente os outros cidadãos dos países pós-industriais – que eram populistas, burgueses e conformistas, tornar- se-iam relativamente elitistas, anti-burgueses e pluralistas. Um número significativo adquiriria características que permitiriam a comparação com sofistas, estóicos, epicuristas, cínicos, humanistas, materialistas, excluídos e marginais. Contudo, essas divisões não seriam fechadas, podendo um indivíduo transitar entre os diferentes grupos555.

Reconhecendo a terminologia grega e romana, os autores centram-se nos estóicos e epicuristas. Essas duas linhas, segundo eles, eram contrárias à guerra e rejeitavam as ambições e pretensões mais mundanas, chegando a um nível escapista – em parte, como resultado do desapontamento com o que tinha acontecido com a cultura grega após sua                                                                                                                          

553

As quais Kahn e Wiener não referenciam. 554

KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 189. 555 Ibid., p. 189-190.

conquista da maior parte do mundo. Os estóicos e os epicuristas se caracterizaram, ainda, conforme os autores, pelo pessimismo em relação ao “significado e propósito” dos esforços humanos e por pertencerem ao círculo de cidadãos bons e respeitáveis. Os autores apontam, na filosofia do estóico romano, a paixão pela virtude e pelo cumprimento do dever; a compreensão de quatro virtudes: sabedoria, justiça, coragem e temperança e a crença de que apenas tais virtudes justificam o poder, sendo a virtude a própria recompensa; a necessidade de força e indiferença com a dor e a tristeza; a certeza de que uma lei natural rege a humanidade e que, sob essa lei, todos os homens são basicamente iguais. Os epicuristas, por sua vez, baseavam-se na ênfase das sensações, das emoções e do prazer da alma individual; acreditavam que o bem e o mal são dados pela sensação, ou seja, pelo prazer, e que o poder e a vida pública perturbam a alma; criam que quando o corpo morre, ele retorna aos átomos, quando a alma o abandona, ele não possui mais sensações, portanto, não deveria haver medo da morte, dos deuses ou de leis naturais; defendiam o prazer como a ausência da dor e a felicidade como a mente calma, sábia e a vida correta556.

Assim sendo, os futuristas defendem que o estóico moderno corresponderia ao americano responsável, consciente dos deveres, que trabalha duro, dotado de espírito público, que se sente obrigado a exercer um bom trabalho para seu governo, companhia ou outra instituição, sem necessariamente obter muito reconhecimento ou recompensa. Distinguem, ainda, o grego epicurista do epicurista moderno pela falta de ênfase, deste último, na questão da ausência da dor como fonte do prazer e na questão da felicidade corresponder à mente calma, sábia e o viver correto. Sendo assim, definem trÊs formas atuais de epicurismo: o tradicional, o “hip” – da expansão da consciência, dos excluídos, das culturas da alegria pelo amor – e o hedonista ou estético. Por fim, identificam, ainda, outros dois tipos modernos: o

gentleman e o humanista. Ambos estão interessados, basicamente, no auto-desenvolvimento,

porém, o primeiro, na aquisição de experiências e habilidades aprovadas pela sociedade e por possuir um senso de honra com o Estado, enquanto o segundo, em habilidades e experiências idiossincráticas, além de ser mais comprometido com valores universais557.

Então, os autores comparam os Europeus com os gregos antigos. Realizam essa comparação a partir das atitudes das elites, relacionando-as, ainda, com os romanos e

                                                                                                                          556

KAHN, H.; WIENER, A.J., 1967, p. 190-191. 557 Ibid., p. 190-191.

americanos, construindo uma analogia que servirá para destacar outros pontos da argumentação558.

Características Romanos e americanos Gregos antigos e europeus

modernos

O poder evoca Respeito Suspeita

A maior força política Regida pela lei Personalidade

Os maiores homens recebem Admiração Denigribilidade

Individualismo Subordinado Indomado

As massas primitivas são Cidadãos Bárbaros

Estrangeiros educados

evocam Leve admiração e temor Surpresa divertida

A imagem do herói

Puritano, virtuoso, severo, conservador, devotado ao dever (George Washington)

Aventureiro, imprevisível, conquistador de homens e mulheres (Ulisses, Napoleão)

Áreas de maior proficiência Técnica, organização civil e militar

Teórica, filosofia, matemática, ciência pura e

artes Maiores fraquezas Conhecimento teórico em

oposição ao aplicado Unidade e colaboração

Diletantismo Não apreciado “Cavalheiresco”

Atitude com outras culturas Compromisso Desdém

Lazer Um vício Um objetivo

A ambição dos outros Altamente aprovada, a não

ser que ameace a República Desaprovada

Feitas essas comparações, que servirão para ilustrar possíveis desenvolvimentos futuros, podemos, agora, seguir para sociedade pós-industrial.