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CAPÍTULO UNDÉCIMO

DE UMA TRISTE INVENÇÃO, COM QUE SAIU FILOMESTO EM UM DIA DE FESTA, SEM COM ELA PODER ABRANDAR TOMARIZA, PELO QUE SE FOI FORA DE SUA TERRA COM

AÉNIO, E, SABENDO-O FILIDOR, SEU AMIGO, OS FOI BUSCAR

Não se pode encarecer quão grande era a tristeza que havia nos corações de todos os cavaleiros, amigos de Filomesto, por ver a sua mágua sem remédio; e, se fora caso de armas, desejo e ânimo tinham todos de conquistar o mundo todo, arriscando suas vidas a qualquer género de triste e dura morte, por dar a seu amigo alegre e doce vida. Mas um peito duro e forte não se pode domar com armas duras, nem vencer com nenhuns exércitos invencíveis.

Trabalhavam todos por aliviar sua dor e desviar seus penosos pensamentos, com festas e invenções alegres, que ordenavam; antre as quais, acabaram também com ele que quisesse trazer a sua em uma solene festa, que esperavam, pondo e assinando pera aquele, que com melhor invenção saísse, ricas peças.

E chegado o assinado dia, não vos contarei, Senhora, as ricas e notáveis invenções, nem as muitas e grandes festas que fizeram, mui alegres, pois não pretendo, nem quero, nem posso, ainda que quisesse, contar alegrias. Só uma chorosa invenção, com que Filomesto por fim de todas as dos outros saiu, vos direi de boa vontade, por ser triste.

Trazia diante muitos cavaleiros vestidos de dó, com suas tochas nas mãos acesas, e, logo mais atrás, quatro reis de armas a cavalo, também de dó vestidos, tão comprido, que com as pontas dele iam varrendo as ruas, com suas massas de prata nas mãos, encostadas aos ombros; após estes, vinha um escudeiro, a pé, vestido de dó, que trazia o cavalo de Filomesto pelas rédeas, também de dó encobertado todo, e, um pouco afastados, iam dez homens graves, com seus rostos e cavalos de dó cobertos, cinco de cada banda, e no meio vinha um grande cavaleiro, com um preto pendão com as armas de Filomesto pintadas, que era um pelicano, que com o bico rasgava o peito e banhava o corpo todo em sangue (por amor do qual em algumas partes se chamava o Cavaleiro do Pelicano), o qual se levava pelo chão, arrastando com grande cerimónia, de quando em quando. Atrás destes vinham umas andas, cobertas de veludo preto, que traziam duas grandes e pretas mulas, cobertas da mesma cor que elas tinham, cobertos os rostos do mesmo, com os pagens, que em cima levavam pera as reger e guiar; e detrás das andas ia muita gente, de cavalo, toda de dó vestida, sem lhe aparecerem rostos, nem mãos.

Assi saiu Filomesto de sua casa, dentro nas andas, como já defunto, e, andando com esta ordem pelas principais ruas da cidade, se tangiam diante muitos clarins e trombetas, com tão grande estrondo e sentido som de tristeza, que parecia que falecia todo mundo. E levava umas letras góticas nas andas, que diziam:

AS INSÍGNIAS SÃO DE MORTO, E O CORAÇÃO DE CATIVO, E O QUE VEM AQUI, VEM VIVO.

Com isto se recolheu, depois de dadas algumas voltas pela cidade, a qual ficou com esta lúgubre invenção tão triste, como se já viram morto a Filomesto e enterrado, porque, como todos o amavam muito, assim o choravam e pranteavam pelas ruas, como se deles fora de todo para sempre despedido e já defunto.

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Viu com seus olhos isto Tomariza, que na cidade àquela festa estava, pera ver as festas, e não fez nela mais impressão que tornar-se triste. Foi isto mais julgado por natural que por voluntário, porque, ainda que muitas vezes não queira, a mesma nossa natureza naturalmente se entristece quando vê coisas tristes.

Dizia meu pai que, sem dúvida, algum amor tinha Tomariza a Filomesto, mas sua honestidade natural era tanta, que de todo lho encobria.

Alguns amigos entenderam a verdade desta invenção, e o que significava, e por quem se fizera e inventara. Outros, do povo (como em semelhantes coisas costumam), davam diversos pareceres e sentenças. Mas, coitado de quem padece o mal, que de tantos juízos é mal julgado e condenado, sem de nenhum ser escusado, nem absolto; e, se alguns o escusam, nem por isso deixa o paciente de sentir e padecer sua pena. Padece quem padece, perde quem perde, e pena quem pena, por mais que de palanque julgue quem quer que julga e fale quem fala.

Entrou aquela noite o cavaleiro Aénio, irmão de Tomariza, em casa de Filomesto, já com alguma suspeita do rumor de todo o povo, e, esconjurando a Filomesto que lhe dissesse a causa de sua tristeza, pois ele sem a saber a sentia igualmente com ele, prometendo-lhe fazer nisso todo o possível e mais além do que pudesse, pera lhe buscar algum remédio. Conhecia muito bem Filomesto a magnífica condição e fiel amor que Aénio lhe tinha, e, confiado nisso, lhe declarou, com muitas lágrimas, quanto amava a sua irmã Tomariza e o desejo que tinha de não ser nenhuma outra senhora do seu coração, nem sua companheira, senão ela. Agradeceu- lhe Aénio muito este pensamento, repreendendo-o, porém, por lhe não ter descoberto logo de princípio seu desejo, e prometeu fazer nisso o que ele bem veria, pois era o que mais ganhava em ter um tal parente nele.

