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5 Putting everything together in Spanish gerunds

É arrojada a perspectiva de Flaubert, ao admitir as falhas de método nas ciências, mas também sagaz a maneira pela qual decide ironizar o ímpeto enciclopédico na vida de dois simpáticos senhores. Com efeito, os limites da ciência e do método são hoje discutidos aber- tamente por filósofos, cientistas, políticos e pela sociedade civil. Edgar Morin, por exemplo, disserta sobre a crise dos fundamentos do conhecimento científico, crise característica da era moderna. Ele indica, contudo, que os erros da linguagem e as ilusões do pensamento, quando b p p “ ”, impulsionar criações cognitivas fecundas, e não apenas bloquear a ação logocêntrica:

Se o conhecimento é radicalmente relativo e incerto, o conhecimento do co- nhecimento não pode escapar a esta relatividade e a esta incerteza. Mas a

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117 dúvida e a relatividade não são apenas corrosão, elas também podem se tor- nar estímulo. A necessidade de relacionar, relativizar e historicizar o conhe- cimento não traz somente constrições e limitações, ela impõe também exi- gências cognitivas fecundas.51

Por um lado, Bouvard e Pécuchet parecem não aprender nada, a despeito da imensa curiosidade que dirige as pesquisas dos dois amigos. Segundo Claire Barel Moisan, a derrota “p : ç , ç b , p p ”52

Mas não é exatamente por desconhecerem os fundamentos da ciência que os protagonistas cometem seguidos equívocos e fracassam nos testes que desenvolvem. Bouvard e Pécuchet sabem da existência dos fundamentos acima mencionados. No entanto, eles não admitem que suas pesquisas possam avançar sobre as bar- reiras trazidas pelos maus resultados obtidos e não sabem beneficiar-se dos erros cometidos no passado, para que reparações sejam feitas nos projetos falhos ou deixados incompletos. Assim, a vivência do conhecimento, para os dois amigos, é desprovida de história e de proje- ção para o futuro.

Por outro lado, para Flaubert, o romance funciona como um exercício de metaconhe- cimento bem mais valioso para si mesmo que para seus entes ficcionais. Embora possa haver certa empatia do autor empírico em relação aos personagens, o narrador não adere totalmente à estupidez de Bouvard e Pécuchet, os quais ficam reféns da relatividade da ciência e nada produzem a partir dos questionamentos suscitados, haja vista a contínua repetição de erros na rotina dos dois amigos. Efetivamente, em um romance em “ é ç , ç , ”,53

como adverte Yvan Leclerc, os heróis nada podem fazer a não ser manipular indiscriminadamente um vasto saber incapaz de lhes trazer algum aprendi- zado válido.

Bouvard e Pécuchet insere, no percurso metodológico que deveria supostamente re- “ ” á , p b . Por sua con- dição de erros gerados pelo sistema, com ou sem a intervenção do homem, as nulidades pro- cedimentais vivem à sombra da ortodoxia do discurso científico: não podem ser plenamente , p p p “ é- : p ”54

Eis um dos verbetes que constam do Dicionário das ideias feitas e um dos p á b b K b 51 MORIN, 1992, p. 16. 52 BAREL-MOISAN, 2011, p. 131. 53 LECLERC, 1988, p. 90. 54 FLAUBERT, 1997, p. 105.

118 b b “Du défaut de méthode dans le sciences” é p a- do, entre os flaubertianos, como questionamento ou de uma ausência de método singularmen- xp p “ b p b é ”,55

ou de uma falta de método intrínseca às ciências modernas.

