4. Analyse av Saras tekst
4.2 Prosesser i teksten
Os mecanismos enunciativos contribuem para a manutenção da coerência pragmática (ou interativa) do texto, ou seja, auxiliam o esclarecimento dos posicionamentos enunciativos: as instâncias que assumem o que é dito no texto, as vozes expressas e as diversas avaliações (julgamentos, opiniões, sentimentos) sobre alguns aspectos do conteúdo temático. Sobre a identificação do posicionamento enunciativo e vozes, Bronckart sinaliza que
é um problema bastante complexo: ao produzir seu texto, na verdade, o autor cria, automaticamente, um (ou vários) mundo(s) discursivo(s), cujas coordenadas e cujas regras de funcionamento são ‘diferentes’ das do mundo empírico em que está mergulhado. Assim, é a partir desses ‘mundos virtuais’ e mais especificamente a partir das instâncias formais que os regem (textualizador, expositor, narrador) que são distribuídas e orquestradas as vozes que se expressam no texto. (BRONCKART, 2012, p.130).
Esses mecanismos enunciativos são denominados de superficiais por Bronckart (2008) porque “eles operam quase que independentemente da progressão do conteúdo temático e, portanto, não se organizam em séries isotópicas; menos necessariamente presentes que os mecanismos anteriores, eles servem, sobretudo, para orientar a interpretação dos destinatários.” (BRONCKART, 2008, p.90).
Bronckart (2012) pondera sobre as vozes que se responsabilizam ou que são responsabilizadas pelo que é enunciado. Essas vozes estão presentes em todo tipo de discurso. São as vozes dos personagens, das instâncias sociais e do autor empírico do texto. Nas palavras do autor:
[...] a problemática das vozes coloca-se evidentemente para todo tipo de discurso [...]. Na maioria dos casos, é a instância geral de enunciação que assume diretamente a responsabilidade do dizer. Essa voz, que se poderia chamar de neutra, é, portanto, conforme o tipo de discurso, ou a do narrador ou a do expositor [...]. Mas, em outros casos, a instância de enunciação pode pôr em cena uma ou várias vozes ‘outras’, que são, por isso, vozes infra- ordenadas em relação ao narrador ou ao expositor. Parece-nos que essas vozes secundárias podem ser reagrupadas em três categorias gerais: vozes de personagens, vozes de instâncias sociais e voz do autor empírico do texto. (BRONCKART, 2012, p.326).
No quadro abaixo, encontram-se relacionadas as vozes enunciativas, segundo Bronckart (2012).
QUADRO 4 – Vozes enunciativas
Voz neutra Instância geral da enunciação: voz do narrador ou do expositor, sempre inferível de segmentos de textos na terceira pessoa.
Vozes dos personagens Vozes de seres humanos ou entidades humanizadas implicados, na qualidade de agentes, nos acontecimentos ou ações constitutivas do conteúdo temático. A voz do narrador pode se fundir com a voz do personagem. Vozes sociais Vozes de personagens, grupos ou instituições sociais que
não intervêm como agentes no percurso temático de um segmento de texto, mas que são mencionados como instâncias externas de avaliação de alguns aspectos desse conteúdo.
Voz do autor Voz que procede diretamente da pessoa que está na origem da produção textual e que intervém, como tal, para comentar ou avaliar alguns aspectos do que é enunciado. Fonte: Adaptado de Bronckart (2012, p.326-328).
Bronckart (2012) ainda pondera que as diferentes vozes podem ser expressas de modo direto – como nos discursos interativos dialogados – e de modo indireto – que podem fazer parte de qualquer tipo de discurso. O autor em pauta também registra a questão da polifonia – que é a existência de várias vozes de mesmo estatuto (várias vozes sociais ou diversas vozes de personagens) ou de arranjos de vozes de estatuto diferente (por exemplo, voz do autor, vozes dos personagens, vozes sociais).
Os outros mecanismos enunciativos - as modalizações - são as avaliações formuladas sobre alguns aspectos do conteúdo temático. Por conseguinte, elas objetivam traduzir, a partir de qualquer voz enunciativa, os diversos comentários ou avaliações, formulados a respeito de alguns elementos do conteúdo temático. As modalizações pertencem à dimensão configuracional do texto, contribuindo para o estabelecimento de sua coerência pragmática ou interativa e orientando o destinatário na interpretação de seu conteúdo temático. Elas são expressas por algumas estruturas recorrentes, que podem ser reagrupadas em quatro subconjuntos, conforme mostra o quadro 5.
