Para a Cultura de Paz, o conflito é natural e inevitável à existência humana (JARES, 2007,p.169/170). De acordo com Jares, não é possível separar convivência de conflito. O ponto de partida dos programas para a paz é a consideração deste fato. Conflitos e convivência estão, pois, associados. Segundo Jares,
um dos conceitos fundadores e centrais da Educação para a Paz é o conflito. A partir desta perspectiva, analisamos...nossas propostas de educação para a convivência, uma vez que não há convivência sem conflito e que, longe de negá-lo, o pressupomos como uma de suas características. (2007, p. 54).
Eles podem ser uma oportunidade de refletir sobre nossas percepções e emoções e podem se desenrolar em violência. A abordagem em relação ao
conflito é que esta o orienta para o acirramento e violência ou a resolução e restauração das relações humanas. Daí a importância de saber como enfrentá- los. Eles encerram, em si mesmos, a possibilidade de resolvê-los, na lógica de que a solução já está implícita no problema.
Conflitos dizem respeito a um modo peculiar de como as relações humanas acontecem. Relações harmoniosas acontecem, se houver um espaço amoroso em que haja possibilidade do ser de se realizar no sistema social do qual faz parte. Não é trivial, de modo algum, o meio sócio-cultural, no qual as crianças crescem aprendendo o emocionar de sua cultura.
Colocamos a criança numa escola e ela cresce de uma determinada maneira....Se a colocamos numa outra escola, ela cresce de outra maneira, com outras habilidades. Falamos em aprender mas, de fato, o que fazemos ao colocar uma criança num colégio é introduzi-la num certo âmbito de interações, no qual o curso de mudanças estruturais que se estão produzindo seja este e não aquele. De maneira que todos sabemos que viver de uma forma ou de outra, ir a um colégio ou outro não tem o mesmo resultado... (MATURANA, 2002a, p. 60). A escola, como meio social que é, cultiva um modo de vida em que as relações são mais abertas ou mais impositivas. Cada modo de convivência encerra em si uma maneira de como as relações humanas se realizam. No modo de convivência autoritário, por causa da repressão e negação, há sofrimento e possibilidade de os conflitos desdobrarem-se em atos violentos.
Acreditamos que o modo de convivência democrático acontece quando: 1) Há aceitação do outro junto a si e há a possibilidade de convivência de muitas configurações de mundo.
2) Quando há aceitação, numa situação de superação das diferenças. Há a suspensão do conflito, porque o desejo de estar junto leva a uma superação das diferenças. Mas esta aceitação do outro junto a si, sem compartilhar da mesma configuração de mundo, não acaba com a existência do conflito. Neste caso, não há validação de seu modo de configurar a realidade. Esta condição é, em si mesma, conflituosa.
A não-aceitação do modo como o outro configura a realidade pode levar a uma negação consciente e responsável. Mesmo assim, pode-se estabelecer uma abertura para escuta do outro. Nesta abertura, há a possibilidade de diálogo e de solução não violenta de conflitos. Esta possibilidade não existe
num modo de convivência autoritário, em que não há espaço para a contestação e para o diálogo.
