Para a realização deste estudo, partimos de um corpus pré-existente compilado pelo bolsista de Iniciação Científica (IC), Rafael do Amaral Prudêncio, participante do projeto Epêntese Consonantal Regular e Irregular (PUCRS/CNPq), coordenado pela professora Dra. Leda Bisol.
Metodologicamente, para a compilação do corpus do projeto, o bolsista extraiu as unidades lexicais do Dicionário Eletrônico Houaiss (2009). Assim, naquele primeiro momento, foram retiradas entradas lexicais sufixadas. Os sufixos selecionados para aquele estudo foram os afixos –ada, -al, e –eiro. A escolha de tais sufixos foi conduzida pelas leituras de gramáticas da Língua Portuguesa ─ tais como as de Said Ali (1964), Bechara (2001), Cunha & Cintra (1985, 2008), entre outros, com o propósito de identificar os sufixos que mais ofereciam contexto para a realização de inserções consonantais. Em um segundo momento, o bolsista realizou um refinamento do corpus, selecionando apenas as palavras sufixadas que apresentavam epêntese consonantal em sua estrutura. Aquele procedimento levou à identificação de 195 unidades lexicais sufixadas com a presença de epêntese consonantal, sendo que 35 entradas lexicais foram verificadas no sufixo –ada, 64 entradas no sufixo –al, e 96 entradas lexicais com o sufixo –eiro.
É importante destacar que estes mesmos dados do projeto foram utilizados por Canfield (2010) para o desenvolvimento de sua dissertação. Contudo, para o presente estudo, escolhemos apenas o sufixo –ada. Realizamos, então, uma nova coleta de dados, porque nos dados do projeto constavam apenas palavras sufixadas com epêntese consonantal e, para o presente estudo, passamos a considerar toda palavra dicionarizada com a terminação –ada. Nosso procedimento seguinte foi à organização do corpus desta dissertação, uma vez que, nos propusemos observar o universo de palavras nominais terminadas por –ada.
72 3.1 COLETA E ORGANIZAÇÃO DOS DADOS
Para o presente trabalho, optamos pelo sufixo –ada, pois foi o que apresentou maior variedade de casos em contexto de juntura morfêmica e ofereceu diferentes tipos de bases (nominais e verbais), gerando formas bastante recorrentes na língua, tanto como substantivo, como em abacatada ou bicharada, como formas verbo-nominais, como em soldada.
A partir da escolha do afixo, realizamos uma nova extração de unidades lexicais, considerando, agora, toda terminação –ada, independentemente de ser afixo, no Dicionário Eletrônico Houaiss (2009). A extração das unidades lexicais deu-se por meio de uma ferramenta de pesquisa oferecida pelo próprio dicionário que permitiu que selecionássemos apenas palavras com a terminação definida, como mostra a ilustração a seguir:
FIGURA 1: Ferramenta de Pesquisa do Dicionário Eletrônico Houaiss (2009)
A ferramenta permitiu que identificássemos mais de 1549 verbetes com a terminação –ada, porém, em uma contagem manual totalizamos 1544 unidades lexicais de base nominal e verbal com a terminação –ada no dicionário eletrônico. Salientamos que o total de palavras presentes em nosso corpus ficou menor que o total de palavras
73 identificadas, porque excluímos da contagem formas como o vocábulo cada, por não se tratar de um nome (cf. abadá ou peixe-espada) ou de um derivativo de base nominal (cf. porcada) ou verbal (cf. abreviada), mas sim de um pronome.
Realizamos, a seguir, um primeiro refinamento do corpus, distribuindo os vocábulos em três grandes grupos16, são eles: (i) palavras de base nominal com o sufixo –ada (cf. sapatada), totalizando 774 unidades; (ii) palavras de base verbal com o sufixo –ada (cf. cortada), 546 unidades lexicais; e (iii) formações vernaculares17 e empréstimos linguísitcos18 com a terminação –ada não sufixal, com um total de 224 ocorrências, das quais 132 são palavras vernaculares (como em peixe-espada) e 92 são empréstimos de outras línguas (como em abadá, do ioruba, abagda), cabe salientar que o grupo (iii) é formado apenas por nomes. A partir dessa distribuição, fica justificada a exclusão de formas que não fossem derivadas ou que não fossem nomes (como o caso da palavra cada). Essa exclusão levou a um número total inferior de palavras terminadas com –ada (1544) do que o total oferecido pela ferramenta do dicionário (mais de 1549 verbetes).
