Fuzzer Implementation
4.3 Instruction Generation
4.6.2 Ptrace-Based
Nos dias de visitas os internos demonstram grande preocupação com a limpeza dos espaços por onde os visitantes circularão. Por isto, o interno responsável pela limpeza da unidade deve fazê-la de maneira exemplar. Durante o almoço de sábado de visita a monitora pergunta aos internos: “Quem é o responsável pela limpeza do refeitório, hoje?”
Sapão responde: “Sou eu dona, já vou começar a fazer, e vou deixar bem limpo tudo aqui.”
Ao ouvir a conversa, Beleza, que está terminando de almoçar exige de Sapão: “E aí, Sapão capricha nessa limpeza, hoje tem visita e se chover, a visita vai ser aqui no refeitório, não quero ver reclamação de sujeira.”
Pinóchio reforça o cuidado: “Ó Sapão, não rateia nesta limpeza, varre bem e passa o pano sobre as mesas direitinho.”
Depois de ouvir os avisos Sapão que já havia iniciado a limpeza responde: “Ta meu, pode deixar que eu sei muito bem fazer essas limpezas, sempre fiz e nunca teve reclamação.”
O interno responsável pela limpeza da unidade deve fazê-la de forma impecável para dar boa impressão aos familiares que vem à unidade para representá-la como um lugar limpo e organizado. Por outro lado, nos outros dias não se observa a preocupação dos adolescentes em “esconder” a insalubridade, a sujeira e a degradação do espaço. Reclamações quanto à participação na escala semanal de limpeza elaborada pelos monitores, o “corpo mole” e as queixas na realização da limpeza durante a semana pela maioria dos adolescentes expressam uma maior aceitação da sujeira nos dias em que não há contato com os familiares.
Apresentar o ambiente em que vivem de forma limpa e higiênica significa mostrá-lo aos familiares como um espaço ordenado, harmônico onde cada um tem o seu “direito”, a sua dignidade e o seu lugar respeitado. De outra forma, a despreocupação com a limpeza nos dias em que não há visitação expressa a aceitação e a resignação de viver num ambiente em que muitas vezes impera a “lei do mais forte ou do mais esperto” e também, a sobreposição das regras institucionais sobre as regras de conduta própria forjadas no cotidiano da unidade. Para os adolescentes este espaço desordenado e sujo não deve ser exposto aos familiares, pois isto contraria as expectativas destes que ao visitá-los desejam encontrá-los, saudáveis, limpos e convivendo em harmonia com os demais sem o cumprimento de medidas disciplinares. A condição de estar cumprindo a medida de internação num espaço ordenado, harmônico e limpo reforça e aumenta o vínculo entre os internos e os familiares, isto garante a continuidade do apoio familiar que lhes dão suporte emocional e material até o desligamento da unidade por decisão judicial.
De acordo com Mary Douglas os diferentes agrupamentos humanos organizam o seu cotidiano e as suas interações sociais conforme os contextos e as interpretações simbólicas que fazem do seu viver. Neste sentido, as percepções humanas sobre limpeza e sujeira dos ambientes sociais assumem a função de ordenamento e regramento social dos indivíduos em sociedade. A sujeira representa a desordem, o caos; a limpeza e a higiene a ordem e a harmonia nas relações. Por isto:
Onde há sujeira há sistema. Sujeira é um subproduto de uma ordenação e classificação sistemática de coisas, na medida em que a ordem implique rejeitar elementos inapropriados (...) nosso comportamento de poluição é a
reação que condena qualquer objeto ou idéia capaz de confundir ou contradizer classificações ideais49.
No caso dos adolescentes privados de liberdade apresentar a unidade como um espaço limpo e higiênico representa uma forma de ordenar o cotidiano de maneira a estimular e garantir a continuidade do apoio familiar durante o período de internação. Este apoio permite ao interno participar na rede de troca e solidariedade existente entre eles fazendo parte das interações sociais que constituem o código de comportamento no grupo. Portanto, realizar as limpezas da unidade nos dias de visitas de maneira precária ou incompleta representa um perigo à manutenção do padrão de comportamento dos adolescentes, e por isto, o interno “faltoso” torna-se passível de sofrer pressões e constrangimentos que visam à readequação de sua conduta na unidade.
O código de conduta e honra também é expresso durante o horário de visitação. Neste momento os adolescentes pretendem mostrar aos familiares que sabem ter boas atitudes e respeito entre eles e entre eles e os familiares.
Às tardes dos domingos não são reservadas para o recebimento das visitas pelos internos. Entretanto, excepcionalmente a direção da unidade autoriza o ingresso de alguns familiares. Numa destas tardes enquanto os adolescentes jogam futebol no pátio são avisados pela monitoria que está chegando visita na ala. Imediatamente Secão solicita ao monitor: “Olha só seu, assim que a visita bater na porta o senhor nos avisa e só deixa ela entrar depois que nós der o sinal.”
Logo depois, os internos são informados da chegada da visita e o interno Polenta pede: “Não deixa entrar ainda seu, os guris tão colocando as camisas.” Neste momento, os adolescentes que estavam jogando futebol sem camisas direcionam-se ao fundo do pátio, longe do alcance visual dos visitantes e vestem suas camisas. Com isso, Seção dá o sinal de positivo para liberação do ingresso na ala e a continuidade do jogo de futebol.
Atitudes, gestos e assuntos também fazem parte do código de conduta dos internos perante os familiares. Durante o horário de visitação os internos que não a recebem permanecem no refeitório em atividades. Numa dessas ocasiões, os
internos Constantino, Aureliano e Bozo conversam e se desentendem. Constantino reclama de Bozo: “Ta loco, tu, têm que te ligar, fica levantando a camisa e deixando a mostra essa barriga e essa cueca para as visitas.”
Surpreso, Bozo responde: “Ba meu, não foi por gosto, nem me liguei que tinha entrado visita na ala.”
Aureliano em apoio à reclamação feita por Constantino também reclama da postura de Bozo: “Aí Bozo, vai ter que se ligar ou tu vai puxar da ala.”
Assustado Bozo compromete-se em corrigir o erro: “Ta meu, ratiei, não fiz por gosto, vou pedir desculpas pro gurização que recebeu a visita, já era.”
Após o término da visita Bozo conversa no refeitório com Zoreia, desculpando-se: “Ba povo, ratiei, não foi por mau, não vi tua visita entra na ala.”
Zoreia, aceita as desculpas, mas avisa Bozo: “Ta já era, mas se acontecer de novo tu ta ralado.”
Da mesma forma, gestos e movimentos com o corpo devem ser realizados com cuidado durante e perante as visitas. O desentendimento entre os internos Polenta e Cipó durante formatura para a janta ocorreu em função disto. Polenta exige de Cipó mudança de postura: “Esse cara vai ter de aprender a se comportar nos dias de visita, se não irá levar uma tunda, como já levou outra vez.”
Cipó acuado esclarece: “Não desrespeitei a visita do Bozo, não fiz nada de errado, só passei a língua sobre minha boca para limpar porque tava suja de farelos de salgadinhos que tinha comido. Não quis ofender ninguém, mas peço desculpas de qualquer forma.”
Os fatos vivenciados por estes internos mostram que ações e atitudes que revelam a intimidade corporal ou representam insinuações sobre sexualidade perante os familiares devem ser evitadas, sob pena de ser considerado desonrado e desrespeitoso diante dos demais e dos familiares.