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O quotidiano doméstico, agrícola e social dos trabalhadores agrícolas oureenses regia-se por práticas do quotidiano (a alimentação, rotinas de trabalho e de descanso), ciclos agrários e festivos ou mesmo estratégias de reprodução individual e da aldeia. Em todas estas dinâmicas estava implícita uma relação de interdependência entre a casa, a família e o campo agrícola. A casa dependia da terra e a terra era apoiada pela casa, num circuito semifechado de autoprodução e autoconsumo em torno do

complexo constituído pela habitação, pelos edifícios agropecuários e pela terra agrícola. Os que não possuíam terra relacionavam-se com os patrões agrícolas numa posição subalterna de que dependia a sua subsistência, estando também por isso dependentes da terra.

A trilogia casa-família-terra está assinalada em estudos antropológicos e sociológicos. Em meados do século XX, Ernesto Veiga de Oliveira e outros etnólogos que se debruçaram sobre a vida rural, classificaram a casa como um instrumento agrícola adaptado às necessidades de exploração da terra, “nomeadamente no que se refere ao seu dimensionamento e à importância e distribuição relativa dos alojamentos das pessoas, dos estábulos e das lojas de arrumação das alfaias e ferramentas da lavoura” (Oliveira e Galhano 1994: 13). Na década de 1970, José Cutileiro (1977), na análise à estrutura social no Alentejo, sublinhava a importância da posse e distribuição de terra e a relação da propriedade com a organização familiar. Nesse período, Carlos de Almeida, escrevendo sobre a habitação rural num espaço geográfico mais próximo de Ourém (Estremadura e Ribatejo), salientava que a implantação, a configuração arquitetónica e a distribuição interna das casas eram definidas em função da agricultura enquanto atividade económica dominante (Almeida 1978: 63).

Nos anos 1980, o norte do país foi um terreno privilegiado para o estudo desta relação entre a casa, a terra e a família. Em 1984, o antropólogo Brian Juan O’Neill publicou Proprietários, Lavradores e Jornaleiras: Desigualdade Social numa Aldeia

Transmontana, 1870-1978, sobre estruturas familiares do campesinato, onde abordava o casamento e os sistemas de herança e sucessão. Um ano depois, Paula Godinho apresentava em tese de mestrado O Leito e as Margens: Estratégias

Familiares de Renovação e Situações Liminares no Alto Trás-os-Montes Raiano, estudo publicado em 2006, no qual se aborda a extensão social da casa, em seis aldeias, ao longo de um século. Ainda no contexto nortenho, João de Pina-Cabral (1989: 60, 65-66), em investigação sobre a sociedade camponesa no Alto Minho, reiterou a interdependência entre a casa, o habitante e a terra. Pina-Cabral afirmava que a diferença na conceção do que chamou “unidade social primária” radicava no facto de os camponeses incluírem na mesma noção de casa as esferas do económico e do familiar e que a casa funcionava como unidade de produção, propriedade, reprodução e consumo. Manuel Maria Diogo (1994) também explorou esta correlação

em terras de Miranda, com a casa a aparecer como unidade orgânica em relação com o meio físico circundante, numa continuidade de opções das gerações antecessoras. Segundo o autor, a dimensão funcional da casa respondia às condições necessárias à atividade agrícola e, ao mesmo tempo, era consequência do tipo de exploração desta economia de subsistência (Diogo 1994: 115-116). Em 1999, esta inter-relação voltou a estar presente no estudo de José Manuel Sobral (1999a) sobre as relações entre os residentes do campo e da vila e estratificação social na região beirã. Já em 2007, foi retomada por João Vieira Caldas, em território algarvio, local escolhido para a sua dissertação de doutoramento sobre a arquitetura rural, na qual cruzou as perspetivas histórico-social e tipológica para as áreas da habitação, analisando a sua relação com as dependências e espaços de apoio, lazer e atividades produtivas.

Estes e outros contributos evidenciam a transversalidade regional da trilogia casa-família-terra em espaço rural e convergem para a tese da casa rural do camponês como espécie de “alfaia agrícola” ou “instrumento agrícola”, segundo Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (1994). Confirmam também que a organização dos espaços e as dinâmicas familiares do núcleo doméstico estavam alinhadas com o modelo de gestão dos campos, com formas próprias em cada território, como verifico em Ourém. Enuncio alguns aspetos ilustrativos. A orgânica funcional comum das habitações (com a sequência: alpendre, cozinha e depois os espaços reservados) facilitava o circuito assíduo entre a terra agrícola e a casa, já que os dois primeiros espaços interiores apoiavam, prolongavam ou concretizavam tarefas iniciadas no campo. O alpendre era usado para a secagem de alguns produtos e arrumação de utensílios e indumentária de uso agrícola, e a cozinha como área de preparação e consumo do que era produzido na terra. Essa comunicação privilegiada com a rua e os campos legitimava, por isso, a sujidade e o desarrumo dos mesmos.

