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ANEXOS:

Revista Época Edição 608 / 08 de janeiro de 2010.

(1) Os efeitos da chuva

“Era um dos lugares mais lindos da ilha, tinha uma prainha particular para as crianças e nós mergulhamos com tartarugas e peixes”, disse Flávio Larini, um dos quatro sobreviventes de um grupo de 17 pessoas que alugou uma casa na Ilha Grande, em Angra dos Reis, Litoral Sul do Rio de Janeiro. Não é apenas um dos lugares mais bonitos da ilha, é um dos mais lindos do mundo. Estive ali, bem perto, apenas uma semana antes de Flávio, com minha família e outras duas famílias de amigos. Já me considerava uma pessoa de sorte apenas por ter passado o feriado de Natal em Ilha Grande. Na semana seguinte, passaria a me considerar ainda mais sortudo, por não ter estado ali por mais tempo.

Tragédias, dos mais variados tipos, acontecem em todo lugar. Mas algumas são mais recorrentes do que seria razoável esperar. Não há tecnologia para evitar as chuvas torrenciais (distribuí-las um pouco melhor seria o ideal). Mas deve haver modos de tirar as pessoas do caminho do desastre. Relatar toda a dimensão humana da catástrofe, e apontar o que se deve fazer para diminuir seu impacto, é o que fazemos nesta edição, num trabalho primoroso dos jornalistas Felipe Varanda (fotos), Rafael Pereira, Rodrigo Turrer, Juliana Arini, Aline Ribeiro, Martha Mendonça, Alexandre Mansur, Celso Masson e Ruth de Aquino. Os infográficos são de Marco Vergotti, Nilson Cardoso e Gerson Mora.

As soluções não são simples. Envolvem impedir a ocupação – tanto de ricos como de pobres – de áreas de risco, tarefa das mais difíceis. Envolvem, ainda, dispor de um sistema eficiente de alerta para a iminência de desmoronamentos e rever licenças de construções erguidas em uma época em que a Lei Ambiental não era tão severa. Envolvem obras como contenção de encostas e barragens, que não aparecem para o eleitor – e aparecem tanto menos quanto mais eficientes forem. Envolvem também, é claro, a atuação

consciente de cada cidadão. São dificuldades enormes. Mas a repercussão do drama de gente como Flávio Larini vai, sim, levar a alguma ação. E não é demais esperar que tanto governos como cidadãos estejam mais bem preparados para as próximas chuvas.

Revista Época Edição 612 / 05 de fevereiro de 2010.

(2) O exemplo do coronel Paulo Lopes

O coronel da PM carioca Paulo Lopes foi surpreendido há poucos dias por uma dessas notícias que assustam: seu filho Paulo Olímpio, de 28 anos, fora preso depois de praticar com dois amigos um assalto à mão armada. Olímpio recebera uma educação de classe média relativamente confortável. Cursara faculdade de gastronomia e, até pouco tempo atrás, ainda recebia mesada. Em nenhum momento, seu pai, um policial, poderia imaginar que criava um bandido em casa. Paulo, o pai, tomou então uma decisão difícil: apoiar a punição do filho. “Eu o amo, mas ele vai ter de pagar pelos seus erros”, disse em entrevista a ÉPOCA.

A atitude do coronel Paulo deve ser aplaudida. Ela é menos rara do que pode parecer em nosso país – e precisa ser valorizada diante da crítica frequente e quase monocórdia aos valores morais do brasileiro. Elegemos um presidente com alma de Macunaíma, a cada semana novas denúncias de corrupção se abatem sobre nossos políticos, costumamos valorizar a relação pessoal mais que a lei, o compadrio mais que o mérito, a hipocrisia mais que a verdade. Tudo isso pode até estar certo. Mas o Brasil ainda tem gente como o coronel Paulo.

Gente como ele sabe que prêmios e punições devem ir para quem merece. E não há maior prova de amor que um pai possa dar a um filho do que ensiná- lo a pagar por seus erros. Se tivéssemos mais gente como o coronel Paulo, deixaríamos para trás os dilemas ridículos e infantis que atormentam nossa sociedade histérica. De um lado, uma espécie de moral politicamente correta, de matriz esquerdista, costuma ser tolerante com toda sorte de “coitadinho”. Aceitam-se o furto, a invasão e o desrespeito à lei e promovem-se políticas compensatórias que só ampliam a injustiça, tudo em nome da ideologia

ultrapassada que promove a compensação por um passado desigual e de uma história de exclusão. De outro lado, uma moral autoritária e conservadora defende um universo fechado ao que vem de fora, incapaz de entender o mundo moderno e a pluralidade que torna viva e tanto enriquece nossa sociedade – caso típico dessa moral foi a declaração homofóbica do general Raymundo Cerqueira Filho ao Senado na semana passada (leia mais na reportagem e na coluna de Fernando Abrucio).

