É sabido que, na escola tradicional, quase não há diálogo entre professores e alunos. A preocupação maior na escola, neste tipo de ensino é o repasse de conteúdos e desta forma, o relacionamento professor/aluno fica mais limitado.
Riane Eisler, intelectual que escreveu, também, sobre as culturas matrística e patriarcal, afirma haver dois grandes modelos de escola, um dos quais ela chama
modelo de dominação de sociedade na qual famílias, locais de trabalhos, tribos e Estados são organizados em rígidos níveis de dominação preparados, em última instância, no medo e na força. Esta não é uma educação apropriada para uma sociedade democrática, equitativa e pacífica, orientando para o que chamo de 'modelo de parceria' e Rosenberg chama de estrutura de edificação da vida. ("domination model of society where families, workplaces, tribes and states are organized into rigid rankings of domination ultimately baked by fear and force. It is not an education appropriate for democratic, equitable and peaceful societies, orienting to what I call the partnership model and Rosenberg calls a life enriching structure" (EISLER, 2003,p.xii).
Para Marshall Rosenberg, educador e psicólogo, a educação tradicional tem, frequentemente, constrangido mais do que expandido a mente, o coração e espíritos humanos. A Life-enriching Education, proposta por ele, prepara as crianças para se relacionarem bem consigo e com outros. Segundo este autor:
"a educação para edificação da vida é baseada na premissa de que o relacionamento entre professores e estudantes, o relacionamento entre os estudantes, bem como com o que estão estudando, são igualmente importantes. ("Life-enriching education is based on the premise that relationship between teachers and students, of student with one another and the relationship of students to what they are learning are equally important (ROSENBERG, 2003, p.xv).
Comungamos com a importância de que, concomitante ao estudo de conteúdos, a educação se volte para a questão relacional, ou como a Cultura de Paz coloca, para a aprendizagem da convivência. Em função disto, nossa atenção se voltou, também, para o relacionamento aluno-professor.
No que diz respeito às relações entre professores e alunos, estas foram as percepções de uma professora desta escola:
Essa é uma outra questão do professor, quando a gente entra aqui, porque você se descola do seu lugar de autoridade do conhecimento. A gente passa a dizer pros estudantes “Todo mundo aprende com todo mundo”, é claro que precisa da intervenção daquele que de alguma forma estudou aqueles conteúdos ao longo da sua vida, aquele que tem por exemplo a formação específica pra aquela área, então eu tenho muito mais condições de discutir com o estudante e de dizer pra ele o que é aquilo, do que uma criança, do que um adolescente que tá naquela mesma fase do conhecimento, mas isso não significa que aquele adolescente também não saiba, talvez ele saiba bastante, ou saiba um caminho que possa ensinar, que é o caminho que ele percorreu pra descobrir, ele possa ensinar aquele caminho pro colega, talvez seja um caminho que o professor ainda não conseguiu descobrir, então acho que essa questão da construção da autonomia, porque é uma construção.(Gardênia, agosto, 2014). Vislumbramos na professora uma postura diferente, no que concerne ao relacionamento entre professores/alunos, e há uma valorização da autonomia e quebra do paradigma das relações tradicionais. A entrevistada afirma que este não é um papel fácil para os professores que foram formados dentro do modelo tradicional. Gardênia acrescenta que isto é um desafio para o quadro docente da escola:
Professor chegar e compreender esse processo todo, sair do papel principal da escola, porque a gente tem esse lugar, quer dizer, “o meu lugar de dar aula”, digamos assim, “o meu palco”, né?, “este é meu palco”, então “como é que você tira isso de mim, você tira o meu chão?” ( Agosto, 2014).
Logo em seguida, ela reconhece o ensino/aprendizagem como um processo mútuo e firma o espaço democrático: - "é possível aprender com o outro, e o professor também aprende com o estudante; saber que espaços democráticos são assim, a gente tem que dividir os lugares". Não obstante as dificuldades, a aceitação do novo modelo já é uma realidade para os docentes da instituição, tendo por referência a fala desta educadora.
