2.1 Literature review
2.1.2 Public procurement
O conceito de configuração é central na obra de Elias e dá suporte neste trabalho para se pensar a possibilidade de mudança do habitus e das práticas culturais. Antes, porém, de realizar uma exposição acerca desse conceito, faz-se necessário apresentar outro conceito da teoria do autor – o de processo social –, que serve como base para a compreensão da ideia de configuração.
Para Elias (2006, p. 28), processo social
refere-se às transformações amplas, contínuas, de longa duração [...] de (con)figurações formadas por seres humanos, ou de seus aspectos, em uma de duas direções opostas. Uma delas tem, geralmente, o caráter de ascensão, a outra, o caráter de declínio.
Com essas palavras, o autor explica o desenvolvimento das sociedades humanas considerando suas perspectivas históricas e, desse modo, vai além de muitos sociólogos contemporâneos que parecem se esquecer do entrelaçamento contínuo das gerações ao enfatizarem suas explicações nas relações sociais correntes, como se as sociedades não tivessem um passado ou que esse não fosse digno de nota para a compreensão das mesmas. E, mais, ao falar das direções opostas nas quais as sociedades podem caminhar, Elias abre a
possibilidade de compreender o desenvolvimento das sociedades como um processo dialético, portanto, sempre reversível; rompendo, dessa forma, com concepções sociológicas deterministas que, fortemente influenciadas pela matriz das ciências naturais, compreendem desenvolvimento como sinônimo de evolução (progresso contínuo).
Subjaz ao conceito de processo social a ideia de “tendências não planejadas, mas ao mesmo tempo estruturadas e orientadas, no desenvolvimento de estruturas da sociedade” (ELIAS, 2006, p. 197). Ou seja, para ele, acontecimentos sociais e transformações humanas não podem ter suas causas atribuídas puramente aos atos de vontade e planos dos seres humanos, como uma ligação mecânica de causa e efeito. É preciso entendê-los considerando as suas interdependências com estruturas e processos que não foram desejados ou planejados por nenhum dos envolvidos.
O exemplo de uma resistência não planejada de indivíduos no desenvolvimento de uma sociedade, como é o caso dos cidadãos europeus diante da unificação europeia, na época da Guerra Fria, abre as portas para a compreensão do conceito de configuração eliasiano ao exacerbar uma das críticas mais contundentes do autor às sociologias convencionais, qual seja o fato de que estas, embora tenham no mais das vezes êxito, ao apresentar “as pessoas enquanto sociedades, fracassam quando pretendem fazer o mesmo no que respeito às pessoas enquanto indivíduos” (ELIAS, 1970, p. 140).
Para Elias (2006, p. 26), há nessas abordagens
o perigo de partir de um indivíduo a-social, portanto, como que de um agente
que existe por si mesmo; e o perigo de postular um “sistema”, um “todo”, em
suma, uma sociedade humana que existiria para além do ser humano singular, para além dos indivíduos.
É no intuito de compreender indivíduo e sociedade como “dois níveis diferentes, mas inseparáveis do mundo humano” (ELIAS, 1970, p. 141) e, logo, não antagônicos, que propõe o dinâmico conceito de configuração como o “padrão mutável criado pelo conjunto de jogadores [indivíduos], não só pelos seus intelectos, mas pelo que eles são no seu todo; a totalidade das suas ações nas relações que sustentam uns com os outros” (ELIAS, 1970, p. 142). Posto de outro modo, ele defende a ideia de configuração para explicar os processos de socialização e/ou individualização vividos pelos seres humanos quando entende que seus modos de vida são sempre singulares e codeterminados “pela transmissão de conhecimento de uma geração a outra, portanto, por meio do ingresso do singular no mundo simbólico específico de uma figuração já existente de seres humanos” (ELIAS, 2006, p. 25). Afasta-se, assim, da ideia do Homo Clausus, que pressupõe os indivíduos como seres absolutamente
independentes uns dos outros. Ao frisar a mutabilidade e a transformação das configurações humanas, Elias compreende ainda a possibilidade da modificação dos habitus social e do perfil identitário de cada indivíduo bem como o rearranjo das configurações já existentes e a participação simultânea de um mesmo indivíduo em diferentes configurações, sendo esse, portanto, influenciado por diversas “teias de socialização”. Assim,
um ser humano singular pode possuir uma liberdade de ação que lhe permita desligar-se de determinada figuração e introduzir-se em outra [...], as mesmas pessoas podem formar umas com as outras diferentes figurações (os passageiros antes, durante e, possivelmente, depois de um naufrágio) [...]. Inversamente, diferentes seres humanos singulares podem formar figurações similares, com certas variações (famílias, burocracias, cidades, países) (ELIAS, 2006, p. 27).
