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Como já foi dito anteriormente, com a chegada da LDB, as Línguas Estrangeiras Modernas ganham um espaço que elas não tiveram até então. Passam a ser uma disciplina importante no currículo compondo a formação plena do indivíduo.

Os debates em torno da importância de se aprender uma ou mais línguas estrangeiras acontecem há alguns séculos. Houve momentos no percurso do ensino de idiomas nos quais se valorizava o latim, o grego e, como consequência, a literatura clássica. Já em outros momentos deu-se destaque ao estudo das línguas modernas.

Apesar de a legislação brasileira indicar um caráter prático no ensino de línguas em uso, isso nem sempre aconteceu, de fato. Vários fatores contribuíram para que a aplicação da lei não fosse eficaz, dentre eles: a falta de professores especializados e uma carga horária reduzida (problema existente ainda hoje!). Daí, ao invés de desenvolver as quatro habilidades – ouvir, falar, ler e escrever – naquela língua estrangeira, as aulas de Línguas Estrangeiras Modernas ganharam um caráter „chato‟ e „cansativo‟ constituindo desmotivação e desinteresse para professores e alunos.

Além dos entraves já postos aqui e o fato de a língua inglesa ter se tornado predominante – por uma série de fatores – não se estimulou o estudo de outras línguas e nem a formação de novos professores para lecioná-las.

Para piorar, a falta de materiais didáticos e seu alto custo ampliavam a lista de motivos para o desinteresse. É fato que, sem um bom material didático em mãos, fica, praticamente, impossível estudar uma língua estrangeira.

Assim, as Línguas Estrangeiras na escola regular passaram a pautar-se, quase sempre, apenas no estudo de formas gramaticais, na memorização de regras e na prioridade da língua escrita e, em geral, tudo isso de forma descontextualizada e desvinculada da realidade. (PCNs Ensino Médio, 2000, p. 26).

A partir do momento em que se inserem as Línguas Estrangeiras Modernas numa grande área – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – elas justificam sua existência e tomam posse da sua verdadeira função: levar a comunicação aos homens.

No entanto, os profissionais competentes habilitados em línguas estrangeiras ainda não conquistaram o seu lugar, nem mesmo dentro do espaço educacional. É de conhecimento público, por exemplo, que os concursos oficiais, nas três esferas (municipal, estadual e federal), muito raramente abrem vagas para um professor efetivo de língua estrangeira, especificamente. As especificidades têm acontecido, ultimamente, por conta das necessidades de um determinado professor de línguas para atender aos Centros de Idiomas estimulados pelo governo para socorrer os programas de intercâmbio existentes hoje, em especial o Ciência

sem Fronteiras5. Normalmente acontecem chamadas paralelas para associar a vaga ou as

vagas da língua estrangeira requerida pela instituição com a língua portuguesa. Isso evidencia um preconceito à profissionalização das línguas estrangeiras ou uma evidente exploração projetada na possibilidade de que o profissional precisa ter, pelo menos, duas competências para que uma possa recompensar a fragilidade ou inconsistência da outra.

Assim como qualquer outra língua ou ciência, as Línguas Estrangeiras Modernas dão acesso ao conhecimento e, por isso, às diferentes maneiras de pensar, de criar, de sentir, de agir e de gerar a realidade, o que faz com que o aluno tenha uma formação mais ampla e, concomitantemente, mais consistente.

As conexões que se criam entre as várias formas de expressão e de acesso ao conhecimento explicam a inserção das Línguas Estrangeiras Modernas numa grande área, deixando de ser uma disciplina deslocada dentro do currículo. Podemos compreender isso melhor porque não nos comunicamos só com palavras. Os gestos, as tradições e a cultura de um povo apresentam muitos aspectos no seu jeito de pensar, de ver o mundo e de se referir a ele.

Isso quer dizer que os principais fatores que possibilitam estabelecer diversos tipos de relações entre as variadas disciplinas e as Línguas Estrangeiras que compõem a área são as semelhanças e as diferenças das várias culturas, a verificação de que os fatos acontecem num dado contexto e a aproximação do cotidiano dos alunos com as situações colocadas para aprendizagem.

5 Ciência sem Fronteiras é um programa que busca promover a consolidação, expansão e internacionalização

da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional. A iniciativa é fruto de esforço conjunto dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério da Educação (MEC), por meio de suas respectivas instituições de fomento – CNPq e Capes –, e Secretarias de Ensino Superior e de Ensino Tecnológico do MEC. Disponível em: <http://www.cienciasemfronteiras.gov.br/web/csf/o-programa>. Acesso em: 11 nov. 2014.

Nessa relação interdisciplinar combinada com contextos reais vividos pelos alunos, o processo de ensino-aprendizagem de Línguas Estrangeiras ganha um novo formato. Formato este que passa a requerer que se coloquem em prática alguns princípios importantes que só existiam na legislação porque estavam fora da realidade ou por dificuldades de aplicação.