Cada professor, também, assume a tutoria com um máximo de 20 alunos. O tutor tem um papel importante no ensino dos conteúdos e da convivência. Ele assume um lugar importante neste novo modelo. Segundo Gardênia - 'fazendo essa formação não só intelectual, mas também atitudinal dos estudantes'. A tutoria consiste num processo, no qual os professores orientam os alunos de forma individualizada e acompanham seu desenvolvimento da aprendizagem. Eles promovem encontros semanais com os pais dos alunos, a fim de fazer conhecer como seus filhos estão na escola. Eis como Margarida define este trabalho:
é uma orientação a um grupo especial de alunos, então a gente orienta esses alunos, tira as dúvidas, acompanha o desenvolvimento deles na aprendizagem, faz a correção dos exercícios, dos cadernos, tira as dúvidas, então esse é o objetivo datutoria, o tutor também tem ligação direta com os pais dos alunos, somos nós que somos o caminho entre o pai e o aluno, então a gente faz as reuniões, os comunicados ... (ago. 2014).
A tutoria tem um papel importante na configuração da nova relação aluno/professor, que se estabelece na comunidade escolar. Importante salientar a fala de uma das professoras que afirma que, por causa desta nova relação que a tutoria traz, ela consiste num dos fatores que auxiliam a resolver problemas, aproxima-os dos professores e, por causa disto, ajuda no processo de aprendizagem. Flora afirma:
...eles aprendem a ter um vínculo com esse tutor que já elimina boa parte dos problemas... relação como tutora é muito diferente, é muito mais afetiva e é muito mais efetiva pra você pontuar as dificuldades, pontuar no que é que aquela pessoa precisa melhorar, ela acaba ouvindo de uma outra maneira, porque existe uma relação de confiança maior entre as partes. (agosto, 2014)
Neste depoimento, damo-nos conta de que a tutoria favorece o vínculo afetivo, importante para as relações de paz. Vemos em Jares que "certos
problemas de convivência têm sua origem na falta ou deficiência no desenvolvimento da afetividade" (JARES, 2007, p.176). E a liberdade de expressão, favorecida por esta relação, é importante para a convivência democrática. Assim continua Flora:
O relacionamento das crianças faz toda a diferença, o contato que elas têm com o grupo, a liberdade que elas têm de conversar, de expor as suas opiniões no momento em que elas desejam, isso faz enriquecer muito a aula. Você sai do foco, o professor sendo foco, estamos todos dentro da aprendizagem, as crianças também, elas são os principais agentes dessa aprendizagem. A relação de tutoria que existe aqui com as crianças é extremamente prazerosa, a relação com o seu grupo de tutoria, a sua liberdade de atuação com eles, de criatividade junto a eles é muito bom. (agosto, 2014, grifo nosso). Percebemos que o novo modelo de ensino tem repercussões muito claras na relação que se estabelece entre os membros da comunidade escolar. A professora Margarida endossa nossa observação. Ela coloca: "Então tem essa questão, dessa nova disposição dos alunos no espaço que gera do educador uma remodelagem, também, da sua maneira de se relacionar com o seu aluno, e com o conteúdo"(ago. 2014). Ela chegou a afirmar que, com a tutoria, as relações com os alunos se tornam mais próximas. Este novo modelo modifica, indiscutivelmente, a forma como as relações se dão e, segundo esta professora, a função do docente também muda.
O maior benefício é pensar a função docente como mediação, porque enquanto a gente tá no tradicional e quando a gente é o expositor de um conteúdo, a gente apresenta a nossa visão, a nossa concepção daquilo. Quando a gente faz essa mediação a gente tem um grupo de trabalho, em que cada um, ou quando é possível fazer essa conversa com os alunos, e que eles vão ouvindo e percebendo que “olha, ele chegou de um jeito naquele conteúdo de ciências, e eu não tinha pensado nisso, eu nem parei pra dar atenção a esse parágrafo no texto...” Então isso é que é encantador no projeto. (Margarida, agosto, 2014).
Pela fala destas professoras, percebemos que há uma relação mais horizontal entre professor/aluno, pois pelo próprio processo de ensino, estes são levados a ter uma atitude diferente em relação aos estudos e em sua relação com os professores e tutores. Entretanto, o novo papel que eles ocupam dentro desta metodologia ainda conta com a resistência de alguns professores, até mesmo porque, como afirmou Gardênia, eles foram formados de um 'jeito diferente'.
A seguir, apresentamos a visão dos professores sobre a participação dos alunos e este contexto de abertura que os permite se expressarem.