A atitude do coronel Paulo mostra que nosso maior problema não é a pobreza nem a desigualdade: é a educação das nossas crianças. Educá-las é ensinar valores a elas. Valores que não dependem de origem, credo, cor ou classe social. Nesse ponto, não somos nem podemos ser, ao contrário do que pregam certos manuais de sociologia, um país dividido em dois. Somos um país só. Para tornar essa ideia mais presente, uma boa iniciativa é proposta nesta edição pela colunista Ruth de Aquino: acabar com o serviço militar e promover o serviço civil obrigatório. Isso levaria jovens de classe média como Olímpio a perceber quão distantes – e quão próximos – estão dos brasileiros mais pobres. Servir a esses brasileiros ajudaria a entender os valores que importam na vida. Uma iniciativa dessas formaria cidadãos melhores e contribuiria para termos um país melhor, com mais gente como o coronel Paulo.

Revista Época Edição 616 / 06 de março de 2010.

(3) Mindlin, os livros, a educação e o futuro do Brasil

O Brasil não costuma se sair bem nas avaliações internacionais de leitura e compreensão de textos. Nas comparações divulgadas periodicamente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), sempre aparecemos entre os últimos da lista. Também não somos bem avaliados nas medidas de educação em geral. Nosso presidente confessa ler muito pouco e, em que pese o talento evidente de alguns expoentes nacionais das letras e das ciências, não é um exagero afirmar que, na média, o brasileiro é um povo de poucas luzes. É verdade que temos melhorado nos últimos anos – e essa melhora deve ser incentivada e aplaudida. Mas, quando tentamos

imaginar um papel maior para o país no cenário mundial, fica difícil acreditar que chegaremos a algum lugar com um povo deseducado como o nosso.

Há muitas formas de educar alguém. Nada, porém, substitui a leitura. Ler é, antes de mais nada, um prazer. É também um modo de viajar, de conhecer gente e de ter acesso à maior quantidade de universos humanamente imagináveis. “Num mundo sem livros, seria impossível viver”, costumava dizer José Mindlin, o maior dos bibliófilos brasileiros, morto na semana passada aos 95 anos. Mindlin deixou como legado uma gigantesca biblioteca e, num ato de amor ao Brasil, doou ao público a parte de seu acervo relacionada ao país.

Ninguém imagina que um dia seremos uma nação formada por intelectuais como Mindlin. Enquanto, porém, o brasileiro médio não demonstrar amor semelhante pela leitura, pelo estudo e pelo conhecimento, seremos secundários na cena internacional. De nada adianta tentar dar lições de moral a americanos, europeus e asiáticos – como o presidente Lula e o chanceler Celso Amorim pareciam fazer na semana passada diante da secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton –, se nossas crianças nem conseguem fazer lição de casa direito. É possível – provável até – que o Brasil atinja um dia o papel de protagonismo global com que todos sonhamos. Mas isso não acontecerá sem que nosso povo leia mais, sem que nossas escolas melhorem, sem que nelas haja alunos cada vez melhores.

Cada brasileiro pode contribuir para isso, como revela a reportagem da página 74, de autoria da repórter especial Camila Guimarães. Ela investigou nas últimas semanas os segredos que tornam alguns alunos melhores que outros. Seu texto revela, por meio de histórias reais, como é possível tirar nota alta sem ser alguém especial ou superdotado. De acordo com Camila, um misto de ambiente familiar favorável, escolas com condições, garra e dedicação pode levar uma criança a se destacar nos estudos. As crianças retratadas na reportagem de Camila são um exemplo de como o Brasil pode melhorar em poucos anos e se aproximar do país sonhado por gente como Mindlin.

Revista Época Edição 620 / 02 de abril de 2010.

(4) As vítimas da indústria e a indústria de vítimas

Um novo estudo divulgado na semana passada trouxe uma revelação surpreendente: a comida gordurosa pode ser tão viciante quanto drogas como cocaína ou heroína. Não se trata ainda de um resultado conclusivo, pois a experiência foi feita apenas em ratos. Mas é um dado preocupante para todos os interessados na saúde pública – e na própria saúde. Se a gordura cria mesmo dependência, o que é possível fazer para evitá-la?

