• No results found

Uma vez dito que o ato de recategorizar envolve a efetuação de escolhas lexicais por parte de seu enunciador, acrescentemos o fato de que essas opções lexicais são sempre associadas a uma intencionalidade do enunciador. Sintetizaremos agora o que alguns estudiosos observam sobre esta questão.

Para Harman (1999), a intencionalidade é uma relação com um objeto intencional. Por exemplo, quando alguém se refere a George Miller como “um cientista cognitivista”, o objeto intencional de seu pensamento é George Miller enquanto cientista cognitivista. Este alguém possui, pois, uma representação mental desta referência “um cientista cognitivista”. Tal objeto expresso através da linguagem pode ou não ter uma existência real no mundo, pois

aquilo a que se refere é apenas um conteúdo de intenções. Portanto, a intencionalidade é vista por Harman (1999) como uma característica importante da cognição.

A despeito disso, achamos, ao contrário do autor, que tal fator discutido não se esgota no aspecto das representações mentais; a intenção, na verdade, passa a ser um relevante aspecto para a interação verbal.

Os autores Beaugrande e Dressler (1981), por sua vez, tiveram o mérito de elencar sete fatores cruciais da textualidade, dentre os quais se incluiu a intencionalidade, aqui relacionada aos propósitos a serem alcançados pelo emissor por meio da expressão verbal. Definindo em sentido restrito, dizem os autores que todo emissor tem por intenção precípua construir um texto coeso e coerente. Porém, em sentido mais amplo, a intencionalidade significa os modos pelos quais os produtores planejam seus textos a fim de obterem êxito com relação a suas intenções comunicativas. Segundo os autores, as atividades de produção e recepção de textos funcionam como “ações discursivas” relevantes para a obtenção de resultados que condizem com nossos intuitos.

Conforme focaliza Chaves (2004, p.02):

O momento da intencionalidade aparece como um atributo de vontade de uma mensagem ao ser propositadamente direcionada, de ser arbitrária para atingir o seu destino. É a interação de competências distintas existentes nos diferentes mundos: o mundo do emissor da mensagem e o mundo de referências do receptor, em sua realidade de convivência e para onde o conhecimento se destina.

Segundo Koch e Travaglia (1999), a argumentatividade é um traço marcante, subjacente à intencionalidade enquanto aspecto de cunho cognitivo do uso lingüístico. Podemos dizer, então, que, ao recriar um referente por meio de sua recategorização, o emissor nunca é neutro, mas sempre mantém um posicionamento com relação ao discurso. Em outros termos, isto se explica com base na idéia de que, a todo processo lingüístico, há uma ideologia que lhe é inerente (cf. Bakhtin (1979); Koch (1999)). O modo de articular e ordenar os sintagmas e expressões referenciais denuncia o pensamento de seu idealizador, sendo que todo este processo de escolhas determina o rumo que o discurso seguirá em sua progressão. Assim é que a argumentação, de caráter amplo, faz-se presente em todos os discursos. Como bem afirma Koch (1999, p. 19): “(...) o ato de argumentar, isto é, de orientar o discurso no sentido

de determinadas conclusões, constitui o ato lingüístico fundamental, pois a todo e qualquer discurso subjaz uma ideologia, na acepção mais ampla do termo”. Vale frisar que a argumentatividade está latente nos enunciados de maneira variável, em termos de maior ou menor grau.

Como considera Pêcheux (1975, apud Brandão, 2002), na Análise do Discurso, o sentido de uma palavra, expressão ou proposição não existe por si só, de maneira prévia; e sim através da posição ideológica assumida pelo locutor no processo sócio-histórico, que acompanha a produção (ou a reprodução) lingüística.

Ao seguirmos esta perspectiva, constatamos que a recategorização reveste-se, em grande parte dos casos, de alto valor argumentativo, podendo o falante/escritor amoldar suas expressões referenciais à sua intenção comunicativa, a partir de seus julgamentos e avaliações sobre um determinado objeto discursivo.

Tomemos como o seguinte exemplo extraído de Koch (2002):

(42) “Os termos do acordo da Alca mais parecem com os de uma procuração por um instrumento público em que a sociedade repassa, definitivamente, plenos poderes às redes privadas oligopólicas. O poder dos senhores do capital se estende, inclusive, ao futuro quando procuram cláusulas de irreversibilidade, queimando possíveis portos de partida e naus de saída (Koch, 2002, p.108)”.

Neste trecho acima, tem-se que a modificação do referente recategorizado por meio da expressão “O poder dos senhores do capital” revela-se plena de teor argumentativo. Vê-se claramente que este sintagma de referência selecionado por seu redator não é ingênua, mas desempenha funções relevantes ao enunciado. Poderiam ser escolhidos outros sintagmas de significado mais sutil para reportar-se ao “poder oligopólico”. No entanto, tal forma referencial adotada pareceu ajustar-se ao desejo intencional de quem a produziu.

Diante disso, é impossível sustentarmos que a anáfora recategorizadora não apresente outras funções além de apontar objetos referencialmente. Pode-se dizer, então, que a recategorização como expressão referencial pode exercer múltiplas funções no discurso. Sobre isso, vejamos a argumentação de Koch (2002, p.106) de um modo geral: “A função das expressões referenciais não é apenas referir. Pelo contrário, multifuncionais que são, elas

contribuem para elaborar o sentido, indicando pontos de vista, assinalando direções argumentativas, sinalizando dificuldades de acesso ao referente e recategorizando os objetos presentes na memória discursiva”. A autora admite que os objetos discursivos apresentam um alto grau de adaptabilidade aos contextos sócio-comunicativos, podendo ser modificados, desativados, reativados, transformados no curso da progressão textual.

Mas, apesar de sua preocupação com a funcionalidade das expressões referenciais, Koch (2002) não se detém na análise das recategorizações. Uma vez que se efetua uma verdadeira mudança na identidade dos referentes ao longo do discurso, mediante o emprego de tais termos não co-significativos, julgamos bastante pertinente nosso objetivo de analisar tais termos de maneira mais aprofundada sob um ponto de vista funcional.

Em vista dos argumentos apresentados, acreditamos que as formas de recategorização lexicais não possam escapar ao princípio divulgado por Koch (1999) de que “a linguagem é essencialmente argumentativa”. Por isso, em nossa proposta de classificação das funções discursivas das formas acima mencionadas, qualificaremos todas elas como argumentativas.

Por fim, Koch (1999) afirma ainda que as relações discursivas ou pragmáticas são de caráter eminentemente subjetivo, já que dependem das intenções do falante, dos efeitos que este busca atingir no momento em que elabora seu texto.

4.3. As funções cognitivo-discursivas das expressões nominais referenciais