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Pupils’ encounters with fictional texts that depict a familiar reality vs. an unfamiliar reality

Chapter 4: Results and Discussion

4.2 Results from the interviews

4.2.3 Pupils’ encounters with fictional texts that depict a familiar reality vs. an unfamiliar reality

Olivier Gallard (2011), no “Dicionário de Educação”, apresenta a juventude estudada pela Sociologia como uma ideia moderna, associada à noção de individualidade, que “confere ao indivíduo possibilidades crescentes de construir-se por si próprio” (GALLARD, 2011, p.529). Ainda nesse sentido, para o autor, a juventude é concebida na modernidade como um momento de transição, passagem, um vir a ser adulto. Essa noção acaba por ganhar um corpo relacionado à escola, por ser esta a principal instituição responsável por uma formação que atenda às exigências preparatórias, aos papéis que deveriam ser exercidos por esses indivíduos

na idade adulta.

A escola divide faixas etárias e agrupa os indivíduos segundo um critério de classificação, baseado na idade; ao proceder assim, ela contribui para simbolizar a diferença da situação histórica entre pais e filhos, além de enfraquecer os vínculos entre eles e, por outro lado, de fornecer aos jovens uma consciência sutil de sua singularidade coletiva. (GALLARD, 2011, p.529)

Trata-se, nesse caso, de um pensamento associado aos teóricos da Sociologia Clássica. Observa-se, porém, uma série de complexidades que se interpõem ao que apresentou Gallard (2011). No que diz respeito à noção de juventude e sua relação com a família, discute-se atualmente um adiamento da saída da casa dos pais, significando, portanto, um alongamento da própria juventude. Esse adiamento é consequência, dentre outras coisas, do aumento do período de estudos e da dificuldade de inserção no mundo do trabalho. Assim, a escola estaria, indiretamente, fortalecendo esse vínculo entre pais e filhos ao alongar o período da dependência financeira desses para com as figuras familiares.

Além disso, o papel atribuído à escola na sua relação com a juventude, no sentido apresentado acima, deixa explícito seu caráter transmissivo, o qual é pautado em uma estrutura verticalizada, a partir de demarcações de gerações distintas com funções específicas a cada uma. Porém, o próprio autor reconhece que os ideais da transmissão se tornam instáveis na sociedade pautada pela individualidade, permitindo ao jovem construir por si próprio suas aspirações futuras, levando a juventude como um período de experimentações e tentativas (GALLARD, 2011).

Nessa perspectiva, Bernard Rounet (2011) afirma que a escola não mais ocupa o lugar prioritário de transmissão de valores aos jovens, pelo fato destes possuírem uma cultura própria, transmitida horizontalmente, conforme defende também Dominique Pasquier (2011). De acordo com essa socióloga, a mudança na forma de transmissão dos valores teria sido possível com a difusão dos novos meios de comunicação. Os jovens de hoje, tendo acesso a uma multiplicidade de informações, ganham certa autonomia. Desta forma, a autora acredita que os jovens podem entrar em contato com uma série de valores para além do núcleo familiar ou até mesmo dos seus grupos de convivência mais próximos, levando-os a escolher aqueles com os quais se identificam e diminuindo o controle dos adultos sobre esse processo (PASQUIER, 2011).

Frente ao hibridismo cultural vivenciado na sociedade hoje, Dominique Pasquier (2011) nos lembra ainda que a escola recebe atualmente uma heterogeneidade maior de alunos. Esse caráter contribui para mudanças nas relações entre a cultura juvenil e a cultura escolar, a partir

do momento em que jovens de todos os meios sociais passam a participar da experiência escolar. No Brasil, isso pode ser sentido principalmente a partir dos anos 2000, quando se intensificou a expansão da última etapa da educação básica. Essa mudança possibilitou, a partir de então, a ampliação da oferta de um ensino médio público, além das políticas públicas associadas à Educação de Jovens e Adultos e medidas de correção de fluxo, que tendem a democratizar o acesso do jovem à escola.

A partir disso, o ensino médio público e gratuito passa a se fazer presente em todo o Brasil e a chegada de novos alunos e de novas realidades aumenta a diversidade de estudantes e desenham um novo lugar nessas escolas. A própria ideia da categoria “aluno”, enquanto unidade, sofre complicações, principalmente com a entrada desses outros jovens na escola. Trazendo uma cultura própria, subalterna, das classes menos favorecidas, eles desafiam a escola, interrogando os modelos formadores acostumados a trabalhar com uma suposta homogeneidade privilegiada.

As pesquisas em Educação que dizem da juventude são influenciadas por esse movimento, como pôde ser percebido no aumento do número de trabalhos que abordam gênero, raça e etnias (SPOSITO, 2009). Atentar-se a recortes de gênero, raça e etnia é uma tentativa de abranger a diversidade nos estudos em que o campo da Educação desenvolve sobre a juventude. Dessa forma, abre-se espaço para o reconhecimento de uma juventude que não é mais homogênea e unidirecional, escapando das delimitações propostas pela Sociologia Clássica. Porém, mais que uma simples classificação de grupos sociais que merecem ser reconhecidos e estudados, temos hoje dentro das escolas a possibilidade de que os jovens construam seus lugares por caminhos diversos; compartilhem diferentes modos de ser jovem e digam de si a nós, pesquisadores/as e professore/as, nos levando a questionar também os papéis da escola frente à formação da juventude, assim como as maneiras normalizadoras como o ensino tende a acontecer.

Relacionado ao que foi exposto, encontro alguns autores, como Bernard Charlot (2000), Juarez Dayrell (2007a; 2007b), Luiz Carlos Gil Esteves e Miriam Abramovay (2009), cujos trabalhos questionam a unidade da categoria juventude. Assim, passando a entendê-la como um grupo reconhecido enquanto tal, porém não homogêneo, apresentado em termos de uma construção; uma juventude construída por aqueles que fazem parte desse grupo, aqueles que se relacionam com eles e também por aqueles pesquisadores que, com seu olhar, tentam apreender e teorizar seus aspectos.

todo ser humano se constitui na relação com o outro e “se constroem como tais na especificidade dos recursos de que dispõem” (DAYRELL, 2007b, p.160). Consequentemente, sendo ao mesmo tempo sociais e singulares, os jovens vão construindo no tempo presente, uma identidade própria, em um processo que envolve, além das relações no grupo social, seus desejos e posicionamentos frente à realidade em que estão inseridos.

Para Dayrell (2003), a noção de sujeito social direciona, para além da concepção teórica, uma posição metodológica no âmbito das suas pesquisas, e também ética, no que refere ao ato de educar e às diversas maneiras dos adultos lidarem com os jovens. Temas como estes têm sido explorados dentro de uma abordagem sociológica, proposta por Bernard Charlot (2000), a qual vem ganhando espaço nos últimos anos, principalmente na Sociologia da Educação: a Sociologia do sujeito – que será abordada a seguir, permitindo-nos ampliar o entendimento plural das juventudes em uma perspectiva relacionada à diversidade dessa categoria.