De acordo com Davis (1998), cenários são estórias plausíveis, pertinentes e alternativas sobre o futuro. São ferramentas poderosas para direcionar ao que é fundamentalmente significante e desconhecido – o futuro. Para Schoemaker (1995), o planejamento de cenários é um método disciplinado para imaginar possíveis futuros que uma organização deve utilizar em uma grande faixa de temas. Para Kahn apud Vásquez (2000), cenários são descrições narrativas do futuro que focam atenção em processos causais e pontos de decisão. Para o grupo de pesquisas sobre o futuro do Projeto Milenium (GLENN, 1994), a precisão não é a melhor forma de se avaliar um bom planejamento de cenários, mas sim a (1) plausibilidade, (2) consistência interna, (3) descrição de processos causais e (4) utilidade para a tomada de decisão. Godet e Roubelat, apud Mietzner e Reger (2004), definem cenários como a descrição de uma situação futura e o curso de eventos que permitem as pessoas se moverem adiante da situação presente, para o futuro.
Alguns autores, de acordo com Mietzner e Reger (2004), fazem uma distinção entre construção de cenários e planejamento de cenários. A construção de cenários leva em consideração as incertezas que cercam o futuro: avaliação e identificação de possíveis resultados para futuros diferentes. Nesta concepção, a construção de cenários é a fundação necessária para o Planejamento de Cenários, uma metodologia de administração usada por gerentes para articular seus modelos mentais sobre o futuro e desta forma melhorar a tomada de decisão. Outros não distinguem cenários do próprio planejamento, eles os unem. Wilkinson apud MIETZNER e REGER (2004) faz a seguinte consideração a respeito do tema:
O planejamento de cenários pode nos preparar da mesma forma que prepara os executivos: nos ajuda a entender as incertezas que se apresentam diante de nós e o que elas poderiam estar dizendo. Nos ajuda a exercitar nossa resposta para esses possíveis futuros. E nos ajuda a perceber como eles se desdobram. (MIETZNER e REGER, 2004, p.50).
Wright (2005) procura consolidar alguns dos principais conceitos sobre o tema cenários (QUADRO 2). Segundo o autor, há uma exaustiva lista sobre conceito de cenários e suas variações sutis têm sido objeto de constantes debates. A um nível mais básico de interpretação, cenários seriam estórias (um enredo). Isto aparece como uma surpresa: como estórias podem ser utilizadas como um mecanismo de administração para comunicar a estratégia e estimular o diálogo? No entanto, o aumento do interesse por cenários também
ocasionou, de forma simultânea, o interesse em se contar estórias como uma maneira de elevar a consciência, aumentar a criatividade e assim contribuir para que os tomadores de decisão lidem melhor com a complexidade e incertezas. Schwartz (2000) afirma que estórias transmitem significado; ajudam a explicar o porquê as coisas podem acontecer de determinada maneira: elas dão ordem e significado aos eventos.
Finalizando seu raciocínio, Wrigth (2005), assim como Davis (1998) e Schwartz (2000), afirma que cenários são estórias sobre futuros alternativos plausíveis, e que a doutrina central do pensamento sobre cenários está encapsulada no antigo provérbio árabe “Aquele que prediz o futuro mente, mesmo que esteja dizendo a verdade”.
QUADRO 2
Definições de Cenários e de Planejamento de Cenários
Cenários Planejamento de Cenários
[...] são quadros imaginados para futuros potenciais, mas o futuro é apenas um meio e não o fim. (Art Kleiner,1999)
[...] uma abordagem eficiente para o planejamento estratégico de negócios, que foca idéias empresariais em um mundo de incertezas. (Kees van der Heijden (1996)) [...] são narrativas descritivas de projeções
alternativas plausíveis de uma parte específica do futuro. (Liam Fahey & Robert M. Randall apud Fahey & Randall, 1998)
[...] não é somente uma nova ferramenta de planejamento, mas uma nova forma de refletir sobre possibilidades futuras das organizações e de tomada de decisão que as beneficiem e promovam sua sobrevivência. (Ian Wilson in Fahey & Randall,1998)
[...] são histórias narrativas com início, meio e
fim. (James A. Ogilvy, 2002) [...] é um conjunto de processos destinados a melhorar a qualidade das suposições. (Brânquia Ringland (1998)) [...] uma ferramenta para organizar as percepções
sobre ambientes futuros alternativos nos quais decisões podem ser tomadas.
Alternativamente: um conjunto de formas organizadas para podermos sonhar sobre nosso próprio futuro. (Peter Schwartz, 1996)
[...] construções de visões plausíveis sobre diferentes possíveis futuros para uma organização baseadas em grupos de influências ambientais e direcionadores-chave de mudanças sobre as quais há um alto nível de incerteza. (Gerry Johnson & Kevan Scholes, 1999).
[...] são seqüências hipotéticas de eventos construídas com o propósito de focalizar atenção em processos causais e pontos de decisão. (Herman Khan (1967) in Colin Éden & Fran Ackermann (1998))
[...] é uma lista lógica de eventos seqüenciais que conduzem a um ponto notável do tempo. (David H. Mason in Fahey & Randall (Eds) (1998))
Já para Godet (2000), um cenário é um conjunto formado pela descrição de uma situação futura e da trajetória de eventos que permitem passar de uma situação atual a uma situação futura.
Eles se distinguem uns dos outros em dois grandes grupos:
1. Cenários exploratórios: partem de tendências do passado e presente e conduzem a futuros prováveis.
2. Cenários de antecipação ou normativos: são construídos a partir de imagens alternativas do futuro, e podem ser desejáveis ou indesejáveis.
Finalmente, uma distinção importante entre cenários e previsão é defendida por Cornelius (2005, p. 94): “O Planejamento de Cenários difere fundamentalmente de previsões por aceitar a incerteza, tentar compreendê-la e fazer com que a mesma se incorpore ao raciocínio”. Para ele, assim como para Schwartz (2000), cenários não são projeções, predições ou preferências, mas estórias coerentes que apontam caminhos para futuros alternativos (FIG.7). Tal afirmativa é compartilhada por Adam Kahane na ocasião do desenho de cenários de Mont Fleur (1992) “cenário é uma maneira de olhar para o futuro e não prevê-lo”. Por outro lado, segundo Van Der Heijden (1996), previsões são baseadas na suposição de que o passado pode ser estendido para o futuro, uma ferramenta do estrategista racional.
O presente O caminho O futuro Previsões Realidade corrente (mapas mentais) Múltiplos caminhos Imagens alternativas do futuro Cenários
FIGURA 7 – Cenários versus Previsões Fonte: CORNELIUS, Peter, 2005, p. 94.
Foram as crescentes falhas do planejamento baseado em previsões, em meados dos anos 60, que fizeram com que a Shell se interessasse por uma forma de planejamento em que houvesse um “pensamento causal qualitativo”. Assim sendo, cenários são concebidos através de um processo de pensamento causal, e não probabilístico (VAN DER HEIJDEN, 1996).