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5.2.1 Histeria e Neurastenia no Homem

Este homem é um ferroviário. Tem 38 anos e, como os senhores podem observar, é um homem vigoroso. Ocupa uma função quase sedentária, é um guarda-freios. Os senhores podem ver o que ele faz: vigia, frequentemente à noite. Deve estar sempre atento para evitar colisões. É muito grave quando alguém, com uma responsabilidade dessas, se engana. É preciso não se enganar. E se sentimos uma certa predisposição nervosa, melhor seria não ser guarda-freios e não ter antecedentes como os dele.

Em patologia nervosa, deve-se considerar primeiro, as formas especiais que se poderia chamar espécies. Houve um mestre, Piorry, que considerava a palavra espécie detestável porque, para ele, empregá-la em casos semelhantes significava fazer ontologia. Havia, segundo ele, apenas estados organopatológicos.

Quando vejo um processo mórbido se produzir no corpo humano sob a ação de um vírus variólico, a doença sempre se comporta da mesma maneira. Há, definitivamente, uma originalidade particular, uma unidade, que torna a doença passível de ser chamada espécie, sem que, por isso, se faça um paralogismo. Pois bem, todas as doenças estão basicamente sob essas condições, o que é bom, pois se não houvesse espécies mórbidas, não faríamos muitos diagnósticos. Graças a isso, não patinamos demasiadamente na clínica.

Há espécies simples e espécies compostas ou sobretudo, combinações de espécies. À primeira vista, isso parece muito simples, mas decididamente sempre pensamos assim, e podemos crer que se trata de uma doença nova, quando é apenas uma combinação de duas afecções distintas.

Eis um doente que é a um só tempo neurastênico e histérico. Considero muito importante que os senhores o conheçam, pois escutarão certos autores dizerem que os neurastênicos têm estreitamento do campo visual e anestesia. Não acredito nisso. Doentes como este, apresentam estreitamento do campo visual porque são ao mesmo tempo histéricos e

neurastênicos. Em geral, contudo, essas duas doenças são completamente independentes, ainda que se combinem.

Da neurastenia deste doente resulta a perda das funções sexuais, iniciadas por um priapismo sem idéias de volúpia que já duram muitos meses. O segundo fenômeno neurastênico é de ordem particular e composto por um capacete envolvendo toda a sua cabeça, acompanhado de uma sensação de pesadume. Quando a doença alcança o ápice de sua intensidade, a cabeça aparenta estar absolutamente vazia, a memória desaparece, e todo o trabalho intelectual torna-se impossível.

A famosa dispepsia é outro fenômeno frequentemente apresentado pelos neurastênicos, levando os clínicos a acreditar que todas as desordens neurastênicas têm como ponto de partida as afecções gástricas. Na verdade ocorre o oposto: a neurastenia se manifesta e a afecção do estômago completa o quadro.

Ao caminhar, este doente manifesta mais um fenômeno característico da neurastenia: é permanentemente arrastado para a esquerda (vertigem de translação).

Por fim, sua afecção reúne um elemento psíquico frequentemente ligado aos fenômenos neurastênicos: tem medo de tudo, em especial de ficar sozinho.

Afirmo que ele é histérico. Em primeiro lugar, apresenta um enfraquecimento da força dinamométrica extremamente pronunciado. No dinamômetro, sua mão esquerda alcança apenas cinqüenta e a direita, sessenta. Convenhamos que para um homem de seu porte, isso é muito pouco. Do lado esquerdo, aliás, há uma hemianalgesia inteiramente comparável à das histéricas. O testículo esquerdo é mais sensível que o direito. Ele é um testicular, por oposição à histérica ovariana.

Devo responder a um médico de Nova Iorque que me acusa de ser a causa das mais espantosas desordens por ter dito que as histéricas sofriam dos ovários.

Segundo ele, vários cirurgiões se puseram a retirar ovários para curar a histeria.

Seria um horror da desolação. Jamais disse semelhante parvoíce. Esse colega se engana sobre meu estado mental. Disse que havia histéricas

ovarianas porque tenho certeza desse fato. Jamais afirmei que os ovários eram a causa da histeria.

Mostrei que, quando as histéricas são ovarianas, interrompemos os acessos exercendo pressão sobre o ovário, mas não sou ingênuo a ponto de acreditar que os ovários são a sede da histeria. Pode-se ter uma placa histerógena nas costas sem que elas sejam a causa da histeria. Jamais aconselhei que os ovários fossem extirpados. Não sou tão simplista assim, e penso que trata-se de algo muito mais complexo. Em vez de sair dizendo que eu deveria ter ficado calado, o colega de Nova Iorque teria ficado melhor se me tivesse lido. Ele certamente não encontraria esse tipo de conselho em meu ensino. Ao contrário, teria visto que protesto contra a tendência demasiado radical de alguns cirurgiões de retirar os ovários nos casos de histeria geral. Essa posição não tem pé nem cabeça. Se fosse assim, seria preciso retirar um pedaço das costas para suprimir as placas histerógenas ou mesmo cortar os testículos dos testiculares. Vejo senhoras retornarem da Alemanha ou da Suíça sem seus ovários. Tem cicatrizes no ventre e são tão doentes quanto eram. Um ponto histérico a menos certamente não é a cura da histeria.

Nosso doente apresenta um estreitamento do campo visual. Isso não é uma questão neurastênica, mas sim histérica.

Nossos oponentes habituais nos dizem que há epiléticos que apresentam estreitamento do campo visual e que, consequentemente, essa afecção não é uma prova da histeria.

É certo que vimos epilépticos com anestesias, mas não porque são epiléticos, e sim histeroepilépticos, ou seja, são definitivamente histéricos. Tudo isso poderia ser facilmente esclarecido se quiséssemos nos entender, mas há de se fazer oposição.

Prossigo. Este homem que apresenta estreitamento do campo visual é um histérico. Ele apresenta inclusive a aura com pequenos ataques histéricos que não são epilépticos, e que não se referem à neurastenia. Este caso é interessante. Os senhores vêem um homem que tem uma profissão manual, em que de fato há um pouco de trabalho intelectual, o qual demanda apenas atenção. Sendo assim, ele se estafa ao trocar o dia pela noite.

Não são raros os neurastênicos entre ferroviários. Nossa vizinha, a Compagnie de Chemin de Fer d’Orléans, encaminha até nós numerosos clientes, entre os quais muitos são neurastênicos. Este é a um só tempo histérico e neurastênico. Tem o porte de um homem vigoroso que, se nos fiássemos na antiga maneira de pensar, estaria muito distante da histeria. Em seu caso, porém, essa opinião não tem valor, e eu o chamei precisamente para lhes mostrar essa complicação.

Dirigindo-se ao doente.

Como são esses pequenos ataques que o senhor sente? O senhor sente zumbido nos ouvidos, sua têmpora latejar? O senhor sente o pescoço comprimindo?

Doente: Sim.

Charcot: Qual tratamento o senhor segue? Doente: O tratamento por eletrização.

Charcot; O senhor está de licença para se tratar? Doente: Por um mês.

Charcot: Há quanto tempo? Doente: Há dez dias.

Charcot: O senhor melhorou?

Doente: Estou começando a sair, isso me faz bem. Charcot: O senhor trabalha à noite?

Doente: A metade do tempo. Charcot; O senhor pode ir.

(Charcot1 Apud Quinet (2003))

5.3 Breve histórico do reconhecimento de Freud da histeria nos