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A relação casa-família-terra está sistematicamente presente nos discursos de memória dos antigos trabalhadores agrícolas. Situo conceptualmente a memória, recorrendo a alguns investigadores com contributos nessa matéria. Maurice Halbwachs é um autor incontornável, a quem se deve a afirmação da memória como objeto de investigação nas ciências sociais e a definição do conceito de memória coletiva. Nas obras Les

Cadres sociaux de la mémoire (1994 [1925]) e La Mémoire collective (1968 [1950]), Halbwachs distinguiu a memória da história, ao defender que aquela apenas retinha do passado o que permanecia aceso ou que persistia na consciência do grupo que a conservasse. O sociólogo transmitiu a ideia de estarmos fundeados em diferentes grupos (de parentesco, grupos profissionais, classes sociais ou grupos religiosos) que se situam no tempo e no espaço, enquanto categorias estáveis e dominantes, e que é a partir dos nossos quadros atuais de entendimento, partilhados com o(s) grupo(s) a que nos associamos, que reconstruímos o passado para o revivermos no presente.

Em 1980, o interesse pela questão da memória, com estudos realizados em vários campos disciplinares e discursivos, promoveu uma revisão do conceito de memória coletiva. Nesse debate participaram vários académicos, entre os quais Jörn Rüsen e Paul Connerton. Jörn Rüsen (2007, 2009) trabalhou a proximidade na relação entre a história e a memória. Apresentou a “cultura histórica” como um conceito abrangente e aglutinador de várias instituições enquanto lugares de memória coletiva,

na medida em que abordou o papel da memória histórica no espaço público. Nesse sentido, o autor considerava a “cultura histórica” uma síntese conceptual de fenómenos culturais distintos e uma articulação prática da consciência histórica na vida de uma sociedade. No ensaio Como Dar Sentido ao Passado: Questões

Relevantes de Meta-História (2009), o historiador e filósofo alemão classificou a memória como uma força móvel do espírito humano guiado pelos princípios do uso prático, numa relação imediata entre o presente e o passado, na qual participava a imaginação. Propôs ainda três modos distintos de se lidar com o passado: a “memória comunicativa”, que remente para a formação de diferenças geracionais a partir de uma mediação entre a autocompreensão e as experiências da mudança temporal (Rüsen 2009: 166); a “memória coletiva”, que a partir de uma seleção do passado representado conferia maior estabilidade à memória e um papel importante na vida cultural; e a “memória cultural”, já apropriada para rituais e atuações institucionalizadas (2009: 167), observada por exemplo em apropriações de ritos agrários por grupos de folclore ou na objetificação política da identidade rural. O autor apresentou ainda dois tipos de memória: a “memória responsiva”, responsável por compelir as pessoas a reagir, a interpelá-la e a superá-la; e a “memória construtiva”, como forma de dominar o passado.

Por fim, Paul Connerton (1999) introduziu ao conceito de “memória social” a componente da investigação da “memória incorporada” e sugeriu a sua análise por meio da realização de trabalho de campo com grupos, através da observação de performances como forma de conservação da memória no seio do grupo (Connerton 1999: 42). É com base nestes autores que analiso os discursos de memória dos trabalhadores sobre a habitação e o modo de vida rural. Afinal, como a investigadora Filomena Sousa afirmou:

As memórias têm classe, têm género, variam conjunturalmente e em escalas diversas – grupal, comunal, regional, nacional. Podem incomodar, ou dar alento, ficar retidas ou ser exibidas, serem reconstruídas e re-significadas, ou banidas e renegadas, utilizadas para libertar ou para capturar, por períodos mais ou menos duradouros (Sousa 2012: 21).

