O enquadramento metodológico de um estudo, além daquele voltado à definição da abordagem quantitativa ou qualitativa adorada, requer, também, enquadramentos que dizem respeito aos objetivos a que se propõe a pesquisa, bem como os meios de investigação percebidos como adequados à consecução dos propósitos.
Para Creswell (2010), está sob a alçada do pesquisador não somente a seleção de uma abordagem qualitativa, quantitativa ou de métodos mistos para conduzir, mas, também, sobre um tipo de estudo dentro dessas três escolhas. Desta forma, uma vez definida a abordagem metodológica da pesquisa, tem-se, também, definições mais específicas, que dizem respeito aos meios e instrumentos de operacionalização dos empreendimentos investigativos.
As definições específicas acerca dos delineamentos metodológicos selecionados para a realização das pesquisas partem da percepção de que diferentes modos de perceber a realidade permitem modos diversificados de abordá-la. Assim sendo, as tipologias metodológicas incluem categorias como abordagens empírico-positivistas; fenomenológicas e critico- dialéticas etc (MARTINS; THEÓPHILO, 2009). O foco pertinente nesta discussão está relacionado às estratégias pertencentes às abordagens empírico-positivistas; fenomenológicas, por manterem afinidade com o campo da ciência contábil.
Inicialmente, têm-se as tipologias voltadas ao enquadramento da pesquisa no que diz respeito aos seus objetivos. Essa perspectiva relaciona-se com o propósito motivador da realização da pesquisa por parte do pesquisador. Assim, tal classificação apresenta-se com quatro possibilidades, a saber: exploratória, descritiva, analítica ou preditiva. (COLLIS; HUSSEY, 2005). O Quadro 8 mostra os tipos de pesquisa.
Quadro 8 – Tipos de pesquisa
Tipos de pesquisa Conceitos da literatura
Exploratória Realizada sobre um problema ou questão de pesquisa quando há pouco ou nenhum estudo anterior que auxilie na questão (COLLIS; HUSSEY, 2005).
Descritiva
Tenta encontrar respostas para perguntas quem, o que, quando, onde e, algumas vezes, como. O pesquisador tenta descrever ou definir um assunto, normalmente criando um perfil de um grupo de problemas pessoas ou eventos (COOPER; SCHINDLER, 2011).
Analítica Trata-se de uma continuação da pesquisa descritiva, em que o pesquisador vai além da descrição das características (COLLIS; HUSSEY, 2005).
Preditiva
Esse tipo de estudo costuma exigir um nível mais alto de inferência, generalizando a partir da análise, prevendo certos fenômenos com base em relações gerais e
hipotéticas (COLLIS; HUSSEY, 2005; COOPER; SCHINDLER, 2011). Fonte: Elaborado a partir da classificação de Collis e Hussey (2005).
Collis e Hussey (2005) afirmam que a as pesquisas exploratórias, descritivas, analíticas e preditivas, dispostas nesta ordem, representam aumento de nível de sofisticação, estando a pesquisa preditiva no patamar mais elevado, já que procurar oferecer explicações para a situação observada. Todavia, os quatro tipos de pesquisa compreendem uma investigação sistemática, objetivando ao fornecimento de informações para a solução de problemas, podendo, assim ser caracterizados como pesquisa (COOPER; SCHINDLER, 2011).
Além da classificação das pesquisas quanto aos objetivos definidos como norteadores das investigações, observam-se tipologias da pesquisa metodológica voltadas a definições operacionais a serem empregadas para a realização dos estudos. Tais definições operacionais são responsáveis por delimitar as ações empreendidas pelos pesquisadores na tentativa de chegar aos propósitos.
Para Creswell (2010, p. 35), as estratégias de pesquisa compreendem “os tipos de projetos ou modelos de métodos qualitativos, quantitativos e mistos que proporcionam uma direção específica aos procedimentos em um projeto de pesquisa”. Já para Martins e Theóphilo (2009, p. 53) o desing ou estratégia de pesquisa “envolve os meios técnicos da investigação; corresponde ao planejamento e estruturação da pesquisa em sua definição mais ampla”.