Se bem o prometeu Aénio com palavras, melhores obras teve: falou primeiro com seu irmão Cisfranco, e, depois, ambos com seu pai e mãi, em os quais não achou contradição, antes vontade grande, porque, como conheciam o muito que Filomesto valia e merecia, eles se tinham por bem andantes e ditosos em lhe contentar a ele coisa sua. Mas, arreceando a mãi, que melhor conhecia a condição de Tomariza, que ela criara, disse: “Prouvesse a Deus que essa crua quisesse”.

Finalmente, nem pai, nem mãi, nem irmãos, nem parentes puderam persuadir a Tomariza que casasse com Filomesto. Não faltaram promessas do pai, nem mimos da mãi, nem rogos, nem ameças dos irmãos, nem vivas razões de seus parentes; mas faltou a vontade de Tomariza, sem vontade e sem piedade alguma.

Dizia meu pai que fora isto juízo de Deus, que, pelo mesmo caso por que é perguntado, responde, e pelo teor da culpa, com que é ofendido, castiga. E assim castigava em Filomesto, com a crueza da dura Tomariza, a que ele no castelo, em outro tempo, com a amorosa Ricatena usara. Ninguém faz mal, que ou tarde ou cedo o não pague, e não pode faltar, nem mentir, a sentença do Senhor, que disse que quem quer que com ferro mata, com ferro morre.

O duro coração de ferro de Tomariza cortou pelo forte aço, com que Filomesto feriu e enjeitou a Ricatena. Oh! formosa Ricatena, se lá, onde estás, souberas a vingança que te dão agora do teu tão amado Filomesto, quão satisfeita ficaras de o ver estar ferido, sem ferro, sem pau e sem pedra; mas, todavia, duvido que quisesse este seu mal teu brando amor, casto e puro, com que tanto o amavas, que ainda agora julgo que mais te sofrerias e te comporias melhor com tua mágua, que com sua perda.

Trocadas são as coisas da Terra; errados vejo os empregos do mundo: amamos a quem nos desama e não queremos ver a quem nos deseja; desta maneira, morremos de amores do mundo, que tão mal nos trata, e enjeitamos, desamoráveis, a Deus, que tanto nos ama. Que insânia é esta, oh! miseráveis cidadãos deste mundo? Que troca é esta tão desigual? O filho de Deus pelo de Zebedeu; o Criador pela criatura; o descanso pelo trabalho; o Céu pela Terra; o Paraíso pelo Inferno, a Deus pelo demónio. Não sabeis que sois cidadãos nobres da cidade alta do Céu? Porque vos prezais cá mais de vilãos baixos de aldeia? Se a Terra vos trata com tanta diversidade de males, com frio, calma, fome, pobreza, com outras importunas necessidades e com inumeráveis misérias, imensos trabalhos e contínuos desgostos, como julgais que vos ama? E a amais, desamando-vos? E se os Anjos vos desejam, porque os não buscais? Se o Céu vos espera, porque tanto tardais? Se o Senhor vos chama, porque não vos apressais? Se a glória é vosso descanso, porque não a desejais? Se a Terra é vosso trabalho,

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porque não vos desterrais? Se o mundo vos enjeita, porque tanto o buscais? Se o demónio é vosso algoz, porque dele não fugis? Se o Inferno é vossa pena, porque não o evitais? E se Deus tanto vos ama, e Ele só é vosso amor, porque a Ele só não amais? Ó homens sem cabeça! Ó cidadãos sem lealdade! Ó servos sem serviços! Ó filhos sem obediência! Ó ameaçados sem temor! Ó repreendidos sem emenda! Ó castigados sem melhoria! Ó obstinados sem vergonha! Ó doidice sem conhecimento! Ó conhecimento sem entender-se! Ó corações sem amor! Fugi, fugi à ira de Deus, que estais entesourando pera o dia da vingança; enjeitai a Terra, que vos persegue tanto, e só a Deus amai, que tanto vos ama; fugi das coisas do mundo, pois são todas pera vós morte, e acolhei-vos a Deus, que é a vossa mesma vida; a montes estão os trabalhos neste mundo, e amontoados achareis em Deus vossos descansos; aborrecei já o mundo, que é para vós um cruel Nero, e amai a Deus, que vos trata como quem Ele é, que é todo manso amor e doce brandura. Fazei experiência na cabeça alheia e vede Filomesto quão galardoado é por seus serviços, quão bem pago por seus merecimentos, e quão amado por seu amor, com que amava a Tomariza, parenta, na condição, deste mundo fementido e desagradecido, que tal pago, como ela, dá a quem quer que mais o serve.

Muitas lamentações compôs Filomesto, e chorou, estando solitário junto de uma grande ribeira, onde algumas vezes se recolhia, por fugir dos amigos, das festas e das alegrias. Porque (como dizem) o dia da alegria, ao que é triste, de muito mor dor o veste. E algumas delas vi eu impressas, no tempo passado, com estes meus olhos tristes, as quais notou e ajuntou um seu grande amigo, e alguns querem dizer que era Filidor; mas, pelo longo tempo, que tudo gasta e consume, já não há escritura delas, nem lembrança; e, depois que Filomesto as compôs e chorou muito suas máguas com extremado sentimento, se desterrou desta terra. Aénio, que o viu embarcar, se embarcou com ele. E o mesmo fizera Filidor, se disso acertara ter notícia ou suspeita alguma. Mas Filomesto lho quis encobrir, por ele, só, sentir sua dor, sem seu amigo; buscando-o depois Filidor, sem o achar nos povoados, nem no ermo, tendo novas do seu desterro, o foi seguindo. E, daquele tempo, ficou desta partida destes amigos um saudoso cantar, que assi dizia.