Ao iniciar a pesquisa, pensamos que, com uma dinâmica de convivência em que há maior abertura para os alunos se expressarem, haveria menos conflitos. Isto não foi o observado, entretanto. Vimos esta afirmação sobre conflitos escrita por Jares, com a qual concordamos, após nossa convivência no ambiente escolar: "partimos do fato de que estes [conflitos] são inseparáveis da convivência, e muito especialmente da convivência democrática" (JARES, 2007, p. 160). De igual modo, o que pensamos inicialmente não coincidiu com o depoimento das professoras, como vemos nas falas a seguir:
conflito existe, que é próprio da idade, que é próprio do ser humano. Nesta escola ele aparece muito mais, não tenha dúvida disso, até por conta da dinâmica da própria escola, que eles podem falar, eles podem se expressar, eles se deslocam o tempo todo. Esses conflitos vão ficar muito mais aparentes e muito mais suscetíveis de aparecer. Porém, é muito melhor resolvido. Na escola tradicional o que é que acontece: o aluno tá fechado numa sala de aula com um professor que tá ali, dá a sua aula, sai, entra um outro, então eles tão sempre confinados naquele espaço, então tem muito menos tempo pro conflito aparecer e sei lá, estourar, digamos assim, e ele vai ficando confinado naquilo, então ele não tem lugar pra falar deste conflito, ele não tem lugar pra falar o que tá o afligindo naquele instante. (Gardênia, agosto, 2014. Grifo nosso)
Sobre este mesmo assunto, Rosa se expressa da seguinte maneira:
existem muitos conflitos, existem muitas divergências, mas a diferença é que eu acho que as divergências e os conflitos aqui
encontram um lugar pra serem problematizados. Então seja na
reunião de pais, de professores, seja nas conversas individuais que a professora tem com o aluno, esses conflitos, eles aparecem de uma forma muito aberta, então as coisas não são escondidas, então o conflito, ele tem um lugar também na escola, de tema de conversa, de tema de Roda de Conversa, então eu acho que com isso as pessoas se sentem mais tranquilas em relação a essa convivência. Uma escola que participa mais, as coisas aparecem mais, você tem que administrar mais. os conflitos que aparecem mais graves ou menos graves, (...) Mas todos os dias a gente tem problemas, todos os dias a gente tem conflitos, acho que isso faz parte...(Rosa, agosto, 2014, grifo nosso).
É bastante clara, nesta fala, a afirmação de que numa escola em que os alunos têm maior participação, os conflitos se tornam mais visíveis, e então a
escola tem que desenvolver mais a habilidade de resolvê-los. Ao perguntar sobre a incidência de conflitos, as respostas que auferimos nos levaram a crer que, em tal modo de convivência, não há, necessariamente, uma diminuição de conflitos, mas uma maior possibilidade de eles serem resolvidos positivamente, ou seja, sem se desdobrarem em violência.
Os conflitos se tornam mais aparentes, por causa da liberdade de expressão e de sentimentos, mas continuamos a acreditar que é provável que haja uma diminuição de problemas relacionais, uma vez que os direitos dos alunos são mais respeitados. As crianças e jovens desta escola têm uma validação maior, pela própria dinâmica da convivência, gerada pelo novo método de ensino/aprendizagem e pelo modo como as relações com os professores acontecem.
Muitas vezes, conflitos acontecem como expressões de agressividade dos educandos. Considerando assim, perguntamos à professora Flora qual a percepção dela sobre o nível de agressividade dos alunos da Amorim. Ela se expressa da seguinte forma:
eu acho que o aluno que é mais agressivo aqui, ele é agressivo também em outras escolas. Sempre existe alguém com quem você tenha que lidar... buscar novas maneiras de lidar, porque tem o emocional mais abalado e vai “explodir”, isso acontece em todas as escolas, não acho que por ser o Amorim tem mais abertura pra isso acontecer. (Flora, agosto, 2014).
Conflitos são próprios do humano, até mesmo por causa do processo perceptivo e, principalmente, pelas emoções que nem sempre são amorosas. A violência vem a ocorrer como um modo de resolver os conflitos, mas é possível fazer a opção pelo diálogo, pela mediação, pela paz. Com a pesquisa, chegamos à conclusão de que, se cultivarmos um modo de convivência democrático e tivermos a habilidade de resolver os conflitos de modo positivo, estes conflitos serão abordados, tendo em vista que se entendam e atendam às partes conflitantes. Deste modo, uma violência potencial desdobra-se de modo a restaurar as relações de paz.
O conflito pode ser abordado como uma oportunidade: oportunidade para dar-se conta do que falta, de tomar consciência dos problemas. Ele encerra em
si a solução, pois se houver uma reflexão sobre ele, vem mostrar o que está provocando a desarmonia relacional. Portanto, ao ter clareza quanto às dinâmicas de convivência, podemos lidar melhor com os conflitos construindo uma Educação para a Paz. Isto pode acontecer, ao cultivarmos o modo de vida democrático e condutas de aceitação e acolhimento. Dando-nos conta dos processos perceptivos, das emoções que guiam nossas ações, do espaço cultural que orienta o modo como aprendemos, podemos minimizar a incidência de conflitos e evitar a violência.