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Absence of overt result phrases

6 Deriving the other properties of the Spanish transparent gerund

6.2 Absence of overt result phrases

No século XVIII, a Encyclopédie é concebida como a metáfora do universo, isto é, como um instrumento capaz de reunir em um livro a totalidade dos saberes. Como gênero literário, a Encyclopédie visa a tornar os saberes aptos à instrução do leitor. No centro do uni- verso enciclopédico, o homem deve percorrer, até um determinado fim, o círculo dos conhe- cimentos. Um dos pontos memoráveis atribuídos ao projeto iluminista consistiu na associação do otimismo à marcha enciclopédica. p “ ” é século XVIII, derivada do sistema filosófico de Leibniz, a respeito do princípio do melhor (optimum) tomado como regra de passagem, a partir dos mundos possíveis, ao mundo atual. Segundo Claire Fauvergue, diferentes interpretações do sistema leibniziano foram adotadas, na França, desde os enciclopedist é b , à p p ç “ Encyclopédie e o roman- á x ç b ”136

Fauvergue se refere ao drama A tentação de santo Antônio para embasar o argumento de que, em contraposição ao ponto de vista de Voltaire, a versão flaubertiana do sistema filo- sófico de Leibniz estaria mais próxima da abordagem encontrada em Diderot. Flaubert teria se inspirado na teoria das mônadas e, por meio da temática dos mundos possíveis, a ideia de me- tamorfose seria abordada na Tentação, livro que coloca em questão a ontologia leibniziana e outros sistemas filosóficos. A falta de remissão, por parte da autora, a Bouvard e Pécuchet, romance que explora de modo mais bruto e satírico o processo enciclopédico, nos faz especu- lar se, neste caso, a posição de Flaubert quanto à doutrina leibniziana dos mundos possíveis não estaria aliada à crítica que Voltaire fez à filosofia de Leibniz. No final de Zadig, o herói não consegue decifrar o que está escrito no livro dos destinos, a metáfora textual do mundo, e, em Cândido, ou o otimismo, a incógnita resposta dada pelo jovem aprendiz a seu mestre, de- pois do resumo das aventuras e desastres ocorridos ao longo da narrativa, indica apenas que “é p ” 137 135 MOUCHARD, 1983, p. 177. 136 FAUVERGUE, 2010, p. 191. 137 VOLTAIRE, 2012, p. 128.

138 Bouvard e Pécuchet tampouco acedem, por meio dos livros, à verdade do mundo, quer seja pela leitura, quer seja pela cópia dos textos. As vicissitudes sofridas os deixam sem- pre desconfortáveis para fazer conjeturas ou dar explicações sobre seus insucessos. Diante de “ çõ b , çõ b á , á ”, p pô “ b ‘ b ’”,138

como recorda Yvan Leclerc. Decididos a se apropriar de todos os saberes, eles conhecem os fatos, as teorias concernentes aos fatos e a crítica destas teorias. Mas, em nenhum domínio, nenhuma lei resiste à experiên- cia prática. Trata-se sempre de uma dupla decepção: teórica e experimental.

Em Flaubert, a enciclopédia perde sua estrutura de continuidade e seu encadeamento entre causa e efeito. Não há mais um desenvolvimento narrativo que se mobilize em direção ao fim e tampouco um discurso de boas intenções pedagógicas. Devido à impossibilidade de integralização do saber e em vista do percurso realizado pelos heróis, só se pode falar de Bou- vard e Pécuchet como uma “enciclopédia sem memória”,139 segundo a formulação de Claude Mouchard. Sempre às voltas com o fantasma do saber, esta enciclopédia já não constitui parte por parte, nem integra o c “ b p , é que recomeça. A cada vez, o todo do saber, sua própria essência, fica em jogo. Amnésia e p ç ç ”140

O projeto estético de Flaubert assume uma fascinação pela forma clássica da Encyclopédie, mas degrada a função original desta última. Enquanto a Encyclopédie supõe um sistema dialógico entre as disciplinas, Bouvard elimina da ordem die- é p á p , : “ i- clopédia flaubertiana são hermeticamente fechados. A circulação dos saberes própria à lógica enciclopédica desapareceu, todos os reenvios de uma p ” 141