O romance ironiza o Discurso do método, de Descartes, pois Flaubert expõe as con- tradições que contaminam o modo de enunciação das ciências, a tolice das ideias inatas, a má aplicação do método e a incompetência dos sujeitos em se apropriar de princípios teóricos diversos. Como se não bastasse a paródia à tradição cartesiana, o romance também entra em choque com o positivismo do século XIX e o modo como este último engendra a postulação da realidade como dependente do texto da ciência. Segundo Pierre-Marc de Biasi, Bouvard e é , “ p áb ”,56

fazem uso das premissas do chamado método expe- rimental, o qual compreende três etapas a serem seguidas: documentação, experimentação e avaliação. Contudo, os dois amigos não conseguem obter resultados satisfatórios em seus em- preendimentos e, a partir de tais malogros, fica explícita a distância inelutável entre teoria e prática:

As leis que, no início, pareciam melhor estabelecidas acabam por se tornar, com o uso, minadas pelas exceções e pelos contraexemplos. O pretenso con- senso da comunidade científica é quase sempre questionado por novas pes- quisas que desqualificam o já fundado. Nada parece estável. Aquilo que pa- rece exato em teoria não resiste à demonstração prática, os enunciados se contradizem, a ordem das coisas não consegue se manifestar na ordem do discurso. (...) É tudo uma grande loucura.57

No romance de Flaubert, os princípios da metodologia moderna são questionados e reorganizados em uma espécie de caricatura da ideia de método científico. Na França, ao lon- go do século XIX, a metodologia moderna coaduna-se, segundo Kazuhiro Matsuzawa, com a x , b “ p p é ” 58

Aparentemente, Comte desejava criar, para as ciências humanas e políticas, um ideal de conhecimento herdado das ciências naturais e baseado na regularidade das leis. Esta transferência de modelos entre as ciências pretendia nivelar a diferença entre o fato natural e o fato social ou humano, em proveito de uma unidade metodológica do saber. 55 MATSUZAWA, 2010, p. 333. 56 BIASI, 2009, p. 448. 57 BIASI, 2009, p. 448. 58 MATSUZAWA, 2010, p. 334.

119 Tendo em vista a problemática exposta em Bouvard e Pécuchet e o alvo cômico pro- curado pelo romance, Matsuzawa entende que o ceticismo não deve simplesmente se opor ao racionalismo moderno, posto que uma parte de nossas crenças ou de nossos preconceitos pode ser analisada como dado científico:

A bêtise dos protagonistas consiste em se fecharem em uma alternativa falsa: saber infalível ou ceticismo absoluto. Não existe verdade científica eterna que o progresso histórico não modifique e tampouco ceticismo absoluto que não seja dominado pela encarnação histórica do sujeito que ele negligencia.59

Ao abordar comicamente os impasses da metodologia moderna, o livro de Flaubert pretendia derrubar, na França, certos emblemas da razão que constituíam o âmago do imagi- nário positivista deste país. Bouvard e Pécuchet discute os limites do conhecimento teórico da regra, limites que devem ser fixados e ultrapassados para que haja sucesso nos empreendi- mentos científicos e paracientíficos. A propósito da disjunção entre a teoria e a razão prática, ou entre o saber metodológico e a competência prática, Matsuzawa conclui:

É impossível descrever de maneira exaustiva as condições de aplicação da regra em cada situação específica sem regressão ao infinito. Conhecer a re- gra é uma coisa. Saber praticar com a regra é outra coisa. Vê-se bem que a metodologia que visa a um conhecimento objetivo se condena a desprezar o conhecimento prático, o qual não consegue se articular completamente em preceitos.60

Destaca-se que a lei científica sempre se choca com o problema da definição do real. A despeito da dificuldade de formular leis universais e, mesmo que concepções deterministas tentem, sob o comando de regularidades, analisar a natureza, há eventos do mundo físico que não se submetem a uma necessidade estrita. Gabrielle Radica enfatiza que, nas ciências, o p p p “ ‘p p ’ acaso na natureza: se certos acontecimentos são indeterminados, não é somente um fato da nossa i â , , ”61

p p b “ ” é , p n- so que hoje Bouvard e Pécuchet torna-se mais interessante, se tomado como sátira idiossin- crática ao expansionismo da literatura comparada. Entendo por literatura comparada uma ten-

