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De acordo com Portes (2012) e Thin (2006) é preciso considerar as famílias de camadas populares nas suas simbolizações e formas que estabelecem vínculos com o meio (social) em que vivem e suas formas de subsistência para além do seu isolamento urbano. O local de moradia para as famílias pesquisadas demonstra ter grande importância e representações em suas vidas, pois normalmente é lá que os jovens passam a maior parte do seu tempo. As famílias da Bocaina possuem fortes raízes com a localidade e laços afetivos que se construíram durante várias gerações por ser muitas vezes onde seus pais e avós viveram.

De acordo com os relatos, Bocaina é considerada pela maioria, como um lugar tranquilo para se criar os filhos, principalmente por possuir um contato com a natureza. Outras acham ruim pela falta de privacidade, característica de lugares pequenos. O maior problema identificado nesta localidade segundo relatos das mães dos estudantes é à distância em relação à suas casas dos centros comerciais, escola, bancos e recursos para a saúde, como demonstrado na fala de Rosana, mãe da jovem Poliane, e Geralda, mãe de Vitória.

Considero longe dos recursos, tudo muito demorado (Rosana, mãe de Poliane). (...) se você quiser não tem uma padaria, não tem uma mercearia, tudo tem que fazer fora, o posto às vezes tem um posto aí, mas costuma você marcar uma ficha, você leva lá 2, 3 semanas pra fazer uma consulta, então fica difícil, mas pra viver eu acho bom, eu acho (Geralda, mãe de Vitória)

Dona Iraci, avó de Raiara explica os motivos pelos quais gosta de morar em uma localidade afastada, para ela essa distância não atrapalha na escolarização da jovem, pois acredita ganhar no aspecto da qualidade de vida. Em sua fala transparece a sensação de que ter uma casa própria propicia à família segurança e proteção, como as autoras Nogueira e Nogueira (2007) afirmam, isso se remete a sensação de orgulho por morar ali.

Ah eu adoro. Aqui pra nós é tudo. Eu prefiro roça, eu não gosto de cidade não. Roça é tudo, aqui os menino fica livre, leve e solto. Na rua você tem que prender menino, aqui não, aqui graças a Deus, roça é, eu não troco roça por lugar nenhum, eu nasci aqui, vou morrer aqui mesmo. Eu nasci aqui, tenho que ficar aqui mesmo. Eu não

gosto não. Eu gosto é de roça. (...) Bastante né. Bastante.É da gente mesmo. Não é grande não, mas... Tem. Tem graças a Deus. (Iraci Avó de Raiara)

Mas Iraci fala também sobre os seus medos, conforme demonstrado abaixo:

Assim, que menino de roça tem aquela questão né, pra começar andar sozinha de ônibus primeiro tem que frequentar algum lugar com as colegas entendeu, agora ela já vai sozinha pra lá e pra cá entendeu. Também ela já tá com 16 anos também, se não andar sozinha também pode esquecer... (Iraci avó de Raiara)

Rosana, a mãe de Poliane, faz uma ligação da Bocaina com os seus ascendentes e sua história de vida. Porém, isso não a impede de destacar as dificuldades enfrentadas pela falta de recursos disponíveis:

Bom, aqui é, como diz, aqui é o lugar que a gente vive né. Foi criado e nascido e vivido. Só que aqui é ruim que não tem o recurso. Ó não tem, se você quiser não tem uma padaria, não tem uma mercearia, tudo tem que fazer fora, o posto às vezes tem um posto aí, mas costuma você marcar uma ficha, você leva lá 2, 3 semanas pra fazer uma consulta, então fica difícil, mas pra viver eu acho bom, eu acho. (Rosana mãe de Poliane)

Já a Mariane se confunde ao falar do seu gosto por morar no distrito. Comum sentimento ambíguo oscila entre o gostar e o não ter para onde ir. Segundo a irmã mais velha de Talita, ela ficou o tempo necessário em Bocaina por não ter motivos para sair e nem outro lugar para viver, agora a sua família tem motivos para se mudar devido à separação de seus pais. Com isso tornou-se necessário providenciar um novo local de moradia.

Ah, gostava né, não tinha outro lugar, agora tem, agora nós sai daqui. É que não tinha outro lugar, não tinha motivo pra sair daqui, agora tem. É. (Mariana, irmã de Talita),

Apenas a Ana mãe de Raissa não gosta de morar naBocaina, demonstra ter vivido traumas na região, mas não falou muito sobre eles. Ao mesmo tempo em que pensa em sair da localidade, apresenta medos e tem insegurança por não conhecer ninguém em outro lugar, ou seja, demonstra que morar em uma região pequena como Bocaina, pode ter os seus benefícios como a facilidade de acesso aos vizinhos e uma certa segurança por eles estarem lá.

