Na tentativa didática de esclarecer o campo de atuação proposto vale ressaltar que estamos falando do desenvolvimento de obras que se realizam em um processo de transmissão em tempo real que com a interação e a participação de internautas, atores telepresentes, atores e espectadores presentes fisicamente têm a possibilidade de multiplicar- se por diversos espaços e ampliar o seu alcance geográfico. Essas obras que navegam por diversos lugares e integram atores e espectadores localizados em diversos espaços podem ser chamadas de “teacinevisual”, “audiocineteamusidançal”, ou ainda “circoperforteamusical”, ou, de preferência, qualquer outro nome que não faça referência às áreas artísticas em específico.
Nesse momento da pesquisa, a tentativa de definição de uma nomenclatura perde força em prol da buscar pela compreensão de como realizar obras que se insiram na perspectiva dessa nova linguagem em construção, as relações que estão colocadas nessa complexa tessitura, suas possibilidades e potencialidades poéticas, artísticas, didáticas e de comunicação em diálogo com as tecnologias contemporâneas disponíveis.
Ainda que reconheçamos que esse entendimento da “não preocupação com a nomenclatura” agora apresenta uma problemática no que diz respeito ao aspecto concreto de realização dessa arte ainda “sem nome”, já que os editais de financiamento disponibilizam recursos para áreas específicas. Avaliamos que, em vez de retroceder para o isolamento, o momento é de questionar as “caixinhas isoladas” propostas nos editais e buscar uma nova forma de contemplar esse novo movimento que deve ser construído em um processo participativo de diálogo agregador. O momento histórico é propício para estabelecer novas relações em que a grande comunicação de massa deixe de ser a única detentora da
informação, onde existe a real possibilidade de nos apropriamos de outros meios que possibilitam o diálogo, a participação, o encontro e a interação. Sabemos que a internet e as demais ferramentas disponíveis pelas tecnologias contemporâneas não são por si só colaborativas, elas apresentam potencial de colaboração. Por isso, é necessário definir as formas de utilizá-la, onde, quando, para que e como, para que assim possamos alcançar os objetivos propostos.
Se a questão é dinheiro, mais dinheiro para o teatro, tanto nas duas Alemanhas como em toda a parte do mundo, não há espaço para o trabalho experimental. Trata-se apenas de compra e venda. A tendência é apenas comprar e vender, e isso vai contra a qualidade [...] Temos de estar sempre procurando um jeito de não sermos consumidos e de encontrarmos alguns novos obstáculos contra o consumo. Esse é o problema. Estou, apenas, sendo um obstáculo – talvez seja a única coisa a fazer (MULLER apud SANTANA; SOUZA; RIBEIRO, 2003, p. 150).
Com a possibilidade de diálogo, interação, troca e colaboração potencialmente acessíveis com a internet, é possível propor que deixemos de ser apenas um obstáculo para então compormos vários obstáculos que, juntos, possam construir uma grande ponte que nos leve a novos caminhos, diferentes daqueles propostos pelos ideais consumistas/individualistas/capitalistas, pautados agora na perspectiva do compartilhamento, da solidariedade, da inteligência coletiva, da participação ativa e colaborativa dos sujeitos que povoam o ciberespaço e a sociedade. A cada momento de ruptura surgem novas provocações, interesses que reverberam na arte e na educação de cada período histórico.
Ao compreender que as teorias que envolvem o fazer teatral, bem como a educação dessa linguagem, são fundamentadas nos processos de experimentações práticas, propomos vivenciar o exercício da prática artística no contexto de inserção das tecnologias e da contemporaneidade. Dessa maneira, reconhecemos a fundamental importância de sugerir processos que possibilitem a comunhão entre atores e espectadores no momento único e ao vivo de realização da obra como ressaltado por Grotowski (1976). Sugerimos também que essa relação entre os sujeitos proporcione a realização do jogo teatral de ação e reação como enfatizado por Burnier (2001), Ferracini (2003) e Carvalho (2011). Contudo, ainda que a proposta mantenha esses elementos básicos e tradicionais do campo teatral, interessa-nos também incorporar novas qualidades de presença, experimentar possibilidades de ampliar o espaço em que a obra se realiza de modo a construir novas composições, discursos e relações poéticas.
Para tanto, a investigação propõe a utilização da telepresença como recurso que possibilita a interação entre atores e espectadores localizados em diferentes espaços geográficos. Compreendemos que obras artísticas dessa natureza ampliam também a noção de
disciplinas isoladas que não se apresentam mais como linguagens artísticas separadas e fechadas em suas especificidades, mas, sim, em uma proposta de construção de uma nova linguagem artística relacional, dialógica, híbrida e complexa. Recomendamos, assim, aproveitar em toda a sua potencialidade a polifonia de todas essas linguagens fundidas, nas quais não possamos mais delimitar onde se estabelecem as fronteiras que separam um campo do outro, para buscar novas formas artísticas de criação, composição, expressão, comunicação e educação.
Sugerimos a possibilidade de relação entre o material e o virtual (a interação entre público/ atores presentes fisicamente e internautas/atores telepresentes localizados em diferentes espaços); o uso de elementos tradicionais em diálogo com os disponíveis pelas tecnologias contemporâneas; a produção colaborativa e imediata de novos conteúdos; a possibilidade de coautoria/coparticipação dos espectadores na obra, estreitando a distância entre produtores e receptores; a viabilidade de multiplicação do(s) corpo(s) e sua reverberação em diferentes espaços de modo a ampliar a obra desenvolvida.
Nesse contexto, é necessária a construção de um processo de treinamento específico que possibilite a inserção de novos domínios corporais, sobretudo espaciais. Dessa maneira, é propício também o surgimento de novos materiais, procedimentos, métodos e discursos.
E com o intuito de compreender parte desses elementos composicionais dessa nova linguagem em construção, propomos aqui realizar e analisar os experimentos didáticos pedagógicos, explicitando parte das experiências vivenciadas e os resultados alcançados. Dessa maneira, interessa-nos ainda refletir sobre a formação de sujeitos pensantes, críticos e colaborativos que participam ativamente como espectadores, criadores, coautores, interatores e também como artistas, rompendo as distâncias entre a arte, a vida e a sociedade contemporânea. Questionamos: se a formação dos professores de teatro não contemplar os elementos que envolvem a produção de arte contemporânea e o que há de mais atual nas reflexões e composições artísticas, estaremos nos aventurando em todas as complexidades artísticas, conceituais, teóricas e filosóficas para produzir para quem? Se não houver um diálogo entre a produção artística e a educação, corremos o risco das obras de arte serem apreciadas apenas por uma parcela de artistas e de uma elite intelectual. Por essa razão os experimentos didático-pedagógicos foram aplicados com professores de teatro em formação. Contudo uma proposta dessa natureza pode ser desenvolvida com artistas profissionais ou mesmo por estudantes de diversas faixas etárias na educação presencial, a distância e/ou híbrida (semipresencial).