5.4 Ps. 139:13-18: God as creator, and the will of God
5.4.1 Ps. 139: 13: Created in my mother’s womb
Consideramos, inicialmente, pertinente destacar que, ao empregarmos o termo “vulnerabilidade social”, apoiamo-nos na noção apresentada por Busso (2001), ao entender a vulnerabilidade como a combinação da fragilidade ou ausência de vários fatores, tanto internos como externos, que afligem um indivíduo, o lugar onde mora, a sua comunidade, fazendo com que o sujeito esteja desprovido de condições dignas de sobrevivência e sem proteção social em
vários setores da vida, como, por exemplo, saúde, educação, moradia. Essa falta das condições básicas expõe o cidadão ao desamparo, afetando sua qualidade de vida em todas as dimensões da dignidade humana. Desse modo, como lembra Garapon (1996), o conceito de vulnerabilidade não se limita a uma questão de situação social, mas envolve o contexto das interações sociais estabelecidas pelo sujeito tanto nos espaços públicos quanto privados.
Cabe lembrar, também, que os estudos relativos ao fenômeno da pobreza de uma forma mais abrangente, ou seja, ampliando as reflexões para o debate dos vários tipos de faltas, ausências e desvantagens sociais e, deste modo, agregando o repertório da vulnerabilidade, são recentes. Os primeiros trabalhos ancorados na perspectiva da vulnerabilidade como um instrumento significativo e potente para estudar a realidade dos pobres para além da ausência de renda foram desenvolvidos motivados pela preocupação de abordar de forma mais integral e completa não somente o fenômeno da pobreza, mas também as diversas modalidades de desvantagem social dos autores (FILGUEIRA, 2001; MOSER, 1999).
Portanto, o fato de os sujeitos desta pesquisa morarem na cidade do Sol Nascente25,
localizada na Região Administrativa de Ceilândia, com alto grau de vulnerabilidade social, considerada a maior favela da América Latina e que, de certa forma, fica longe da escola, pois precisam recorrer ao transporte público, que é precário, traz, no mínimo, muito desconforto, e, mesmo morando em um lugar com graves questões sociais, onde a maioria desses estudantes tem casos na família de problemas com roubos, uso de drogas e prisão, eles fazem questão de explicitar que são pessoas felizes e “do bem”.
Se partilharmos da ideia de que “o adolescente é um sintoma da cultura”, como afirma Evangelista (2018, p. 31), podemos entender, dialogando com esse autor, que o estudante que
25 “Com 78.912 habitantes, as localidades de Pôr do Sol e Sol Nascente na Região Administrativa de Ceilândia
apresentaram crescimento de 7,6% desde 2011 e possuem população predominante jovem, com 30% de crianças e apenas 4,8% de idosos. Com o novo número, o Distrito Federal passa a ter a maior favela do país. Os dois condomínios estão à frente da famosa Rocinha, no Rio de Janeiro, que conta com 69.161 habitantes.
De criação recente, os setores tiveram seus dados desagregados da RA de Ceilândia pela Codeplan, que divulgou hoje Indicadores Socioeconômicos apontando necessidades de infraestrutura básica e equipamentos sociais. As duas localidades […] registram os piores indicadores ‘não de renda, mas de infraestrutura’, destacou o presidente da Codeplan […]. Somente 6,1% dos 20.686 domicílios são ligados à rede de esgotos e 54,15% não têm acesso à coleta de lixo. A renda domiciliar média é de R$ 1.833, […]. A predominância de domicílios (79,56%) é de renda entre um e cinco salários mínimos mensais, sendo que a maioria está empregada no setor de comércio, a maioria na própria Ceilândia. […] Quanto à região de procedência, 76,12% dos moradores são da própria Ceilândia, seguidos de Taguatinga, com 8,9%, e Samambaia 4,05%. No nível de escolaridade, predomina o ensino fundamental incompleto (45,15%). Houve leve acréscimo de pessoas com ensino superior completo, incluindo especialização, mestrado e doutorado, passando de 1,42%, em 2011, para 1,79%, em 2013. Do total de estudantes da localidade, 89,69% utilizam as escolas da Ceilândia, seguido de Taguatinga com 6,88%. No Pôr do Sol e Sol Nascente, 79,94% dos domicílios são próprios em terrenos não regularizados e 15,22% são alugados.”
Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/cidades/sol-nascente-se-torna-a-maior-favela-da-america- latina/. Acesso em: 30 jul. 2019.
vive na vulnerabilidade social de alguma maneira interrompe, interdita o laço social com a aprendizagem pela via da reprovação escolar. Estes trechos das narrativas de vida nos provocam a realizarmos reflexões nessa direção:
RGPA, 16 anos, 8º ano – Eu não gosto do jeito que a direção me trata.
[…] sou do Sol nascente […] meu irmão ele tem problema e meche com coisa inadequada e os outros são ‘diboa’ e chego ainda bem cedo mais chego atrasado na escola… paço na direção… assim não tenho emoções nem alegrias aqui na escola… não quero falar… já pensei em parar de estudar por coisas pessoais. Reprovei só no 7º ano o motivo não sei… se eu não estudar eu reprovo e no futuro me atinge que significa que eles tem que passar o conteúdo pra mim aprender… Teve uma vezes que teve uma reunião aqui e minha mãe veio e ouviu umas coisas ai depois falando pra mim e pra direção e o Diretor falou que ia me enviar pro conselho tutelar porque minha mãe não tinha assinado mas ela assinou o Diretor fica de perseguição comigo.
JV, 14 anos, 8º ano – moro no sol nascente. Eu sou legal, as vezes triste, sofro com
muito bullying pelo fato de morar no Sol nascente. Não gosto da escola nem um pouco pelo fato de ser toxica professores não ligam para seu psicológico, não tenho muitas as amizades sempre brigo com alguém, não consigo pensar no meu futuro sempre fico com preguiça, tenho muita ansiedade as vezes morro de ânsia não consigo segurar as tensões e tomo remédio controlado a querida ‘ritalina’ fico com medo de tomar toda a vida, penso me matar todos os dias mais tenho medo da minha mãe sofrer demais, e não conseguir seguir a vida, reprovei por causa do DAH e fiquei com trauma de reprova de novo.
DJ, 15 anos, 8º ano – Uma coisa que aconteceu na minha família foi quando meu
irmão nasceu o nome dele é J.P nos ficamos muito alegre mas quando ele foi crescendo, nos discubriu que ele tinha só um pulmão. E o coração do lado direito, ele é o único bebe que tem o coração do lado direito e por causa disso nossa família esta sofrendo… as coisas la em casa ta muito difícil porque meu pai separou da minha mãe e deixou nois sozinhos eu e meus irmãos e hoje em dia nos não tem nada pra comer e hoje eu to morrendo de fome agora.
Os sujeitos adolescentes deixaram escapar, ainda, em suas narrativas de vida escritas, quando trouxeram à tona as lembranças advindas das reprovações vividas na escola, que frequentemente, mesmo talvez pela via do inconsciente, chamaram para si a responsabilidade da reprovação escolar. As análises indicam que esses estudantes se confrontam com obstáculos ao acionarem as lembranças e trazerem para os escritos das narrativas de vida recordações que podem representar, conforme Freud (1915), sinais de processos somáticos, a partir dos quais o psíquico pode mais uma vez advir. É possível entender que a lembrança potencial é um evidente resto de um processo psíquico.
7.1.3 Subeixo: A autorresponsabilização do sujeito adolescente pela reprovação escolar
Nesse exercício desafiador entre o adolescer, constituir-se estudante e lidar com a realidade da reprovação escolar, comparece um ego que é “primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma
superfície” (FREUD, 1923, p. 39). No entanto, age pelo princípio da realidade e, em meio a um movimento em parte consciente, e em parte inconsciente, esse adolescente toma para si a responsabilidade pela realidade da repetência escolar. Neste terceiro subeixo foram recorrentes nas narrativas escritos com estes pensionamentos:
FA, 15 anos, do 8º ano – Já reprovei 2 vezes, porque eu não queria nada com nada. MCXNL, 13 anos, 8º ano – repeti o 7º uma vez, eu não fazia nada.
VA, 15 anos, 9º ano – não gosto de ir para escola… reprovei o sétimo ano porque na
época não fazia nada.
EMMO, 15 anos, 8º ano – Eu reprovei porque eu xingava muito e na escola classe,
xingar era uma coisa muito vergonhosa e pesada. Eu também reprovei o sexto ano quando eu passei para o CEF 02 de Ceilândia, quando em reprovei o sexto ano eu fiquei muito triste, mas me recuperei dessa tristeza.
GGF, 16 anos, 8º ano – só fui reprovado por causa de aprontar na escola, mas dessa
vez tô me dedicando para passar de ano.