As percepções de Martins e Theóphilo (2009) e Creswell (2010) convergem no sentido de caracterizar as estratégias de pesquisa como direcionadores dos procedimentos técnicos de
investigação. Ademais, conforme comentados em momentos anteriores, as estratégias de pesquisa dialogam com as abordagens metodológicas qualitativas, quantitativas e mistas; esta ultima quando combinadas de maneira concomitante ou sequenciada (CRESWELL, 2010).
As estratégias quantitativas envolvem experimentos complexos, com muitas variáveis e tratamentos, compreendendo pesquisas de levantamento e pesquisas experimentais, ao passo que as estratégias qualitativas dizem respeito à etnografia, teoria fundamentada, estudo de caso, pesquisa fenomenológica, pesquisa narrativa (CRESWELL, 2010).
Assim, a definição da estratégia metodológica a ser utilizada está relacionada com alguns fatores decisivos, como a problemática levantada, por exemplo, que muitas vezes faz com que se desenhe um caminho peculiar para as investigações. O Quadro 9 apresenta estratégias de pesquisa.
Quadro 9 – Estratégias de pesquisa
Estratégias de pesquisa Conceitos da literatura
Pesquisa Bibliográfica Procura explicar e discutir um assunto, tema ou problema com base em referências publicadas (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Pesquisa Documental Característica dos estudos que utilizam documentos como fonte de dados, informações e evidências (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Pesquisa Experimental Busca a construção de conhecimentos através de rigorosa verificação e garantia de resultados cientificamente comprovados (MARTINS; THEÓPHILO, 2009). Levantamento
Processo de mensuração usado para coletar informações durante uma entrevista altamente estruturada, com o objetivo de derivar dados comparáveis entre subconjuntos de uma amostra (COOPER; SCHINDLER, 2011).
Estudo de Caso Combina entrevistas individuais e, às vezes, em grupo com análises de registros e observação (COOPER; SCHINDLER, 2011).
Pesquisa-Ação
Lida com problemas complexos e práticos sobre os quais se tem pouco conhecimento, então estuda-se o cenário, determina-se uma ação corretiva para posterior observação e avaliação (COOPER; SCHINDLER, 2011).
Pesquisa Etnográfica
Refere-se a descrição de um sistema de significados culturais de um determinado grupo, caracterizando-se pela inserção do pesquisador no ambiente investigado (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Grounded Theory
Busca-se a construção de teoria na medida em que o trabalho de campo se desenvolve, objetivando desenvolver uma teoria substantiva, que emerge dos dados (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Fonte: Elaborado a partir da classificação de Martins e Theóphilo (2009).
Ressalta-se que as estratégias metodológicas apresentadas no Quadro 9 refletem, predominantemente, estratégias que mantém relação com a abordagem qualitativa de pesquisa, reflexos da adoção, ilustrativa, da classificação apresentada por Martins e Theóphilo
(2009). As possibilidades de estratégias metodológicas podem ir além das apresentadas no Quadro 9. Todavia, para fins desta pesquisa, considera-se as observadas no Quadro 9 como as estratégias-base para a realização das investigações.
A pesquisa bibliográfica compreende estratégia presente em qualquer pesquisa, uma vez que todas necessitam desenvolver revisão de literatura para a construção da base teórica que sustenta as investigações.
No que diz respeito ao tópico temático deste estudo, qual seja, a contabilidade de custos voltada à gestão pública e, considerando os argumentos teóricos acerca das plataformas teórico-metodológicas da contabilidade gerencial, observa-se que as abordagens qualitativas, observadas no Quadro 9 estabelecem relação com este campo de pesquisa em contabilidade PARKER (2012).
Desta forma, se Parker (2012) fala em afinidade da contabilidade gerencial com a abordagem qualitativa e o paradigma fenomenológico, Spicert (1992) destaca a relação da pesquisa em contabilidade gerencial com a estratégia metodológica denominada estudo de caso. Para Spicert (1992), enquanto a contabilidade financeira faz uso de métodos sofisticados de técnicas econométricas em cima de grandes bases de dados, a contabilidade gerencial desenvolve interesse em estudar detalhes e, em consequência, as estratégias de campo e estudos de caso ganham ênfase.