Se no universo dos proprietários e patrões agrícolas o suporte escrito, as fotografias e os objetos intervêm na construção das narrativas familiares, os trabalhadores agrícolas usam sobretudo a oralidade para transmitirem as suas memórias (Sobral 1999b: 77). À partida, parecem ter uma garantia inferior da sua

perpetuação no tempo. As suas lembranças sobre a relação casa-família-terra são narrativas autobiográficas tendencialmente curtas, um fenómeno muito comum nas sociedades rurais (Sobral 1995: 298). Estas construções apresentam características de “memória comunicativa” e da “memória coletiva”, segundo Jörn Rüsen (2009). Aproximam-se da “memória comunicativa”, porque enfatizam relações geracionais (estabelecendo comparações com os pais e com os filhos) num processo dinâmico de produção da memória. Estabelecem paralelos entre as condições de conforto das casas dos pais (onde nasceram e cresceram) e as casas que construíram, nas quais realçam melhorias. Mas também comparam as suas casas com as dos descendentes, verificando-se apreciações simultaneamente positivas e negativas, como se verá mais à frente. Os discursos não deixam, no entanto, de constituir uma “memória coletiva”, já que os indivíduos evocam os mesmos assuntos e os narram de forma idêntica (ritos agrários, rituais de passagem e práticas de higiene e alimentação), com efeitos na construção de uma visão organizada da vida cultural do grupo.

Nas narrativas do passado, identifico dois tipos de memória, em oposição, embora sejam frequentemente combinados no mesmo relato: memórias negativas, expressas nas narrativas de um passado de miséria, suscitando expressões de lamento, e memórias positivas, associadas à juventude, e rodeadas de sentimentos de nostalgia. As memórias negativas surgem em depoimentos com referências constantes à pobreza, prevalecendo a memória dolorosa (Sobral 1995: 299). Reportam-se a dificuldades económicas passadas e ao trabalho árduo nos campos, com descrições sobre as condições em que dormiam, as refeições escassas e pouco nutritivas, o desconforto nos meses frios, a ausência de iluminação, as limitações da higiene, de vestuário e calçado ou mesmo a desordem na envolvente da casa e a contaminação do interior com poeiras da rua. Mas estes indivíduos também evocam memórias positivas centradas nos períodos de juventude, mais do que quando passaram a ter casa própria, com responsabilidades acrescidas no agregado doméstico. Nelas há uma visão algo romântica sobre as condições de pobreza vividas e que “enfrentaram com ânimo”, combinando frequentemente expressões de miséria e alegria:

As casas agora estão melhor, era a casa e logo a estrada. Muito pó, sujava a roupa toda. Um cordel de uma oliveira à outra para estender a roupa… O que tenho mais saudades era dos bailaricos que fazíamos na eira… aos domingos à tarde. Era uma casa que dava para viver… não era nenhuma riqueza, mas era uma casa querida por toda a gente [Maria de Jesus, 79 anos, Fátima].

A construção das memórias familiares associadas à ocupação da casa aqui ensaiada assenta em relatos orais de pessoas com mais de 65 anos. Beneficiou especialmente da participação das mulheres, que em trabalho de campo se manifestaram mais expansivas, com produção frequente de narrativas biográficas na primeira pessoa. Nelas valorizam os rituais ligados aos ciclos da vida e rituais de passagem associados à família (cf. Zonabend 1980), evidenciando a componente fortemente doméstica do processo de rememoração (Fentress e Wickham 1992). Evocam ainda as vivências do quotidiano (como a limpeza e confeção de refeições), deixando transparecer o trabalho nos campos como um prolongamento do trabalho da casa e vice-versa. Comparativamente ao detalhe fornecido pelas mulheres, os homens que entrevistei não se alongaram em descrições sobre a casa como espaço de autorrepresentação, nem em narrativas da história familiar. Preferiam falar sobre agricultura e outras práticas laborais ou sobre a construção da casa e estruturas agropecuárias (custo e processo construtivo).

São comuns as referências aos espaços da casa e a momentos “de convívio” ligados ao trabalho, aos bailes, ao namoro, às sessões de lavores partilhadas pelas raparigas, a conversas e ao consumo masculino em adegas e tabernas. O fenómeno mnemónico, muito comum na velhice, é fortemente marcado por uma melancolia associada a processos de mudança e a conflitos que atravessam as memórias, com efeitos no enfraquecimento e na transformação de determinadas realidades sociais, nomeadamente nas vertentes agrícola e familiar e nas relações geracionais e de género (Sobral 1995: 293). Esta imagética regressiva e saudosista é envolvida por um discurso harmónico, mesmo com a alusão à pobreza, o qual projeta um passado mítico e idealizado, num processo de (re)construção identitária coletiva deste grupo social a partir de segmentos importantes do passado.