Não se pode ignorar o caráter de formação intrínseco à aprendizagem de Línguas Estrangeiras apesar da importância de se ganhar as habilidades de uma língua – ouvir, falar, ler e escrever – referidas pela legislação e pelos especialistas em estudo da linguagem.

Vemos, então, a necessidade de dar ao estudante do Ensino Médio a chance de alcançar um nível de competência linguística que seja capaz de lhe conceder acesso a informações de diversos tipos, conferindo, simultaneamente, a sua constituição como cidadão. Sem dúvida, essa competência deve ser somada à capacitação do aluno para compreender e produzir enunciados de acordo com a forma-padrão correta do novo sistema linguístico.

Assim o ensino de línguas que almeja apenas o conhecimento metalinguístico e o domínio das regras gramaticais para, no máximo, gerar um resultado regular em exames oficiais escritos passa a não ter mais lugar. Esse tipo de ensino, de conteúdos repetitivos, abre espaço para uma nova perspectiva: um tipo de curso que se fundamenta na busca da comunicação adequada para as variadas situações da vida do indivíduo. Porém, isso pode ser menos reflexivo pelo foco da instrumentalização.

Lembramos que numa abordagem comunicativa perdemos em atividade metalinguística, muito importante na atividade epilinguística quando fazemos os trabalhos parafrásticos para estabilizar a significação. Sem os recursos metalinguísticos esse movimento não é possível. Daí, compreendemos que as abordagens interacionistas e contextualizadas existentes atualmente ficam nos devendo essa reflexão, porque o ensino de gramática desaparece.

Na verdade, o que os PCNs querem é que os(as) professores(as) mudem suas práticas pedagógicas. Que façam de suas aulas laboratórios teórico-práticos criativos e voltem suas metodologias para reflexão-ação-reflexão sobre as aprendizagens significativas que forem elaborando no decorrer do processo.

Todavia, ao longo dos anos essa responsabilidade de formar cidadão nas aulas de línguas estrangeiras não fora bem incorporada pela escola regular. Esse compromisso foi sendo naturalmente assumido pelos institutos especializados em línguas, o que os PCNs pretendem corrigir alertando toda a comunidade escolar para perceberem que

Às portas do novo milênio, não é possível continuar pensando e agindo dessa forma. É imprescindível restituir ao Ensino Médio o seu papel de formador. Para tanto, é preciso reconsiderar, de maneira geral, a concepção de ensino e, em particular, a concepção de ensino de Línguas Estrangeiras.

[...]

Não se deve pensar numa espécie de unificação do ensino, mas, sim, no atendimento às diversidades, aos interesses locais e às necessidades do mercado de trabalho no qual se insere ou virá a inserir-se o aluno. (PCNs, Ensino Médio, 2000, p. 27).

Além do papel formador do cidadão, o Ensino Médio carrega o papel de ofertar educação para o trabalho. Por conta disso, é necessário adicionar ao currículo escolar as exigências da realidade do aluno do Ensino Médio de modo que ele tenha acesso aos conhecimentos suficientes para o mercado de trabalho e para a vida.

É preciso, então, oferecer ao aluno condições favoráveis a uma aprendizagem significativa, permitindo-lhe a escolha do idioma que lhe der mais oportunidades e focar nos cursos que priorizem a comunicação ao invés de focar na gramática normativa. Mas cabe ao professor/educador também ter a consciência dessas mudanças. O professor tem um papel sócio-político educacional muito importante na formação do aluno e pode fazer a diferença quando se dispõe a isso. Pode modificar seu jeito (metodologias inovadoras e criativas) de dar aulas. Contextualizar a gramática de tal forma que o aluno poderá aprender “analisando o todo” e redefinindo as partes, já citadas anteriormente, neste capítulo, com vistas a ganhar níveis de consciência de si e do outro.

Escola, professor, aluno, comunidade escolar e pais devem trabalhar unidos em prol da educação que querem para si e para seus filhos. O Projeto Político Pedagógico define com a comunidade os objetivos da escola, suas metas e prioridades. Por isso a escola do século XXI é considerada “autônoma”. Ela define sua filosofia, política, metodologia, avaliação e projetos que vêm de encontro ao que a escola quer para a comunidade na qual está inserida.

Sendo assim, a escola vai ao encontro das necessidades do aluno. Busca adequar sua prática pedagógica à realidade em que o aluno vive. E o professor de língua estrangeira precisa se conscientizar das mudanças e transformar suas aulas de forma que consiga fazer o aluno aprender outra língua, diferente da sua. Mas para isso é necessário persuasão por parte do professor, valorizando e mostrando para os alunos a necessidade de aprender a aprender.