QUADRO 5: A marcação das modalizações reagrupadas em quatro subconjuntos linguísticos segundo Bronckart
Subconjuntos Línguísticos
Marcação das modalizações
1º Tempos verbais no futuro do pretérito
2º Auxiliares de modo: querer, dever, ser necessário e poder, e verbos que, por seu valor semântico próprio, podem às vezes ‘funcionar como’ auxiliares de modo: crer, pensar, gostar de, desejar, ser obrigado a, ser constrangido, etc.
3º Advérbios ou locuções adverbiais: certamente, evidentemente, talvez, sem dúvida, felizmente, (in)felizmente, obrigatoriamente, deliberadamente, etc.
4º Orações impessoais: é provável que, é lamentável que, sem dúvida que, etc.
Fonte: adaptado de Bronckart (2012, p.333).
Bronckart (2012), embasado nas múltiplas classificações propostas desde a Antiguidade e nos estudos de Popper65 (1972/1991) e Habermas66 sobre os mundos representados, especifica quatro funções das modalizações: lógicas67, deônticas, apreciativas e pragmáticas, explicitadas no quadro abaixo.
QUADRO 6- As quatro funções da modalização segundo Bronckart
Tipos de modalizações
Funções / Características Exemplos
Lógicas Avaliam alguns elementos do conteúdo temático, apoiadas em critérios do mundo
objetivo Apresentam os elementos de seu
conteúdo do ponto de vista de suas condições de verdade, como fatos atestados (ou certos), possíveis, prováveis, eventuais, necessários, etc. Marcadas por unidades linguísticas de qualquer um dos quatro subconjuntos (grifo nosso).
“É evidente que a teoria filosófica da opinião como saber de segunda ordem suporia a existência (as matemáticas serviram de paradigma) de um saber certo” (F. Francois, 1974, p.170 apud Bronckart, 2012, p.331, grifo do autor).
Deônticas Avaliam alguns elementos do conteúdo temático, apoiada em valores, nas opiniões e nas regras constitutivas do mundo
social, apresentando os elementos do
conteúdo como sendo do domínio do direito, da obrigação social e/ou da conformidade com as normas em uso. Marcadas por unidades linguísticas de qualquer um dos quatro subconjuntos (grifo nosso).
Se uma equivalência não for claramente estabelecida e respeitada, [...] conduzirá a emissões de bilhetes discutíveis e, em todo caso, discutidas. É preciso que, neste domínio, governo ou instâncias internacionais possam improvisar à vontade, sem controle e sem limites (MENDÈS FRANCE, P., 1974, p.170, apud BRONCKART, 2012, p.331-332, grifo do autor).
Apreciativas Avaliam alguns aspectos do conteúdo temático, procedente do mundo subjetivo da voz que é a fonte desse julgamento, apresentando-os como benéficos, infelizes, estranhos, etc., do ponto de vista
Exemplo: Mas agora, mesmo não me levando a nada, esses instantes me parecem que tiveram eles mesmos bastante encanto. Gostaria de reencontrá-los, do modo que me
65 POPPER, K.R. La connaissance objective. Paris: Aubier, 1991).
66 HABERMAS, J. Théorie de l’agir communicationnel, t.I; II. Paris: Fayard, 1987.
67Bronckart (2012, p. 330) esclarece que a “categoria de modalizações lógicas agrupa, de um lado, as funções às vezes chamadas de aléticas, que se referem diretamente à verdade das proposições enunciadas (expressão do seu caráter necessário, possível, contingente, etc) e, de outro, as funções chamadas, às vezes, de epistêmicas, que se referem às condições de estabelecimento da verdade das proposições (expressão de seu caráter não decidido, verificado, contestado, etc).”
da entidade avaliadora. Marcadas, preferencialmente, por advérbios ou orações adverbiais e utilização de pronomes de primeira pessoa (eu/nós) (grifo nosso).
lembro deles. Ai de mim! [...]. (PROUST, M., 1988, p.419, apud BRONCKART, 2012, p.331-332, grifo do autor)
Pragmáticas Explicitam alguns aspectos da responsabilidade de uma entidade constitutiva do conteúdo temático (personagem, grupo, instituição, etc.) em relação às ações de que é o agente, e atribuem a esse agente intenções, razões (causas, restrições, etc.), ou ainda, capacidades de ação (poder-fazer), a intenção (o querer-fazer) e as razões (o dever-fazer). Marcadas, preferencialmente, pelos auxiliares de modo (grifo nosso).
-Éééé, mas se você pudesse ter escolhido entre os diversos serviços desse tipo, não é?
