6.3 U TFORDRINGER KNYTTET TIL ROLLER
6.3.2 Prosjekterende
É na perspectiva de ampliação desse conceito, já difundido pelos softwares livres, que estabelecemos o caminho por onde pulsa a inspiração e o otimismo em relação às possibilidades propostas pelo ciberespaço; a real viabilidade de se utilizar a própria rede mundial de computadores para inverter a lógica de exclusão, manipulação, individualismo e controle presentes nos diferentes níveis da sociedade da qual fazemos parte. Nesse sentido, o software livre se apresenta também como uma possibilidade de inventar, criar e recriar caminhos que possibilitem novas formas de ver, interagir e estar no mundo. “O software livre é uma possibilidade de essa meninada reinventar coisas que precisam ser reinventadas.” (Luiz Inácio Lula da Silva em discurso proferido no 10 FISL, POA, jun/2009).
Destacamos ainda que o AVA, utilizado pela UnB, é um software livre. O Moodle é uma plataforma inserida nesse contexto livre de compartilhamento e recriação, espaço onde se agregam estudantes localizados em espaços geográficos diferentes a fim de realizar um processo de formação baseado na construção colaborativa dos conhecimentos.
É nessa perspectiva que Lévy (1998) nos provoca no sentindo de nos responsabilizarmos ativamente pela construção dos valores éticos que povoam e alimentam o ciberespaço e consequentemente a sociedade. As ferramentas estão disponíveis, cabe às pessoas aproveitarem o momento histórico para amadurecer esse processo e se apropriar dele.
Ao enfatizar esse caminho, o contraponto vislumbrado é fundamentado na possibilidade de utilizar/ampliar uma proposta calcada no diálogo, na troca, na inteligência coletiva9 (LÉVY, 1998), na possibilidade de estreitamento dos espaços, no potencial de compartilhamento e colaboração, sobretudo a real viabilidade de democratização de conteúdo (tanto produtores, como receptores ou interatores) diferente daquele veiculado pelas grandes empresas de comunicação de massa.
A nova mídia determina uma audiência segmentada, diferenciada que, embora maciça em termos de números, já não é uma audiência de massa em termos de simultaneidade e uniformidade da mensagem recebida. A nova mídia não é mais mídia de massa no sentido tradicional do envio de um número limitado de mensagens a uma audiência homogênea de massa. Devido à multiplicação de mensagens e fontes, a própria audiência torna-se mais seletiva. A audiência visada
9 É uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que
resulta em mobilização efetiva das competências. Acrescentemos à nossa definição este complemento indispensável: a base e o objetivo da inteligência coletiva são o reconhecimento e o enriquecimento mútuos das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou hopostasiadas (LÉVY, 1998, p. 28-29).
tende a escolher suas mensagens, assim aprofundando sua segmentação, intensificando o relacionamento individual entre o emissor e o receptor (SABBAH, 1985 apud SANTAELLA, 2003, p.16-17).
Nesse sentido, o receptor passa a ter oportunidade de sair de um papel exclusivamente passivo para estabelecer também uma comunicação com o emissor, escolher os conteúdos que deseja se relacionar, bem como produzir os seus próprios e propor o diálogo com outros receptores, ativos e participativos. Como apresenta Santaella (2003), o ciberespaço possibilita a ampliação da comunicação interpessoal, onde todos podem se tornar produtores, criadores, apresentadores, difusores de seus próprios produtos, conteúdos e obras artísticas. Dessa maneira, a antiga distribuição “piramidal” passa a modificar-se no sentindo de sofrer concorrência de uma sociedade que tem poder de alimentação e integração em tempo real. A autora contribui ainda:
Com a introdução dos microcomputadores pessoais e portáteis, que nos anos 80 já estavam penetrando no mercado doméstico, os espectadores começam a se transformar também em usuários. Isso significa que começou a mudar aí a relação receptiva de sentido único com o televisor para o mundo interativo e bidirecional que é exigido pelos computadores. As telas dos computadores estabelecem uma interface entre a eletricidade biológica e tecnológica, entre o utilizador e as redes. Na medida em que o usuário foi aprendendo a falar com as telas, através dos computadores, telecomandos, gravadores de vídeo e câmeras caseiras, seus hábitos exclusivos de consumismo automático passaram a conviver com hábitos mais autônomos de discriminação e escolhas próprias. Nascia aí a cultura da velocidade e das redes que veio trazendo consigo a necessidade de simultaneamente acelerar e humanizar a nossa interação com as máquinas (SANTAELLA, 2003, p.81-82)
A partir dessa perspectiva, temos a possibilidade de inverter a lógica homogeneizadora imposta pela televisão e pelos grandes meios de comunicação de massa. Agora existe a real possibilidade de nos posicionarmos e desempenharmos um papel diferenciado do anterior, que vai além de espectadores e consumidores passivos. Para entender melhor o funcionamento desse processo, destacamos uma explicação que se apresenta para nós de modo bastante didático:
Redes de televisão e de computadores são quase o contrário uma da outra. Negroponte (1995: 156-57) explica essa diferença: uma rede de televisão é uma hierarquia distributiva dotada de uma fonte, a origem do sinal, e muitos escoadouros homogêneos, o destino dos sinais. As redes de computadores, por outro lado, formam uma treliça de processadores heterogêneos, todos eles podendo atuar como fontes e como escoadouros (NEGROPONTE, 1995 apud SANTAELLA, 2003, p. 89).