HD, 15 anos, 8º ano – Eu repeti três vezes, uma o 4º ano e duas o 8º ano porque eu
não me esforcei.
VFSSA, 16 anos, 9º ano – Um momento trágico comigo foi quando eu tinha acabado
de entrar na escola, quando eu tinha uma semana só nessa escola e eu acabei brigando aqui na escola acabei que tenho uma rixa com esse menino até hoje. Eu reprovei no 7º duas vezes a primeira vez foi porque eu me desinteressei dos estudos e a segunda foi porque eu fiquei muito triste minha avó morreu.
Nesses fragmentos de narrativas de vida, observamos, também, o quanto a subjetividade de cada um é tecida, embrenhada, desde sempre, pelos rastros dos outros sujeitos que comparecem de forma inconsciente quando narram suas experiências escolares. Afinal, como bem expõe Pereira (2012), desde o nascimento, o sujeito humano, diferentemente dos animais que se guiam pelo instinto biológico natural, precisa do outro para arrumar suas pulsões. Nesse ínterim, a cultura entra em cena para dialogar e solicitar a participação desse humano, no entanto, o preço a ser pago é a sua interdição de gozar plenamente das satisfações pulsionais. Em consequência, estabelece a formação da estrutura psíquica que, até a invenção da Psicanálise, discutida nesta tese no bojo de sua faceta heurística, e não terapêutica, não passava de uma casca enigmática do ser.
7.1.4 Subeixo: A corresponsabilização do outro na reprovação escolar
Foi possível perceber este quarto subeixo quando os estudantes trouxeram à tona suas lembranças de escolarização e, ao escrevê-las, delataram as “trajetórias e experiências do itinerário escolar, sendo marcadas por aspectos históricos e desencadeando um contínuo
subjetivo frente as reflexões e análises construídas por cada sujeito sobre o ato de lembrar, narrar e escrever sobre si” (SOUZA, 2004, p. 125). Permite, assim, que esses adolescentes, ao se reportarem às suas experiências de reprovação, além de se responsabilizarem por isso, como fizeram os estudantes citados anteriormente, também revelaram outros aos quais eles, talvez inconscientemente, deixaram escapar uma certa corresponsabilidade por suas rupturas de escolarização, como consta nestes trechos de três narrativas de vida escritas:
PRRF, 15 anos, 8º ano – foi a pior coisa que eu fiz na minha vida, reprovei 2 vezes,
uma na 6º e uma no 7º, reprovei acho que foi mais por amizades erradas, amizades que só me afundavam, me levaram para o fundo do poço, pra mim nem existia escola, mais escola é uma coisa fundamental para qualquer pessoa, uma coisa que ninguém tira de você, os professores tem alguns que são legais outros que são muito irritantes, que parece que tem marcação.
KGSS, 15 anos, 8º ano – reprovei uma vez… repeti um ano o motivo da minha
reprovação foi amizade falsa, com essa amizade eu fumei, bebi e quase matei uma pessoa mais ai eu encontrei um amigo de verdade ele e eu já não andava mais com aquelas amizades, ele ‘tava’ quase entrando nesse caminho quando uma pessoa que conheci a sua família disse pra não anda com aquelas pessoas ai a gente começou a conversa e viramos amigos também somos amigos da professora que ajudou a tirar ele do caminho.
HD, 15 anos, 8º ano – Minha vida escolar era boa tinha muito amigo.
Eu estudava no José Teixeira na Bahia. A professora era chata…
Nos dados coletados, foi possível perceber, também, que “o adolescente, […] apresenta intensa carga de mecanismos de defesa primitivos, próprios do processo de identificação, que invadem o seu ego e interferem em suas funções cognitivas” (LEVISKY, 1998, p. 137). Neste sentido recorremos, também, aos estudos de Corso (2006, p. 214):
[…] seria melhor para todos se os jovens não perdessem tempo com seus equívocos, caso se convence de entrada que não há outro jeito, que o mau caminho é atraente à curto prazo, mas oneroso a longo prazo. Se os jovens não desperdiçassem tempo com amizades, aparentemente pouco construtivas, amores impossíveis, divertimentos inúteis e fazendo resistência ao inevitável caminho do esforço, daria menos trabalho ao seu mundo e tornaria-se adultos robóticos, obedientes e trabalhadores mais rapidamente. Mas é dos desvios, do desperdício e da contestação que provém a riqueza cultural de nossa espécie.