A) Acolhimento
Com todos sentados em círculo, o pesquisador tomou a palavra e falou da qualidade das obras apresentadas, as quais representavam a poética artística pessoal de cada participante. Deixou claro que aquelas criações foram desdobramentos da poética artística pessoal, e essa é uma modalidade que se origina da subjetividade daquele que se propõe a produzir Arte. Na sequência, discorreu sobre duas modalidades da expressão artística: i) a criação de inspiração subjetiva, quando se origina da natureza pessoal e existencial do sujeito que produz Arte (universo interno), e ii) a criação cujo estímulo gerador tem inspiração vinda do contexto sociocultural e político (universo externo).
Na criação de base subjetiva, a poética se dá de dentro para fora; na de inspiração do contexto sociocultural e político, expressa-se de fora para dentro. A criação poética pode ser representada com as mais distintas das linguagens contemporâneas já mencionadas nos
encontros anteriores. Após transmitir essas informações, o investigador confirmou que naquele encontro seria dado início a outra forma de lidar com experimentos artísticos e estéticos, que consistia em produzir a partir da reflexão de um tema do contexto político e social da profissão dos participantes. No caso, com base nesta temática: O que é ser professor de Artes Visuais na escola pública? O pesquisador informou que, na etapa seguinte, eles realizariam uma ampla sensibilização sobre o tema, de modo que, em seguida, cada um realizasse a produção de sua obra artística.
B) Atividade de sensibilização
Os participantes foram convidados a participar de um jogo, no qual deveriam estar dispostos em círculo, de pé e de mãos dadas. Na sequência, foi sugerido que soltassem as mãos e permanecessem no círculo. O jogo teria como foco o questionamento: O que é ser professor de Artes Visuais na escola pública? As regras do jogo estão postas a seguir.
Primeira regra: com um balão cheio (de ar), os participantes deverão passá-lo de mão em mão, no sentido anti-horário, de modo que todos tenham a oportunidade de segurá-lo. Quando de posse do balão e segurando-o em suas mãos, cada um atribuirá um nome relacionado com o tema foco do jogo.
Como resultado da primeira etapa, os vocábulos que emergiram foram: “balão ambulante” (P10), “balão de reflexões” (P3), “balão de conhecimentos” (P12), “alegria de menino” (P8), “soco de luz” (P2), “bola do experimento” (P1), “balão do novo olhar” (P5), “lâmpada de ideias” (P4), “bola de realizações” (P9), “ponto de concentrações” (P6), “conjunto de experimentos” (P11) e “balão do descobrimento” (P7).
Segunda regra: o balão circulará de mão em mão no sentido anti-horário (da esquerda para a direita), a entrega será acompanhada de uma senha: Fulano(a) (nome do(a) colega que receberá), este é: nome atribuído ao balão na primeira regra.
No círculo, de posse do balão, cada jogador o passou para a pessoa que estava à sua direita, dizendo: Fulano (nome do(a) colega), este é: nome atribuído ao balão. Como exemplo, pode-se trazer à baila este excerto: “P2, este é um conjunto de experimentos.” (P11). O balão só podia ser passado de um indivíduo a outro quando aquele que o estava recebendo dizia, antes de passar a bexiga: o nome de quem estava recebendo e o nome que ele (o entregador) havia atribuído ao balão que estava entregando ao colega. Na proporção em que o jogo se desenvolveu, foram inseridos vários balões no círculo. As bexigas circulavam simultaneamente, acelerando o movimento do grupo. Cada um dos balões passou de mão
em mão, fazendo a volta completa e se repetindo. O ritmo com o qual eram passadas as bexigas era ditado pelo pesquisador, que batia as palmas das mãos ora em cadência acelerada, ora lenta.
Para deixar o jogo mais divertido, foi sugerido que todos saíssem do círculo e começassem a andar aleatoriamente pela sala, ao som da música “Meia lua inteira”, de Caetano Veloso. Quando o pesquisador pausasse a música, o grupo continuaria passando os balões para os mesmos colegas que estavam à sua direita anteriormente no círculo (na mesma ordem), só que agora cada um se encontrava fora do círculo e apenas a metade do grupo estava com balões. Agora não era mais preciso atribuir um nome à bexiga, mas sim entregá-la dizendo o nome em voz alta de quem estava recebendo o balão.
O jogo continuou nessa nova configuração, provocando mais movimentos e, naturalmente, mais agitação. Quando os sujeitos já estavam bem exaustos, foi dado o sinal de parar. Então, pesquisador e participantes sentaram no chão, suados, cansados e com uma boa energia vinda da agitação da música, dos gritos dos movimentos. Após breve descanso, os participantes foram convidados a sentar em suas carteiras.
C) Experimentação artística e estética
Os sujeitos, já sensibilizados e mergulhados no foco do jogo, sentados nas carteiras dispostas em círculo, receberam várias tarjas de papel branco 80k, tamanho 6,5cm x 21cm, marcadores para quadro branco coloridos e fita crepe. Objetivando um contato mais estreito com o tema – O que é ser professor de Artes Visuais na escola pública? –, foi sugerido que cada um imaginasse três palavras-chave a respeito do assunto, escrevesse nas tarjas de papel e as colocasse aleatoriamente no chão, no centro do círculo. Cada indivíduo, à sua vez, deveria explicar por que optou por aqueles vocábulos.