Tal questão está relacionada a um dos debates mais relevantes do mundo contemporâneo. Diante desse tipo de pesquisa, sempre há aqueles que defendem regulamentos rígidos sobre o consumo das substâncias que afetam nossa saúde. É assim com as drogas, com o álcool, com o tabaco – e o próximo alvo passou a ser a gordura. A brigada de militantes pelos controles alimentares adota uma lógica tão perversa quanto frequente nos dias de hoje. Eles aparentemente nos julgam vítimas de uma indústria maléfica, cujo objetivo é tão somente vender produtos que viciem e nos tornem compradores regulares. Como somos considerados vítimas, a solução que propõem é uma espécie de proteção policial: criar mais e mais regras para restringir a indústria ou até mesmo proibir o consumo.

Eis-nos aí diante da maior armadilha intelectual e política da modernidade: fabricar vítimas, para depois reivindicar seus direitos. É assim com os sem- terra, os sem-teto, os sem vaga na faculdade (porque não passam no vestibular) e, na mais nova modalidade, os “sem controle sobre o que comem”. A visão de mundo que produz todas essas vítimas procura eximir o indivíduo de toda a responsabilidade pelo que lhe acontece. Sempre encontra uma forma de atribuir toda a culpa àqueles que são vistos como “poderosos” – pode ser algum grupo industrial, político ou social. E sempre tenta reivindicar privilégios para os “coitadinhos”, em nome da reparação pelos danos que lhes teriam sido infligidos sem que eles pudessem fazer nada.

A história humana está repleta de vítimas reais de crimes atrozes. As sociedades maduras punem os culpados por tais crimes, pois consideram-nos

responsáveis por seus atos. Da mesmíssima forma como cada um de nós deve arcar com suas próprias responsabilidades. Transformar-nos em vítimas imaginárias, com base na atribuição dessas responsabilidades aos outros, é, mais que um equívoco, um desrespeito às verdadeiras vítimas de crimes. Se comemos gordura em excesso, sabemos que corremos maior risco de sofrer de várias doenças. Se ficar comprovado que a gordura cria dependência, haverá diversas formas de evitá-la. A experiência com drogas ou fumo mostra que o sucesso de cada uma delas está ligado mais à força de vontade individual do que às regras, controles e proibições policiais eventualmente estabelecidos para restringir o consumo.

Por isso, é tão importante que todas as informações a respeito sejam divulgadas. Cabe à sociedade manter a livre circulação de ideias, para que todos conheçam o risco que correm ao consumir qualquer substância. Em ÉPOCA, acreditamos que cada um de nós é responsável pelos próprios atos, pelo que comemos e pelo que fazemos com nosso corpo. Na reportagem da página 62, mais uma vez defendemos esse ponto de vista. Acreditamos que, assim, contribuímos para evitar criar novas vítimas – as vítimas da própria ignorância.

Revista Época Edição 624 / 06 de maio de 2010.

(5) A primeira revista brasileira no iPad

O mundo digital é hoje um dos maiores desafios dos editores de revistas no mundo todo. Depois da internet e dos celulares inteligentes, a emergência dos novos leitores digitais, conhecidos como tablets ou e-readers, tem enchido de energia criativa aqueles que – como nós – acreditam na força da inovação. Nesta semana, mais uma vez transformamos essa crença em atos: lançamos a primeira versão de uma revista brasileira concebida e programada para o mais novo leitor digital do mercado, o iPad, da Apple.

Num primeiro momento, o programa disponível para download na loja da Apple traz o conteúdo publicado em nosso site num formato adequado ao novo leitor digital. Pegar um iPad na mão, fazer o download do programa, clicar com o dedo em ÉPOCA Digital e usufruir o produto transmite uma sensação

semelhante à das mágicas que nos fascinavam quando éramos crianças. Se você quiser ter uma ideia de como ele funciona, basta entrar em epoca.com.br e assistir ao vídeo que mostra a navegação por ÉPOCA Digital no iPad.

Essa navegação simples e intuitiva, tão fácil de usar, é na realidade bem difícil de fazer. Ela é resultado de um trabalho intenso nas últimas semanas, realizado pelo Núcleo Digital da Editora Globo, com o apoio da consultoria Lab360. Nossa equipe do Núcleo Digital, sob o comando dos diretores Alexandre Maron, Ricardo Cianciaruso e Saulo Ribas, vem demonstrando uma crescente competência na conquista da cultura editorial do mundo on-line. É um trabalho que envolve mudanças não apenas técnicas na confecção da edição digital, mas também uma nova visão de como atender melhor ao que você espera de nós no novo meio.