Ao considerar as profundas mudanças provocadas pelo acesso aos computadores e as novas formas de comunicação oferecidas pela internet um novo universo de possibilidades está agora disponível e ao alcance dos cidadãos. Resta saber por quais caminhos trilhar, o que pretendemos realizar, para que e para quem. Parece-nos fundamental levantar essa discussão e tentar contribuir para a conscientização, orientação, formação e multiplicação dos meios que
possibilitam a democratização de uma nova perspectiva de comunicação, educação, composição, realização, produção e recepção de arte. Nesse sentido, Pierre Lévy (1999) colabora ao destacar que a cibercultura não trata de uma categoria específica, mas se apresenta como a nova forma de cultura, uma evolução em nosso processo de comunicação:
Não se deve confundir cibercultura com uma subcultura particular, a cultura de uma ou de algumas ‘tribos’. Ao contrário, a cibercultura é a nova forma de cultura. Entramos hoje na cibercultura como penetramos na cultura alfabética há alguns séculos. Entretanto a cibercultura não é uma negação da oralidade ou da escrita, ela é o prolongamento destas; a flor, a germinação. Sejamos vitalistas até o fim! Se considerarmos a linguagem como uma forma de vida, o aperfeiçoamento dos meios de comunicação e do tratamento da informação representa uma evolução de seu mecanismo reprodutor (LÉVY apud LEMOS, 2002, p.13).
Dessa maneira, destacamos aqui que nos interessa a ampliação das possibilidades, ou seja, não negamos as formas tradicionais e os conhecimentos acumulados pela humanidade ao longo dos séculos. Ao contrário, o que propomos é investigar maneiras de utilização da mediação tecnológica para dialogar e aproveitá-la em toda sua potencialidade para novas formas de criação, composição, expressão, comunicação e educação. Entendemos que a cibercultura se apresenta como a possibilidade de pensar novas maneiras de produzir, receber e interagir, viabilizar a ampliação das nossas atuações para além do espaço geográfico que ocupamos. Podemos hoje estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (ubiquidade) e estabelecer novas relações que antes não se faziam possíveis.
O código digital da linguagem humana abriu o espaço infinito das questões, das narrativas, dos saberes, dos signos da arte e da religião. A linguagem fez crescer uma nova vida no coração da antiga, aquela dos signos, da cultura e das técnicas. A linguagem vive. Ela eleva-se em direção as formas mais leves, mais rápidas, mais evolutivas que a existência orgânica [...] A cada etapa da evolução da linguagem, a cultura humana torna-se mais potente, mais criativa, mais rápida. Acompanhando o processo das mídias, os espaços culturais multiplicaram-se e enriqueceram-se: novas formas artísticas, divinas, técnicas, revoluções industriais, revoluções políticas. O ciberespaço representa o mais recente desenvolvimento da evolução da linguagem. Os signos da cultura, textos, música, imagens, mundos virtuais, simulações, software, moedas atingem o último estágio da digitalização. Eles tornaram-se ubiquitários em rede – no momento em que eles estão em algum lugar, eles estão em toda a parte – e interconectam-se em um único tecido multicor, fractal, volátil, inflacionista, que é, de toda forma, o metatexto englobante da cultura humana. (LÉVY apud LEMOS, 2002, p. 14).
Ao considerar esse contexto de inserção das tecnologias contemporâneas na sociedade, nos são apresentadas novas maneiras de nos relacionarmos uns com os outros e de nos posicionarmos no tempo e espaço em que estamos inseridos. Novas formas de criação e educação passam a ser vislumbradas abrindo um campo fértil com incontáveis possibilidades de experimentações e investigações. Inseridos nesse turbilhão de novidades e probabilidades nos perguntamos o que nos interessa nesse grande universo de possibilidades? Como nos
encontrar dentro de toda essa constante novidade complexa? Nesse sentido, Murray (2003) contribui:
A grande expansão dos meios de comunicação nos últimos cem anos colocou-nos face a face com indivíduos particulares do mundo inteiro, porém não nos disse como deveríamos nos relacionar com eles. A exploração do espaço ensinou-nos muito sobre todos fazermos parte de uma única sociedade, mas nada sobre como encontrar nosso lugar dentro dela. A vastidão e a especificidade do computador oferecem-nos uma forma de modelar o comportamento de indivíduos singulares dentro de grandes concentrações de pessoas, de criar mundos ficcionais nos quais possamos encenar as confusões de estarmos associados a uma humanidade recentemente visível e, contudo, irresistivelmente variada, que se espalha por todo o mundo (MURRAY, 2003, p. 262-263).