No centro da sala, ficaram dispostos as palavras: ousado, criatividade (2), orientador, dinâmico, mediador, criativo, apoiador, deslumbrador, paixão (2), contagiante vontade, dedicação, prudência, perseverar, paciência, dedicação, necessário, pesquisador, conhecimento, aluno, aprendizagem, aprendizado, desafiador (2), dificuldade, frustrante, experimental, competência, disciplina, gratificante, sensibilidade, prazeroso. O número ao lado de alguns vocábulos representa a quantidade de repetições.
Pediu-se que os sujeitos observassem todo o rol de termos e, em seguida, agrupassem as tarjas, formando subgrupos de vocábulos. Numa produção coletiva, mergulharam no mundo das palavras e as reagruparam em nove subgrupos.
Figura 18 – O que é ser professor de Artes Visuais na escola pública: configuração 1
Fonte: Acervo do pesquisador (2015).
Figura 19 – O que é ser professor de Artes Visuais na escola pública: configuração 2
Fonte: Acervo do pesquisador (2015).
Figura 20 – O que é ser professor de Artes Visuais na escola pública: configuração 3
Fonte: Acervo do pesquisador (2015).
Os participantes conversaram muito entre si, apresentaram opiniões convergentes e divergentes para finalmente chegarem a um consenso, com um resultado feito em agrupamentos de palavras. Explicitaram que cada subgrupo estava representado
com termos afins, os quais representavam para o grupo o que era ser um professor de Artes Visuais de escola pública.
D) Transposição de linguagem
Nesse momento, após reflexões e introspecção pertinentes ao que é ser docente de Artes Visuais na escola pública, foi possível perceber que os participantes estavam muito inquietos e dispostos a conversar sobre o assunto, até porque era uma temática que diretamente os afetava. No entanto, apesar do interesse em debater o tema, em função do quase esgotamento do tempo do encontro, o pesquisador sugeriu que cada um fizesse uma transposição de suas ideias e expressasse em palavras e/ou frases curtas. Para isso, deveriam levar em conta dois questionamentos.
Primeira questão: O que é ser professor de Artes Visuais?
− É necessário ser contagiante, prazeroso; − É ter responsabilidade, prudência, criatividade; − Dedicação, vontade e paciência;
− É frustrante, traz desafios e aprendizado; − É ser criativo, perseverante, desafiador; − É gratificante, experimentador; − É se realizar mesmo com dificuldades; − É ter disciplina, conhecimento e competência; − É ter paixão pelo que faz;
− É ser pesquisador, ousado e deslumbrador; − É ser orientador, mediador de conhecimentos; − Ser professor de Artes é ser aluno;
− É aprender a ser inventor;
− Não é, necessariamente, criar o nunca criado, mas acrescentar no já feito, transformar o já existente. (ELABORAÇÃO COLETIVA).
Segunda questão: Como me sinto sendo professor de Artes Visuais?
− Sinto-me realizada, mas não sou reconhecida;
− Sinto-me frustrada por causa da falta de respeito e apoio da família; − Sinto-me feliz;
− Tenho prazer, embora não tenha espaço adequado;
− Sinto-me bem, a motivação vem com os eventos de Artes, pois compartilhamos conhecimentos;
− Sinto-me cheio de expectativas para mudanças; − Sinto-me importante, diferente;
− Sinto-me realizado e feliz;
− Feliz, pois o interesse da maioria dos meus alunos é querer mostrar o potencial e não se apegam às notas.
− Feliz, pois a Arte provoca sensações, boas ou ruins, mas provoca. Tira a pessoa do pensamento cômodo.
O fechamento desse encontro foi efetivado com uma transposição de linguagem em ritmo de avaliação dialógica e reflexiva. Ao final, como atividade extra da formação, foi sugerido que cada um produzisse uma obra a partir das reflexões vivenciadas. Essas criações deveriam ser levadas, concluídas ou inacabadas, para o encontro seguinte.
5.3.5 Décimo encontro/formação
A) Acolhimento
Com os participantes sentados nas carteiras dispostas em círculo, o pesquisador informou-lhes que o objetivo do encontro seria a apresentação da produção artística deles. Como havia três participantes que, por motivos justificáveis, ainda não tinham identificado sua poética artística, o acolhimento seria essa atividade. Desse modo, sugeriu-se que os membros que já tivessem passado pela experiência de identificação de sua própria poética artística se dividissem em três grupos, os quais deveriam ser compostos com base nas experiências vividas de seus elementos (de identificação da poética artística pessoal), com apoio do pesquisador, faria a mediação para a identificação da poética artística pessoal.
Cada grupo foi constituído com quatro componentes (de posse da experiência de identificação da poética artística) e o participante que iria viver o processo mediado pelos colegas, com a ajuda do pesquisador. Cada um dos três grupos, na sua vez, mediou o processo, enquanto os demais se posicionaram na condição de observadores. E assim os participantes mostraram que compreenderam o recurso metodológico já experienciado e, de fato, realizaram uma mediação com resultados bem coerentes.
B) Atividade de sensibilização
A fusão entre a atividade de sensibilização e a experimentação artística e estética se pautou na fruição de uma “mostra” dos trabalhos organizada pelo próprio grupo. Os indivíduos reuniram todas as obras produzidas no primeiro laboratório, com os trabalhos oriundos da poética artística pessoal, e no segundo laboratório, com os trabalhos inspirados por fatos socioculturais e políticos. Cada um mostrou e falou de suas obras, evidenciando os pontos importantes em suas experiências vividas no processo até chegar ao resultado final.