A primeira versão de ÉPOCA Digital é apenas nosso primeiro passo neste novo e promissor ambiente. Em breve, você poderá comprar uma versão digital de sua edição de ÉPOCA da semana e terá acesso a todo tipo de recurso que só um iPad pode oferecer. O vídeo em nosso site exibe com mais detalhes os recursos em desenvolvimento em nosso Núcleo Digital.

Bem-vindo a esta nova ÉPOCA digital!

Revista Istoé Edição 2095 / 06 de janeiro de 2010.

(6) A Gastança Pública

O calcanhar de aquiles da economia neste ano de 2010 que começa é a gastança do setor público, que, em anos eleitorais como este, passa de todos os limites razoáveis. A julgar pelos sinais que já vêm sendo emitidos do Planalto, os controles não serão tão rígidos. Para o PAC, o programa que deve se converter na principal máquina de arrecadação de votos federal, virão mais R$ 7 bilhões em recursos adicionais. É o maior volume orçamentário já previsto, desde a sua criação em 2007. O saco de bondades – cuja conta, naturalmente, deverá ser paga pelo sucessor – não para por aí. Uma medida provisória vai fixar em mais de 6% o reajuste de pensões e aposentadorias do INSS superiores ao salário mínimo. O valor já passa a vigorar a partir de

janeiro e corresponde ao total da inflação de 2009 mais 50% da variação do PIB de 2008.Na mesma linha, o salário mínimo que entra em vigor passa a apresentar seu maior patamar, em valores reais, dos últimos 24 anos. Pelas contas do Dieese, os R$ 510 previstos equivalem em dólar ao salário mínimo de 1986, quando o Plano Cruzado introduziu o congelamento de preços e segurou temporariamente a inflação. Essa última concessão do governo Lula aos trabalhadores cobre uma massa salarial de mais de 46 milhões de pessoas da chamada População Economicamente Ativa (PEA), cujo mínimo atua como referência.

Em relação à cesta básica, o mínimo de R$ 510 apresenta a relação mais favorável desde 1979. Na ponta do lápis, corresponde a 2,17 cestas básicas em 2010. Em outras palavras, está turbinado exponencialmente o poder de compra dos brasileiros na chamada camada mais pobre da população. O lado positivo da equação é que esse incremento de renda promove reflexos positivos por vários setores, embora possa comprometer as metas orçamentárias da máquina. Um mero detalhe. Afinal, as autoridades não parecem mesmo muito preocupadas com limitações de verbas. Para atender ao entusiasmo consumista, até desonerações de vários segmentos entraram na ordem do dia. Créditos de IPI passaram a valer para a compra de produtos com material reciclado. A renúncia fiscal nesse caso é de mais de R$ 100 milhões. É preciso ver como o País vai fechar a conta depois.

Revista Istoé Edição 2099 / 03 de fevereiro de 2010.

(7) A queda de braço com o PMDB

O movimento começou de maneira sutil. Ainda no final do ano passado, o presidente Lula sugeriu que o PMDB, partido da base aliada, entregasse uma lista tríplice de nomes para vice na chapa da ministra Dilma, que concorre nas próximas eleições. Com um candidato praticamente declarado ao posto – o presidente da Câmara, Michel Temer –, o PMDB reclamou e desconsiderou a proposta. Na semana passada, o Planalto avançou mais um passo na direção de influir sobre a escolha do partido. Defendeu abertamente a candidatura de Henrique Meirelles para a vaga ou, numa segunda hipótese, a do ministro Hélio

Costa, ambos peemedebistas de carteirinha, com experiência na livre iniciativa. A ideia de Lula é ter ao lado de sua escolhida Dilma alguém com um perfil próximo ao do atual vice, José Alencar, bem-sucedido na vida empresarial onde ergueu o grupo Coteminas.

As sinalizações do governo só amplificaram os protestos do outro lado. O PMDB chegou a ameaçar com o abandono da chapa, caso Temer fosse vetado. Fez mais. A Executiva Nacional antecipou para fevereiro a sua provável reeleição à presidência do partido. No atual estágio da queda de braço com o PMDB é possível dizer que o tiro do governo saiu pela culatra. O partido aumentou seu preço: além da cadeira de vice, quer agora negociar várias outras participações de peso no futuro governo, para firmar o acerto. Ao desprestigiar o escolhido Temer, Lula também conseguiu o impossível: o PMDB, que tem poderes tradicionalmente difusos, e às vezes antagônicos, unificou o discurso em torno da figura do seu rejeitado presidente. E com esse