A construção da habitação e os seus usos eram conciliados com os ritmos e calendários agrários, com primazia da faina agrícola, que condicionava o agendamento da construção, mas também ações do quotidiano já habitado, como a limpeza dos espaços interiores, o tratamento das roupas ou o conserto de alguma mobília ou estrutura. Paralelamente, a diversidade dos anexos agropecuários demonstra a adaptação da construção aos materiais naturais disponíveis e às necessidades de acondicionamento dos produtos e alfaias agrícolas. A sua disposição em volta da habitação conferia-lhes ainda um papel na interlocução com os campos.

Por seu lado, o pátio também expressava a relação casa-campo ao servir como depósito de lenha e de estrumeira para fertilizar os terrenos de amanho. Mesmo a fronteira entre o espaço ornamental da casa, o jardim e a horta era ténue, por vezes indefinida, e regida por uma rentabilização do solo arável disponível. Finalmente, a relação da família com os campos estava sustentada na tendência para famílias numerosas, com vantagens no reforço da mão-de-obra ao serviço do trabalho agrícola, em que a dimensão exígua dos espaços não era obstáculo.

Os filhos participavam desde cedo em tarefas simples da faina agrícola e em lides da casa e contribuíam com os seus rendimentos (Pina-Cabral 1989: 76). Assim que tinham trabalho remunerado, entregavam o rendimento ao chefe de família que o geria em função das prioridades, como a compra de um “bácoro”147 ou a construção da casa e o casamento de um irmão mais velho. Para além da distribuição em função das idades, as tarefas eram repartidas sexualmente de acordo com normas socialmente convencionadas. Aos homens cabia assegurar o sustento da casa e as tarefas de maior risco, força e que implicassem saber especializado na relação com a terra. Ocupavam- -se do gado de lavoura e dos trabalhos de preparação da terra para as sementeiras, da enxertia, da poda da vinha e das árvores de fruto (cf. Pina-Cabral 1989: 110). As mulheres casadas geriam a casa (as roupas, a alimentação, a higiene, os animais de criação) e o crescimento dos filhos, executavam tarefas agrícolas de rotinas mais regulares e ligadas aos “produtos da terra” e assistiam os maridos nos trabalhos mais complexos. O casal trabalhava frequentemente junto no campo, mas sem executar as mesmas tarefas e ambos eram cogestores da casa, formando o núcleo estável da unidade produtiva e assegurando os serviços indispensáveis à sua manutenção (Pina- -Cabral 1989: 111; Sobral 1999a: 229).

O trabalho agrícola assentava na produção agrícola em função das necessidades de consumo e a importância do tempo consumido na execução das tarefas era relativa, pois a extração dos rendimentos agrícolas, essenciais para a substância indispensável à reprodução da família, não tinha em consideração o número de horas e de jornadas de trabalho necessários (cf. Medeiros 1976: 299). Com um padrão de subsistência e de rotinas circunscrito a um circuito espacial localizado, os trabalhadores agrícolas mantinham uma ligação forte com a restante coletividade (Mendras 1976: 12). Cooperavam nas dinâmicas da aldeia, participando na

preparação e dinamização das festividades dedicadas ao orago da aldeia, bem como nas procissões com preces à bonança das colheitas. Cooperavam ainda com vizinhos em certas tarefas agrícolas cíclicas anuais, em reciprocidade, conciliando a celeridade do trabalho com o reforço de laços de coesão entre vizinhos. Todavia, a generalidade das funções agrícolas era cumprida pelos elementos do agregado familiar.

Estratégias de subsistência, rituais de passagem e rotinas dos trabalhadores agrícolas estavam ancorados na relação entre o campo (solução de sobrevivência), a casa (habitação e anexos enquanto espaço de segurança e regeneração) e a família (garantia da continuidade da produção agrícola e da reprodução individual). Como já defendi, nessa perspetiva é impossível pensar a arquitetura doméstica rural dissociada da família e da terra e, em alguns aspetos, também da comunidade, embora a sua dimensão não tenha o mesmo peso.