-É, é verdade. Mas naquela época, não sabe, meu pai tinha morrido e depois, bem, eu achava que devia partir, quer dizer, não devia ser incômodo para toda a família, um peso. (SEGUY, H.I.; 1976, p.24 apud BRONCKART, 2012, p.332 –333, grifo do autor).
Fonte: Adaptado de Bronckart (2012, p.132; 330-333).
Bronckart ainda destaca que “as unidades que marcam a modalização combinam-se frequentemente entre si, formando complexos modais”, como no exemplo: “É evidentemente lamentável não ser possível acabar com a guerra” (BRONCKART, 2012, p.334, grifo do autor).
Bronckart (2006, p.168) ressalta que a metáfora do folhado textual “seria particularmente mole e as camadas se interpenetrariam.” Reconhece, dessa maneira, as limitações desse esquema ao afirmar que
[...] há espaço, obviamente, para se rever a estrutura de conjunto de nosso esquema, com uma proposta que consistiria em ligar mais diretamente os tipos de discursos aos posicionamentos enunciativos (assim como também aos mecanismos de temporalização) e a atribuir uma finalidade propriamente coesiva somente aos mecanismos de conexão e retomada anafórica. (BRONCKART, 2006, p.168).
Lousada (2010), na mesma perspectiva de Bronckart (2006), acentua que “[...] o ISD é uma teoria em construção, estando constantemente sujeito a revisões, descobertas, recursos a outros autores, etc.”
Conforme explicitado, a análise das entrevistas será realizada observando os mecanismos enunciativos (vozes enunciativas e modalizações) explicitados pelo ISD.
No próximo capítulo, apresento o caminho metodológico percorrido, evidenciando os contextos da pesquisa e o perfil das participantes da pesquisa.
4. METODOLOGIA
Neste capítulo, apresento a metodologia utilizada na pesquisa, bem como a descrição do contexto e do perfil das participantes, os procedimentos de coleta e geração dos dados. Exponho, também, sobre a aplicação do teste-piloto para testagem desses procedimentos.
Tendo em vista o objetivo geral deste estudo é analisar o impacto das coleções de Língua Inglesa do PNLD 2012 para o Ensino Médio, considerando este programa como política linguística de formação continuada, utilizei os princípios da pesquisa qualitativa, interpretativa, diagnóstica, de cunho etnográfico, com ênfase sobre os processos, sob as lentes do interacionismo sociodiscursivo, abrangendo, também, a análise documental.
Conforme postulam Denzin e Lincoln (2006), o pesquisador qualitativo destaca “a natureza socialmente construída da realidade, a íntima relação entre o pesquisador e o que é estudado e as limitações situacionais que influenciam a investigação” (DENZIN; LINCOLN, 2006, p.23), pois por trás da metodologia, da teoria e da epistemologia, encontra-se o pesquisador, situado biograficamente. O pesquisador qualitativo entra no processo de pesquisa a partir de dentro de uma comunidade interpretativa. Desse modo, estou ciente de que não existem observações objetivas, mas situadas “socialmente nos mundos do observador e do observado – e entre esses mundos” (DENZIN; LINCOLN, 2006, p.33), ou seja, o pesquisador está inserido no interior do grupo observado. A observação possibilita, ainda, o contato direto do pesquisador com o fenômeno pesquisado, devido à maior proximidade com o objeto de estudo. (LUDKE; ANDRÉ, 1986).
Denzin e Lincoln (2006) ressaltam que os pesquisadores qualitativos utilizam várias práticas interpretativas interligadas – a triangulação, na expectativa de compreenderem melhor o tema pesquisado. Dessa maneira, a triangulação se constitui em uma alternativa para a validação, a qual reflete uma tentativa de assegurar uma compreensão em profundidade do fenômeno em questão e de comparar os dados relacionados ao mesmo fenômeno em diferentes fases do trabalho de campo. Esses pesquisadores “estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender, interpretar os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem” (DENZIN; LINCOLN, 2006, p.17). Dessa maneira, a triangulação, nesta pesquisa, será realizada comparando-se o que o PNLD 2012 propõe em termos de concepção de linguagem, metodologia de ensino e letramento crítico por meio das coleções aprovadas no programa, os dizeres das professoras, e o seu agir em sala de aula.
A análise documental é muito utilizada em pesquisas de cunho etnográfico, em triangulação com a entrevista e a observação, por possibilitar que outras informações sejam
evidenciadas para a análise do objeto de pesquisa. Esta técnica inclui, como principais fontes os documentos legais, livros didáticos, registros de professores e alunos. (CORSETTI, 2006).