O nosso desafio agora se apresenta na perspectiva de descobrir como vamos ocupar esse espaço, o que e como queremos utilizar todo esse potencial oferecido pelo ciberespaço para formar professores/artistas/pesquisadores responsáveis pela facilitação do diálogo e da relação com outros sujeitos cidadãos/criativos/singulares. Como aproveitar toda a facilidade de colaboração proposta pelas tecnologias contemporâneas para aproximar as pessoas e estabelecer novos referenciais? Quais estratégias devem ser utilizadas para estabelecer relações inovadoras, diferentes daquelas impostas por uma sociedade autoritária e castradora dos potenciais criativos e reflexivo dos sujeitos?
Só através da contracomunicação, da contracultura de massas, do contradogmatismo; só a favor do diálogo, da criatividade e da liberdade de produção e transmissão de arte, do pleno e livre exercício das suas formas humanas de pensar, só assim será possível a liberação consciente e solidária dos oprimidos [...] Não basta consumir cultura: é necessário produzi-la. Não basta gozar arte: necessário ser artista! Não basta produzir ideias: necessário é transformá-las em atos sociais, concretos e continuados. (BOAL, 2009, p. 19).
No anseio de transformar esse sonho em realidade, Augusto Boal, o Centro de Teatro do Oprimido (CTO) e o Ministério da Cultura desenvolveram um amplo trabalho de formação e multiplicadores das técnicas oferecidas pelo Teatro do Oprimido. A proposta se caracterizou em um processo de formação em rede. Contudo Boal não chegou a trazer para a discussão as possibilidades oferecidas pela rede mundial de computadores. Entendemos que o que se mostrava ainda como um sonho para essa importante personalidade do teatro, hoje apresenta condições reais de concretização. Concordamos com Boal (2009), mas propomos no seio da sua discussão política, filosófica e revolucionária incluir estratégias que possibilitem a construção de uma rede maior, mais dinâmica, dialógica e colaborativa. Para tanto, confiamos que se faz necessário pensar na construção de metodologias que se apropriem dos potenciais disponíveis no ciberespaço, bem como formar cidadãos que tenham propriedade para utilizá- lo em toda a sua capacidade.
É nesse sentido também que enfatizamos a fundamental importância da formação de professores de teatro contemplar a prática teatral, o desenvolvimento de processos criativos, bem como o desenvolvimento de capacidade técnica para povoar o ciberespaço e aproveitá-lo em toda a sua potencialidade de troca, diálogo, compartilhamento e construção colaborativa dos saberes em uma perspectiva que propõe novas formas de comunicação, produção de arte e recepção, respeitando o pensamento sensível e as singularidades dos sujeitos que o produzem e o compartilham. Dessa maneira, estamos diante de uma nova possibilidade que precisamos aprender a utilizá-la, bem como identificar o nosso papel dentro desse universo.
Nessa perspectiva, é relevante aprender a usar os meios disponíveis para comunicarmo-nos, produzir conteúdos sensíveis, poéticos, críticos e provocadores que possam superar a lógica de dominação até então utilizada pelas grandes mídias que nos impõe determinada maneira de ver o mundo e a sociedade na qual estamos imersos. Acreditamos que esse pode ser um dos caminhos possíveis para preservar as singularidades dos sujeitos, bem como nos encontrarmos no meio de todo esse turbilhão e bombardeamento massivo presente em nosso cotidiano.
Enfatizamos que não se trata de um deslumbramento pela tecnologia. O nosso posicionamento se realiza no sentido de enfatizar que, mais do que um encantamento, estamos interessados em nos apropriar das possibilidades oferecidas pela tecnologia a fim de viabilizar um mundo humano, solidário, colaborativo e, assim, explorar as potencialidades criativas dos sujeitos para além do papel de espectadores passivos de obras artísticas, pensamentos e reflexões alheias (de outrem). Não avaliamos que a tecnologia tenha o poder de mudar o mundo, quem pode fazê-lo são as pessoas. Estas, sim, podem se utilizar do potencial de comunicação, interação, difusão, compartilhamento, criação entre muitos outros oferecidos por ela, para a construção de um espaço mais sensível que respeita e representa as singularidades dos sujeitos.
Contudo a tecnologia por si só não tem muito significado sem o pensamento sensível, político e estratégico, característica exclusiva dos seres humanos que como criadores planejam tecnologias, as produzem e as utilizam. A pergunta é como aproveitar todo o potencial disponibilizado pela mediação tecnológica para a produção artística? Como realizar processos criativos de composição cênica no contexto das tecnologias contemporâneas? De que maneira essas novas formas de criação se relacionam com a formação de artistas/ professores/pesquisadores de teatro?