Portanto, novamente faz-se uso de analogias para compreender os comportamentos da área de contabilidade de custos aplicada ao setor público, objeto deste estudo. Assim sendo, torna-se pertinente, então, observar se a ênfase nos estudos de caso observada na contabilidade gerencial apresenta-se, também, nos estudos realizados com vistas a investigar aspectos das entidades públicas.
Para afirma que a percepção de um método como positivista ou fenomenológico está mais relacionado com o seu uso dentro da pesquisa do que propriamente com o conceito- padrão a ele estabelecido. Neste sentido, um método de coleta baseado em frequências de ocorrências de um fenômeno gera dados quantitativos, da mesma forma que a coleta baseada em dados sobre o significado de um fenômeno evidencia dados qualitativos. Assim, Collis e
Hussey (2005) concluem que dados quantitativos são numéricos, dados qualitativos são nominais. O Quadro 10 apresenta as técnicas de coleta.
Quadro 10 – Técnicas de coleta
Técnicas de coleta Conceitos da literatura
Observação Inclui todo o âmbito de atividades e condições de monitoramento comportamental e não comportamental (COOPER; SCHINDLER, 2011). Observação participante Acontece quando o observador entra no ambiente social e age como observador e
como participante (COOPER; SCHINDLER, 2011).
Entrevista Método de coleta de dados no qual as perguntas são feitas a participantes selecionados (COLLIS; HUSSEY, 2005).
Painel
Tipo especial de entrevista em que existe a intenção de verificar o comportamento do mesmo grupo de entrevistados ao longo do tempo (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Focus Group Tipo de entrevista em profundidade realizada em grupo, objetivando discutir um
tema específico (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Questionário Utilizados para descrever características e medir determinadas variáveis de um grupo social (RICHARDSON, 2012).
Escalas de Atitudes
Instrumentos de medição através da numeração sistemática de um conjunto de observações, determinando a posição de cada membro em termos da variável me estudo (RICHARDSON, 2012).
História Oral
Meio em que o discurso do autor é registrado em fita com suas palavras precisas, emoções, tonalidades, ênfases, omissões, silêncios etc. (MARTINS;
THEÓPHILO, 2009).
Análise de Conteúdo Faz inferência de conhecimentos relativos às condições de produção recorrendo- se ou não, a indicadores quantitativos (BARDIN, 2011).
Análise de Discurso Permite conhecer o significado tanto do que está explícito na mensagem quanto do que está implícito (MARTINS; THEÓPHILO, 2009).
Fonte: Elaborado a partir da classificação de Martins e Theóphilo (2009).
De maneira análoga as estratégias de pesquisa, as técnicas de coleta trazidas para apreciação refletem a sistematização e classificação apresentada por Martins e Theóphilo (2009) não se esgotando, portanto, nestas observadas no Quadro 10.
Além disso, nas técnicas de coleta apresentadas observa-se algumas mantenedoras de afinidade com a pesquisa em contabilidade, ao passo que outras, como a história oral, por exemplo, figuram com maior frequência nas pesquisas empreendidas em outras áreas do conhecimento.
Desta forma, observar como a pesquisa científica se delineou, através da analise das plataformas teóricas e metodológicas, faz com que se evidenciem a trajetória da construção do conhecimento em uma área, quais a principais contribuições trazidas pela investigação
científica, bem como os caminhos que estão sendo tomados pelas produções científicas em contabilidade de custos aplicada ao setor público, no que tange a construção do conhecimento na área.
4 EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS
Esta seção tem por objetivo apresentar o cenário de estudos empíricos anteriores que guardam similaridade com a temática levantada pelo presente estudo, com vistas a detectar o estado da arte acerca da produção acadêmica em contabilidade de custos em seus diversos contextos e, de maneira mais específica, destacando os estudos pautados na discussão que envolve a contabilidade de custos no setor público.