CAPÍTULO DUODÉCIMO
DO CANTAR QUE FICOU DA PARTIDA DOS TRÊS AMIGOS FILOMESTO, AÉNIO E FILIDOR
Gavião, gavião branco vai ferido e vai voando.
Em um bosque de arvoredos, junto de um campo de flores, vi uma caça de amores, vi de amores seus segredos; os ventos estavam quedos, mas o caçador, caçando, vai ferido e vai voando. Os ventos estavam calma quando viu a garça alçar, e por querê-la caçar, ficou ele preso d’alma; cuidou de levar a palma, mas ela lha vai levando; vai ferido e vai voando. De quem era o gavião, vendo tão fermosa garça, com cubiça de tal caça, soltou-lhe o cordel da mão; dias vêm e dias vão, o gavião, não tornando, vai ferido e vai voando. Quase os dias que viveu, todos gastou na demanda; ei-lo anda, ei-lo desanda, até que enfim a perdeu; por perdê-la assi, morreu; por tal perda morte achando, vai ferido e vai voando.
Capítulo Duodécimo 42
Pera trás não quis tornar, depois que se viu ferido; do viver aborrecido vai seguindo seu pesar; nunca se quis apartar da morte, que o vai matando; vai ferido e vai voando. Tanto vai contemplativo na garça e seu parecer, que, mudado seu querer, ficou, de livre, cativo; eis vem morto quem foi vivo, caça do que ia caçando, vem caindo e foi voando. Não voou, como soía; saiu fora do costume; quis-se pôr tanto no cume, que da terra se não via; leva só por companhia penas, que o vão alçando; vai ferido e vai voando. Subiu tanto pera o alto, que, por se ver tão subido, lhe faltou vista e sentido, e deu de cima gram salto; mas do salto ficou falto da vida, que vai faltando; vai ferido, e vai voando. No alto foi perder a vida; não caçou como outros caçam, que na terra se embaraçam; este deu maior subida; tanto trouxe mor ferida. quanto mais se foi alçando; vai ferido, e vai voando. Se voara mais rasteiro, nunca tanto mal passara, e tanto não lhe acertara o rapaz, cego besteiro; mas, enfim, fim derradeiro a qualquer está esperando; vai ferido e vai voando.
Capítulo Duodécimo 43
Alçaram-se em seu favor uns gaviães mais pequenos, mas mal puderam os menos, pois que não pôde o maior; antes foi para mor dor, que tomou, não a tomando; vai ferido e vai voando. Todos os seus pensamentos foram detrás do primeiro; mas primeiro e derradeiro não viram senão tormentos; passa descontentamentos quem tal vida anda passando; vai ferido e vai voando. Ia assi tão transportado, com ver tanta fermosura, que mudou sua figura e ficou garça tornado; tanto pôde o seu cuidado, que o foi garça tornando; vai ferido e vai voando. Branca cor, não contrafeita, leva por honestidade, porque pena de verdade penas de outra cor enjeita; as penas da asa direita, de grandes, vão arrastando, vai ferido e vai voando. Os seus bens esquerdos vão, mas seus males vão direitos, quão banhados vão seus peitos das águas do coração;
não vai ele alegre, não, pois seus olhos vão chorando lágrimas, que o vão banhando; Esperança não a viu;
sem ela viveu na terra; foi buscar morte à serra, seguindo quem o feriu. Nunca tal coisa se ouviu, tanto amar desesperando, ir já morto e ir voando.
Capítulo Duodécimo 44
Cinco librés (sic) (116) se soltaram, pera que o ajudassem,
e, antes que à garça chegassem a seu gavião mataram;
os seus o despedaçaram, garça ser ele cuidando; vai ferido e vai voando. Um os olhos lhe tirou. olhos que ele não quisera, porque, se não os tivera, não vira quem o matou;
mas faz-se o que Amor mandou, rou, rou, rou (sic) velhas bradando; vai ferido e vai voando.
Outro libré (sic), bom de rasto, seus narizes lhe comeu, porque nunca conheceu senão cheirar um só pasto; sempre ele cheirou de casto; casto não lhe aproveitando, vai ferido e vai voando. Um libré (sic) mais avarento, mais cobiçoso e escasso, leva um braço e outro braço, braços sem merecimento sempre abraçaram tormento, favores nunca abraçando; vai ferido e vai voando.
Os dois librés (sic) que ficaram, levaram boca e orelhas; boca, em que as abelhas mel de doçura criaram, orelhas que ouvir usaram disfavores, desde quando ficou ferido, chorando. Eis a Acteão, caçador de seus cãis próprios comido; eis este, de seu sentido, sentiu toda sua dor. Eis o triste amador feito caça; indo caçando, vem ferido e foi voando.
Capítulo Duodécimo 45
Ó sentidos tão sentidos, no sentir tão acabados, como sois mal atentados, de amor tão desconhecidos, do bem desagradecidos; do mal vos is agradando do Senhor, que vai penando. Depois se falou na praça, como é costume das gentes, que eram nomes diferentes e que era a garça graça; mudou-se o nome da caça, que seu caçador mudando, deixou ferido, acabando. Ele o seu não mudou; mas, pois, com penas subia, como ave de altenaria (117),
dizem que assi se chamou; pensamento sempre voou, mais que gavião caçando, pois nunca está descansando. Os nomes trocados são por morto vivo caçando, por graça garça chamando, e por falcão gavião. Na alta gávea, de paixão, com pena, vai vigiando,
por mar de mal navegando (118),
Ó vós outros amadores, n’alto lugar não ameis. por que tal queda não deis, como esta destes amores; d’alto vem maiores dores; n’alto está mais perigando quem vai ferido voando. Aénio, seu grande amigo, vai em sua companhia; vai-se, quando ele se ia; já o leva lá consigo; fica sem nenhum abrigo Filidor cá, só, chorando quem vai ferido voando.
Capítulo Duodécimo 46
Vai-se triste, degradado, com suas máguas tamanhas, a longes terras e estranhas, sem degradar seu cuidado; destas terras alongado, Filidor o vai buscando, um ferido e dois chorando.