Essas estruturas entrelaçadas que compõem as configurações apresentam, portanto, um equilíbrio flutuante e elástico e, logo, a compreensão destas não pode ser realizada de maneira atomizada; pelo contrário, deve ser empreendida mediante análise dos seus elos de interdependência. Tais figurações, que primam pela mutabilidade e interdependência, ensejam o desenvolvimento das sociedades, exemplo de processo social do qual falávamos acima. É preciso, no entanto, ressaltar que um processo social, por exemplo, pautado na “mudança não- planejada de longo prazo dos parâmetros sociais em uma direção determinada pode resultar das relações de tensão de seres humanos singulares que, em suas ações, estão orientados para planos e objetivos de curto prazo” (ELIAS, 2006, p. 228).
Para explicar o modo como os indivíduos se relacionam uns com os outros nas configurações das quais participam e, logo, como se constitui essa ordem relativamente autônoma, Elias propõe uma conceituação que denomina “modelos de jogo”, baseada na asserção de que essas relações se pautam no equilíbrio de poder, o qual sendo bipolar ou multipolar, “está sempre presente onde quer que haja uma interdependência funcional entre pessoas” (ELIAS, 1970, p. 80)10
.
Os modelos didáticos propostos por Elias visam jogar luz sobre os problemas sociológicos oriundos das relações de poder que permeiam as configurações humanas e, desse modo, permitem a compreensão de que todos nós nos desenvolvemos devido às obrigações que nos são impostas pelas tramas de relação das quais fazemos parte.
Mas não apenas “obrigações” impulsionam o desenvolvimento dos seres humanos; Elias comenta em sua obra que as ligações afetivas também tomam parte desse processo.
10
São seis os modelos de jogos apresentados por Elias em sua obra Introdução à Sociologia (1970): a) modelo da competição primária; b) modelo de jogo de duas pessoas; c) jogos de muitas pessoas a um só nível; d) jogos multipessoais a vários níveis; e) modelos de jogo a dois níveis: tipo oligárquico; f) modelos de jogo a dois níveis: tipo democrático crescentemente simplificado.
Alterações em determinadas configurações (por exemplo, morte de um ente querido, separação de um casal, etc.) igualmente transformam as relações de equilíbrio nas teias de relacionamento pessoal das quais o indivíduo faz parte e podem vir a ressoar em outras áreas de sua vida (ELIAS, 1970, p. 147-51).
Além disso, tais modelos explicativos contribuem para demonstrar o quão errôneo é pensar que o processo de individualização é uma mera relação de acontecimentos unilineares de causa e efeito. Pelo contrário, cada ação do habitus de um indivíduo só pode ser compreendida se refletirmos acerca do modo como se intercruzaram as suas “jogadas” anteriores e as de seus companheiros nas mais diversas configurações das quais ele faz parte (1970, p. 102-7).
Por fim, a ideia do jogo contínuo entre indivíduos põe em relevo um aspecto singular da humanidade, qual seja a mutabilidade por natureza dos seres humanos. Para Elias (1970, p. 119), a mudança de comportamento dos seres humanos relaciona-se a um ajustamento às situações que vão lhes sendo interpostas e decorrem, assim, “de um processo de aprendizagem individual [que] atua por meio da acumulação mnésica de experiência, de modo que podemos mais tarde recorrer a estas para que nos ajudem a diagnosticar e prognosticar qualquer nova situação”. Essa mutabilidade, portanto, não é vista como caótica, pois, nela, o indivíduo “não só atravessa um processo, [mas] é um processo” (ELIAS, 1970, p. 129)11.