Bom, eu pra mim eu não gosto daqui, se eu pudesse mudar daqui eu mudaria, mas normal né. Tem que viver né. Mas às vezes sair pra outro lugar é pior, você não conhece ninguém, não conhece nada então. É. Com certeza. (Ana, mãe de Raissa)

Por fim, Geralda mãe de Vitória, com poucas palavras afirma que gosta de viver na Bocaina, herança de sua tia, ela descreve a sua casa e a divisão dos cômodos. Iara possui um vínculo muito forte com a sua casa, pois é lá dentro que sua vida passa com as filhas de poucos amigos e doentes. Constroem a sua própria realidade em torno do que têm e não costumam sair da região onde moram. Sentem-se protegidas lá.

Gosto. Veio de herança. Você fala os cômodos? A sala, dois, dois não, três quartos, cozinha e banheiro. (Geralda, mãe de Vitória).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa foi motivada pelo desejo de conhecer melhor como os pais lidam com o processo de escolarização de seus filhos, moradores de Bocaina, uma pequena localidade próxima à Ouro Preto. Seu objetivo principal foi o de investigar quais são os esforços familiares adotadas pelas famílias do distrito para manter seus filhos na escola, mesmo diante de tantas dificuldades, como a distância da escola e o acesso restrito a bens públicos, como unidades de saúde, escolas e bibliotecas.

Através dos objetivos específicos, foi possível conhecer o perfil das famílias pesquisadas e qual a relevância da escola para os pais, além das suas dificuldades e lutas diárias.

Para a realização da pesquisa, apliquei 134 questionários aos jovens que frequentavam em 2015 o 1º ano do ensino médio em Cachoeira do Campo no período diurno. A partir dos questionários, selecionei cinco famílias desses jovens moradores da Bocaina para entrevista. Com base nos objetivos propostos, as entrevistas foram realizadas a partir de três eixos: a) Esforços familiares no processo de escolarização dos filhos; b) A importância da escola para a família e c) A representação do local de moradia para essas famílias.

Com o fim de compreender os esforços e práticas de escolarização empreendidas pelas famílias moradoras da Bocaina se fez necessário perpassar pela trajetória educacional de seus ascendentes e conhecer a base familiar desses jovens. Para isso, foi preciso recorrer à literatura a respeito das relações entre a família e a escola.

Para os jovens da localidade de Bocaina alcançarem a longevidade escolar precisam se deslocar da região, pois ali possuem poucas oportunidades de trabalho e escolares. Isso me levou a refletir a partir dos resultados da pesquisa, que cada família participa da construção do sucesso escolar dos filhos de forma diferenciada, sendo que nem todas desenvolvem práticas especificas de escolarização que vão além de manter os seus filhos na escola. Nem sempre essas práticas são visíveis, mas apesar de todas as dificuldades enfrentadas, os jovens participantes da pesquisa já alcançaram a longevidade escolar se comparados com seus ascendentes. Podemos analisar também, através dos dados de escolarização dos pais, que assim como no âmbito nacional, a dificuldade de escolarização no meio rural a partir da segunda etapa do ensino fundamental é difícil para essas famílias, tendo em vista que necessitam se

deslocar da região em que moram para dar continuidade aos estudos e muitas vezes esses esforços são limitados devido as necessidades de trabalhar e se sustentar.

Sabemos também que dessas famílias de camadas populares não se pode esperar as mesmas práticas e ações empreendidas pelas famílias de camadas médias educógenas devido aos recursos econômicos e culturais necessários para isso. Para essas famílias a escolarização é importante, mas tem igual ou maior grau de importância para os entrevistados a proteção dos jovens dos distritos do que chamam de perigos da rua, como as drogas, a violência, o mau comportamento, etc. É notória a proteção simbólica do corpo e também a presença da Religiosidade nas falas dos responsáveis pelos jovens, principalmente na família de Iraci e Geralda.

A casa desses jovens é considerada em muitas vezes, como um santuário. Foi possível perceber também na pesquisa a importância da religião para a Dona Iraci, quando relata que o “filho se salvou” dentre os outros, pelo fato de estar no seminário estudando para ser Padre, sendo que ela possui outros filhos escolarizados e graduados na universidade.

Uma das motivações familiares observadas na pesquisa para manter os jovens na escola parece ser a necessidade de prepará-los para o mundo do trabalho remunerado, como uma forma de garantir o seu próprio sustento no futuro.

Não é uma tarefa fácil refletir sobre os esforços educacionais dos pais que trabalham e raramente estão em casa. Conhecendo a rotina dessas mulheres moradoras da Bocaina, é impossível afirmar que as famílias entrevistadas participam pouco da educação dos seus filhos, ou ainda que as mães menos escolarizadas e que não trabalham não transmitem capital cultural aos mesmos.