A ausência de retorno sobre as ciências já atravessadas contribui para a falácia meto- dológica de Bouvard e Pécuchet e os priva de construírem um senso crítico sobre suas leituras e experiências passadas. Falhas podem ser corrigidas com a aquisição de um juízo posterior ao evento problemático. Mas a ignorância da causa dos erros coíbe o desenvolvimento de uma expectativa de aperfeiçoamento que poderia evitar futuros desastres. Em grande medida, o fracasso dos protagonistas provém da impaciência de querer absorver, de uma só vez, todo o saber, como argumenta Claude Mouchard. Os sujeitos necessitam de tempo, liberdade e dis- ponibilidade de meios e recursos para desenvolver plenamente a faculdade da crítica:

138 LECLERC, 1988, p. 90. 139 MOUCHARD, 1983, p. 172. 140 MOUCHARD, 1983, p. 172. 141 BAREL-MOISAN, 2011, p. 213.

139 Para saber julgar, ou para inferir consequências de suas experiências, é pre- ciso tempo, liberdade e disponibilidade, elementos de que são destituídos Bouvard e Pécuchet, por uma impaciência que sempre se exacerba em seus jogos de espelhamento. Não seriam eles (em oposição a outros personagens p p “ ” “ ”, não possuem, no ato de conhecer, uma maior disponibilidade de todas as suas faculdades, como parece requerido pela simples especialização?142

O romance de Flaubert interliga a incapacidade de julgar e o nivelamento democráti- co, à proporção que ambos os fatores solidificam a bêtise dos protagonistas. A condição de leigos de Bouvard e Pécuchet não lhes permite criar ou questionar critérios de avaliação para seus experimentos e testes. A modernidade democrática não garantiu ao homem comum a disponibilidade do conhecimento e do usufruto da ciência, embora, no espaço público, a ciên- cia e o conhecimento pareçam acessíveis a todos. O crescimento da técnica deixou como le- gado imagens fugidias e cabotinas do debate científico produzido e contestado em esferas especializadas do conhecimento.

Teoricamente, a privação da capacidade de julgar seria irreparável e constituiria um vício irremediável que se chama estupidez. O sujeito da bêtise apresenta os traços que Avital b “ ç p b , K , tem mar- ép ” 143

Logo, o impasse da burrice fica visível na deficiência ou na pressa do , p “ bêtise fracassa em submeter o julgamento à prova de indecibilida- ”144

Onde o julgamento é deficiente, existe a burrice, embora esta também seja dotada da precipitação de lançar um julgamento prematuro e definitivo sobre o tema analisado. Isso sig- é p “ p ç caso particular, saber formulado e demonstraçã çõ ‘ ’” 145

A bêtise bouvard-pécuchetiana, inábil em compreender que o mundo real é mais complexo que todas as representações feitas sobre ele, viceja na eterna contradição entre a regra dos livros e a precariedade das experiências. É certo que os dois amigos adquirem, a certa altura do romance, a faculdade lamentável de ver a tolice e não mais suportá-la. Trata-se de um cruel despertar de consciência, acompanhado de alguma melancolia. Mas logo esse sentimento se dissipa em novos erros e testes falidos, pois Flaubert, como afirma Gilles De- , á p p p p : “N x p 142 MOUCHARD, 2012, p. 215. 143 RONELL, 2009, p. 84. 144 RONELL, 2006, p. 123. 145 MOUCHARD, 1983, p. 172.

140 se perguntar se Bouvard e Pécuchet são eles mesmos idiotas ou não. Esta não é, de modo al- gum, uma questão. O proj b é pé ‘ ’, p ” 146

Observa-se, finalmente, que o ultimo romance do escritor não legitima um modo de encadeamento espacial e temporal que se fundamente na ideia de causalidade. Originalmente um conceito epistemológico, a causalidade foi transportada para os esquemas da narrativa á , “ ” é Florence Pellegrini recorda que o discurso científico, que deve relacionar causa, conhecimen- to e , é , p “ o- da p ç ô , ”147 Para a autora, a evidência, em Bouvard e Pécuchet, da extinção da lógica da causalidade é “ parecimento da conjunção porque”,148 eliminada gradativamente dos manuscritos do escritor. Desse modo, o romance permite a entrada, na cena ficcional, de certas manifestações do acaso, da gratuida- de e do imprevisto, manifestações estas que se coadunam com a iniciativa que Flaubert adota “ pé ”, como no melhor dos mundos possíveis.