Na obra Os estabelecidos e os Outsiders, Elias e Scotson exploram o conceito de configuração, ao realizarem um trabalho de cunho etnográfico em uma pequena cidade da Inglaterra denominada ficticiamente de Winston Parva, a qual, vivia, à época, um processo de industrialização e cujos moradores dividiam-se em três bairros (zonas): na zona 1, viviam as pessoas privilegiadas economicamente e as zonas 2 e 3 eram bairros operários.
A priori, a partir de uma análise econômica, poder-se-ia supor uma maior semelhança e integração entre as últimas duas zonas, porém não é isso o que Elias e Scotson encontram. Em razão de a zona 3 ser formada por imigrantes recém-chegados à cidade, estes eram estigmatizados e excluídos pelos habitantes das outras duas zonas. Havia um esforço mútuo entre os habitantes da zona 2 para a coesão do bairro. Essa configuração/união ao mesmo tempo em que limitava as ações dos indivíduos da zona 2 reforçava a diferença entre eles e os habitantes da zona 3. Um dos mecanismos estruturadores e coesivos da zona 2 era a prática da
11
É interessante destacar a posição de Elias em relação à mutabilidade dos adultos, que compõem a faixa etária
do nosso referencial empírico. Para o autor, “mesmo eles [os adultos, cujo caráter e cujas estruturas de
consciência e instinto se tornaram mais ou menos fixos], por certo, nunca estão inteiramente completos e acabados. Também podem mudar em seu contexto de relações, ainda que com alguma dificuldade e, em geral,
fofoca, que também ressoava nos moradores da zona 3, uma vez que, muitas vezes, colocava em relevo o estigma dos moradores da aldeia frente aos moradores do loteamento. Nesse sentido, os habitantes da zona 3 incorporaram em suas estruturas de personalidade o peso do estigma que carregavam de tal modo que a união entre as famílias dessa região era obstaculizada pelo sentimento de desconfiança mútua presente no local.
Ainda que a descrição do trabalho de Elias e Scotson seja muito sintética, dado o espaço de que dispomos, ela nos permite não só visualizar explicitamente a ideia de jogo proposta por Elias, como também os nós de interdependência existentes entre as configurações das zonas 2 e 3.
Em outra obra, Mozart, sociologia de um gênio (1995), Elias também faz uso dos conceitos de configuração e processo social, ao evidenciar a relação entre as estruturas sociais e as de personalidade de Mozart, cuja obra musical é exposta e analisada como tendo uma relação de interdependência com a sociedade da época em que foi realizada.
CAPÍTULO II
METODOLOGIA DE PESQUISA
Tendo apresentando o arcabouço teórico e as justificativas de sua utilização na presente pesquisa faz-se necessário discorrer sobre as escolhas que levaram à adoção da metodologia de pesquisa de cunho qualitativo etnográfico neste trabalho.
Com o objetivo de verificar as repercussões do PEC nas práticas pedagógicas e de leitura e escrita dos professores, perguntamo-nos: (1) como seria possível verificar tais repercussões, considerando o grupo numeroso de professores que frequentou esse programa? (2) Como cruzar as informações referentes às socializações familiares, escolares e profissionais de modo a compreender a convergência de seus papéis em cada prática de cada professor(a)?
O próprio decurso deste estudo evidenciou que somente uma pesquisa qualitativa realizada com um grupo reduzido de participantes poderia responder a tais indagações. A necessidade de aproximação do objeto de estudo, a fim de identificar a diversidade de arranjos configuracionais, nos quais esses docentes se achavam inseridos, bem como suas práticas e possíveis transformações, obrigou-nos a reduzir o tamanho do grupo, de oito para quatro docentes.
Na perspectiva qualitativa de pesquisa, a opção pela inspiração etnográfica, corporificada nas observações participantes e na realização de entrevistas semiestruturadas, deu-se pelo entendimento de que tais ferramentas metodológicas permitiriam um olhar mais atento aos detalhes das práticas docentes e dos discursos dos professores. Ademais, a experiência da utilização da ferramenta da observação participante demonstrou importância ao servir como prova ou, na maioria das vezes, contraprova aos depoimentos dos pesquisados, trazendo, assim, a realidade verdadeira das práticas para a pesquisa e afastando-a, por conseguinte, dos limites performáticos que a exclusividade dos depoimentos orais pode acarretar em determinadas situações.
Os três tópicos que compõem este capítulo buscam descrever em detalhes o percurso da investigação.