O que podemos concluir a partir da pesquisa de campo e da literatura consultada é que existem mobilizações familiares diferentes, e que através delas, os jovens podem alcançar estilos de sucessos diferentes. Podemos observar que a escola não ocupa lugar central na vida dessas famílias e que não existem práticas específicas que garantam o sucesso escolar de seus filhos. O lugar de moradia muitas vezes pode influenciar nessas centralidades, pois sabemos, que a intenção familiar e os projetos para os filhos são normalmente construídos a partir das oportunidades que surgem e das projeções familiares. Por isso, as práticas educativas dessas famílias são realizadas de acordo com o alcance financeiro e cultural das mesmas.

Percebe-se aí o forte desejo das mulheres ouvidas nessa pesquisa em realizar o sucesso escolar das filhas, neta ou irmã, como uma forma de vencer as dificuldades. O que não foi possível em suas vidas. Por isso, a longevidade escolar para as famílias de Bocaina está

associada a uma história de superação. Oriundas do meio rural e moradoras antigas do distrito, as cinco famílias pesquisadas possuem baixo capital escolar e econômico, e o mesmo ocorreu com seus pais e avós. As profissões dos (das) chefes dessas famílias se caracterizam por ocupações de pouco prestigio e remuneração, sendo que muitos (as) deles (as) encontram-se desempregados (as).

Para as famílias de camadas populares, uma grande dificuldade enfrentada é a falta de tempo para acompanhar os filhos nas tarefas escolares e de atender às suas necessidades básicas. Em muitos casos as fragilidades e rupturas vividas no interior dessas famílias, seja nos casos de viuvez, separação, reconstituição familiar, ou ainda, de doenças graves, podem, de alguma forma, fragilizar a escolaridade e afetar a longevidade escolar.

A trajetória educacional dos pais, avós e tios dos jovens pesquisados, foram marcadas pela precariedade de acesso aos bens públicos, culturais e de lazer. As mulheres entrevistadas relatam que as dificuldades vivenciadas hoje, principalmente em relação à escolarização dos filhos, estão muito distantes daquelas vividas há poucas décadas, pois são notáveis os avanços dos serviços públicos e privados no local, como a disposição do transporte público e do transporte escolar, telefone e televisão. Para as entrevistadas, hoje as informações são melhor difundidas, porém, sentem falta do acesso à internet, ainda mais os jovens.

Outro aspecto relevante que deve ser pontuado é a localização da moradia que muitas vezes também podem influenciar nas relações sociais, mobilidade e acessibilidade, devido às dificuldades estruturais, econômicas ou sociais.

No processo de transição escolar, observei que a mudança de espaço escolar para esses estudantes foi uma dificuldade marcante em suas vidas, pois nesta etapa iniciou-se uma nova rede de relações em um lugar desconhecido, que requer uma redistribuição de horários e maior atenção dos familiares.

Foram identificados os medos das mães em relação a este processo de transição, pois ao mudar de escola, os jovens ficaram mais distantes de casa e fora dos olhares dos pais. Para a maioria deles, ir para Cachoeira do Campo se caracterizou como o primeiro momento longe da proteção do local de moradia e do conforto de casa. Nesse período a possibilidade de desvios de conduta e envolvimento com drogas e com a criminalidade se torna a maior preocupação dos pais.

A rede de interdependência entre a família e a escola foi reconhecida por todas as depoentes, porém as formas de como essas famílias se organizam é bem diferente da escola,

com a presença de muitas contradições entre a logica escolar e a familiar. Com base nisto, acredito que as instituições família e escola devem trabalhar juntas para garantir o sucesso escolar dos jovens que vivem em outras realidades, como as provenientes de camadas populares, a fim de minimizar os impactos das desigualdades escolares, sociais e culturais.

Certa de que existem variações internas no mesmo grupo social, esses jovens apresentam diferenciações singulares no interior de cada família, sendo assim, independentemente da situação econômica dessas famílias, percebeu-se a mobilização dos pais, irmã e avó quanto a importância da escola para a vida de seus filhos e a presença do diálogo foi muito ressalta danos depoimentos como uma estratégia para fortalecer o vínculo com os estudos, demonstrando a importância do diploma para o futuro dos jovens.

Pode-se concluir, portanto, que os objetivos dessa pesquisa foram atingidos e espera-se que esse estudo tenha contribuído para a compreensão das práticas familiares que propiciam a longevidade escolar das camadas populares, principalmente no caso de famílias que vivem fora dos centros urbanos, de modo a ampliar os conhecimentos e a literatura sobre a temática dentro da perspectiva da Sociologia da Educação e da Sociologia da Família.

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