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A cultura não é algo estanque, acabado que circula entre os indivíduos de forma imutável. Ao contrário, ela se constrói na história das relações dos grupos sociais entre si. Portanto, é dinâmica, mutável e se constitui na medida em que as interações sociais se estabelecem no interior de cada grupo social e entre os grupos sociais. De acordo com Denys Cuche, as culturas surgem das relações desiguais:

[...] A cultura só existe se produzida por indivíduos ou grupos que ocupam posições desiguais no campo social, econômico e político, as culturas dos diferentes grupos se encontram em maior ou menor posição de força ou de fraqueza em relação às outras. Mas mesmo o mais fraco não se encontra jamais totalmente desarmado no jogo cultural36.

Isto significa que grupos sociais de culturas dominadas possuem recursos e dinâmicas culturais próprias que convivem simultaneamente com as expressões e características da cultura dominante que lhe é imposta.

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CUCHE, Denys. Hierarquias sociais e hierarquias culturais. In: A noção de cultura nas Ciências

A noção de cultura popular enquadra-se neste referencial. Caracteriza-se não pela completa autonomia, não também, pela completa dependência da cultura dominante, mas sim, pela configuração de uma cultura particular que compreende elementos específicos, próprios e de elementos emprestados e importados. Esta cultura reage à imposição da cultura dominante através da ironia e da jocosidade, entre outros recursos.

Conforme expresso por Denys Cuche para Michael de Certeau a cultura popular caracteriza-se pela maneira de utilizar os produtos impostos pela ordem econômica dominante no seu cotidiano, por isso, é uma cultura de consumo37.

Tal concepção de cultura vincula o universo simbólico com a experiência de classe nas diferentes camadas sociais na sociedade contemporânea globalizada. Isto resulta em diferentes manifestações culturais: cultura dominante e dominada; cultura burguesa e operária; cultura de massa e das elites, etc.

A diversidade das manifestações culturais exige dos indivíduos pertencentes a diferentes grupos sociais a compreensão de que a alteridade é um importante elemento em suas interações, pois é o fator que permite a cada um reconhecer-se a si próprio, e também, ao outro. Para Claudia Fonseca a noção de alteridade entre pessoas de diferentes grupos sociais é o que permite a comunicação e a interação entre elas:

É preciso que tomemos certa distância em relação a esse outro, para nos comunicarmos com ele. Sem reconhecer e admitir a diferença, não há diálogo. Ao mesmo tempo, deve-se evitar a projeção desse outro para fora de nossa esfera: se ficar muito distanciado, a comunicação torna-se impossível. A alteridade se constrói na tensão entre esses dois pólos38.

Estudos antropológicos baseados no enfoque de classe social representam importante instrumento para compreensão da sociedade contemporânea. Entretanto, análises realizadas por alguns pesquisadores em relação a grupos populares muitas vezes restringem-se a uma perspectiva analítica sobre os impactos resultantes da dominação das classes abastadas sobre as vidas das classes populares

37 CERTEAU, Michel de apud CUCHE, Denys. Hierarquias sociais e hierarquias culturais. In: A noção de cultura nas Ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 2002.

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FONSECA, Claudia. Família, fofoca e honra. Etnografia de relações de gênero e violência em

“dominadas”. A cultura popular não se constitui apenas como conseqüência das influências das outras culturas, ao contrário ela se configura a partir da sua capacidade de influenciar e ser influenciada por outras formas de manifestações culturais.

O final dos anos 80 do século XX caracteriza-se pelo predomínio ideológico da economia capitalista liberal dos Estados Unidos. De acordo com Claudia Fonseca isto resultou no repúdio dos antropólogos norte-americanos em relação aos estudos sobre classe, pois consideravam que os diferentes setores da sociedade vivem em harmonia e em busca de um desenvolvimento comum. No Brasil este momento foi marcado pela abertura democrática e os antropólogos iniciaram intensos estudos sobre o popular. A música, os clubes de futebol, a organização familiar e a participação política tornaram-se objeto de interesse de parte da intelectualidade nacional39.

A consolidação da ideologia neo-liberal nos anos 90 resulta em mudança analítica das pesquisas antropológicas que passaram a associar a população de baixa renda a questões problemáticas da sociedade, como o tráfico de drogas, jovens em conflito com a lei, etc. Na tentativa de encontrar a solução a tais problemas alguns pesquisadores utilizaram a etnografia como estratégia de intervenção social à fim de encontrar as respostas a tais problemas. Para Claudia Fonseca esta conexão transformou o pesquisador em alguém que:

(...) denuncia as estruturas capitalistas como causa última da pobreza ao mesmo tempo que procura através de uma etnografia mecanismos educativos (...) capazes de provocar uma transformação libertadora dos valores entre os próprios pobres40.

A continuidade dos estudos antropológicos sobre classe popular revelaram uma forte preocupação em denunciar as precárias condições de vida desta população. Tais análises interpretavam a sociedade de forma maniqueísta, o mundo formado por dominantes- algozes, exploradores e dominados- vítimas, exploradas-

39 FONSECA, Claudia. Classe e recusa etnográfica; In: FONSECA, Claudia; BRITES, Jurema (Orgs.) Etnografias da participação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2006.

que esperam por alguém mais “iluminado” e capacitado para resolver seus problemas.

Os estudos baseados nestes pressupostos revelam mais a percepção de mundo do próprio pesquisador do que propriamente uma interpretação fundada na observação e análises etnográficas do cotidiano das classes populares que possuem valores, constroem significados e visões de mundo próprias. A compreensão do universo simbólico e das práticas sociais das classes populares deve acontecer com base em sua realidade empírica através da etnografia e da descrição densa deste cotidiano. Tal estratégia diminui os riscos de o pesquisador entender os grupos populares a partir das visões de mundo das outras classes sociais ou a partir de sua própria percepção do objeto.