Todos os três grupos estão descritos no capítulo seguinte a fim de melhor identificar o que ocorre em contexto de juntura morfêmica, isto é, entre uma base e o sufixo –ada. Porém, nosso principal objetivo, como já mencionado na introdução desta dissertação, é observar o universo de palavras nominais e descrever o contexto de juntura morfêmica dos itens lexicais com e sem inserção consonantal em busca de generalizações.
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A distribuição total dos dados de nosso corpus, em grupos, está organizada no Apêndice desta
dissertação.
17 A terminologia formação vernacular está sendo empregada com base em Câmara Jr (1999:240), que
apresenta o seguinte conceito: nome comumente aplicado à Língua Nacional [...] pelos seus próprios
falantes, a fim de acentuarem os aspectos característicos e distintivos em confronto com as línguas estrangeira; ou seja, casos mais cristalizados.
18 Empréstimos aqui podem ser traduzidos como o [...] contato entre povos de línguas diferentes, o qual
pode ser por coincidência ou contiguidade geográfica, ou à distância, por intercâmbio cultural em sentido lato. A coincidência ou contiguidade geográfica determina os empréstimos íntimos e a língua a que é feita o empréstimo constitui o substrato, um supertrato ou adstrato. Os empréstimos à distância são culturais. Os empréstimos podem ser, em princípio, de fonemas, de afixos [...], de vocábulos e de tipos frasais. Vide a palavra árabe al-xajjât > alfaiate. [...] O empréstimo cria um tipo de mudança linguística [...] inteiramente diverso do que resulta da evolução (CÂMARA Jr., 1999:105-6).
74 A partir do exposto, o passo seguinte foi observar o universo de palavras nominais, que totalizaram, em nosso corpus, 999 unidades, entre palavras dos grupos (i) e (iii), sendo que destacamos as do grupo (i), por constituírem o principal objeto deste estudo, e observamos as do grupo (iii) ─ formações vernaculares e empréstimos ─ em seção específica.
O processo de organização das palavras do grupo (i) permitiu que identificássemos 774 vocábulos que foram distribuídos entre palavras temáticas e atemáticas, divisão atestada no trabalho de Canfield (2010). De acordo com Câmara Jr. (1999:205), o radical é a parte lexical do vocábulo que é a contraparte da flexão externa, que é ligada ou não pelo índice temático. Se essa parte lexical corresponder apenas a um semantema, tem-se um radical primário ou raiz; ou seja, se a vogal final da palavra base, que permite a derivação, pertencer ao radical, ela é tônica. Já em radicais ampliados com segmento fônico (índice temático) durante a derivação, que serve de característica mórfica de um conjunto de palavras da mesma espécie, neste caso, as vogais não pertencem ao radical, e são átonas. Pelo critério de Câmara Jr. (1999), temáticas são os nomes terminados por vogal átona, e atemáticas são os nomes terminados por vogal tônica, como também os nomes que no singular terminam em –r, -s ou –l que são do tema –e e a vogal temática aparece no plural (cf. mar – mares) [...] sendo que nos nomes terminados em –l a vogal temática aparece ditongada em virtude da supressão do –l (cf. sal – sais) (CÂMARA, Jr., 1999:231). Para a presente dissertação, consideramos como temáticos os vocábulos que terminados em vogal átona e atemáticos os vocábulos terminados em vogal candidata a acento, em ditongo e em consoante, o que nos leva a identificar, no primeiro grupo, 657 palavras temáticas e 117 vocábulos atemáticos. Do total de palavras temáticas, 640 não apresentam inserção consonantal em contexto de juntura e 17 apresentam; das atemáticas, 93 não inserem epenêntese em contexto de juntura morfêmica e 24 inserem.
Em seguida, ao que diz respeito à inserção consonantal, realizamos um segundo refinamento do corpus considerando um critério morfofonológico, dado o contexto de produção da epêntese ─ ambiente derivado. Esse segundo critério, igualmente observado por Canfield (2010:51), refere-se ao fato de que, dependendo do tipo de epêntese inserida há ou não modificação da base, isto é, se a inserção consonantal é o /z/, não há alteração, mas se a inserção é o /r/, há mudança da vogal
75 final da palavra base. Esse fato permite que identifiquemos, a partir de observações preliminares, uma possibilidade da existência de fronteiras morfêmicas que propiciam a modificação da vogal final da palavra base e fronteiras que restringem.
Expostos nosso procedimentos metodológicos, passemos ao capítulo seguinte que trata da análise dos dados e resultados obtidos a partir desta.
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