59 MATSUZAWA, 2010, p. 339. 60 MATSUZAWA, 2010, p. 334. 61

120 tativa de vulgarização de um conjunto de disciplinas, temas e metodologias, tentativa esta que ocorre em um contexto não iluminista e já adaptado à especialização científica. Acredito que a imagem negativa do diletantismo dos heróis provoca, ainda que de forma dissimulada, uma associação com a conduta metodológica dos atuais críticos generalistas. Vejo, à revelia do projeto do artista e do momento em que a narrativa foi concebida, o último romance de Flau- bert como uma grande caçoada sobre os supostos benefícios das correntes didáticas generalis- tas, da abertura das fronteiras entre áreas distintas e da perda da especificidade das disciplinas. A imagem negativa da bêtise bouvard-pécuchetiana pode assumir, para a crítica especializada francesa, no caso de esta última protagonizar a interpretação da obra de Flaubert, um princípio latente de homologia entre comparatismo, nivelamento democrático e tolice.

Juan José Saer caracteriza Bouvard e Pécuchet como um livro caro a nosso tempo, em que a ciência se torna fonte de progresso e de destruição para os seres humanos. O ensaís- ta argentino crê que esta obra teria prefigurado a sacralização da ciência e da tecnologia no , “ apenas o homem comum está em posição semelhante à dos perso- nagens de Flaubert, mas também os mais eminentes especialistas em relação ao infinito núme- p p ” 62

A avaliação de Saer incide sobre a prer- rogativa atribuída à transdisciplinaridade, esta última relativamente influente na vida acadê- mica da América Latina. Tal avaliação aponta também para a questão da falácia da ciência em garantir o bem-estar humano:

Em suas cômicas vicissitudes de aprendizes de feiticeiros, [o leitor] reconhe- ce [em Bouvard e Pécuchet] o modelo primitivo do atual cientificismo de- vastador, que, sob o pretexto de melhorar a vida, exige um cheque em bran- co dos leigos, que se contam aos bilhões e que veem, a cada passo, a esteira de escombros que os supostos benefícios da ciência e da tecnologia vão dei- x p p ─ é 63

É importante dizer que Flaubert nunca se posicionou contra a ciência ou a evolução científica per se, mas sim contra atitudes presunçosamente absolutistas e dogmáticas que po- dem revestir os atos ditos científicos. Sobre este aspecto, Raymond Queneau afirma a consci- b : “ b é a favor da ciência, na medida em que esta é cética, reservada, metódica, prudente e humana. Ele tem

62 SAER, 2004, p. 13.

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121 á , , ” 64

Bouvard e Pécuchet quer simples- mente compreender a parcela de negatividade constitutiva de toda e qualquer epistemologia e lançar a ideia de que, por trás da regularidade das leis, há algo falível e imponderável na ciên- cia. Como assinala Yvan Leclerc, Flaubert usa os personagens para questionar certas máximas do pensamento filosófico e mostrar as vulnerabilidades do cientificismo de sua época:

“ á ?”, p xp , ão conta de que os fenômenos nunca se repetem como idênticos a si mesmos, mas variam em função das circunstâncias. Contra o determinismo científico : “ ô ”, u- : “ b p p ”, Bouvard e Pécuchet abre um espaço de contingência absoluta.65

Não exatamente como hino à contingência, e sim como alegoria da tolice humana, é provável que o romance de Flaubert construa um tipo de método que direcione a razão cientí- p p é “ p p p ç p á à ” 66

A narrativa flaubertiana deli- neia, portanto, , p , “ , compreendida como fórmula que permite predizer com precisão a medida dos acontecimen- , p à ”,67

segundo Gabrielle Radica. Como espaço que deve acolher e questionar irregularidades e arbitrariedades, a epistemologia científica contem- p â “p p p , mas também pela redescoberta de um real singular que não pode se curvar totalmente à des- ç ”,68

como indica a autora.