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Proposed Terms of Reference for the 2006 WGFTFB Meeting

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15.10 USA

16.1.2 Proposed Terms of Reference for the 2006 WGFTFB Meeting

Durante o período que acompanhei as atividades da Casa Blanca, notei que o tipo de performance drag predominante é o da dublagem acompanhada de coreografia. Esse “estilo” destoa daquele conhecido como “bate-cabelo”. O bate- cabelo também se trata de um tipo de coreografia, porém tem como fator preponderante o chacoalhar da cabeça que causa um vai e vem da peruca/picumã. Esse ato toma a maior parte da apresentação, ofuscando outros movimentos, como uma coreografia ou até mesmo uma dublagem dramática.

Não se conhece ao certo a origem do bate-cabelo, entretanto as drags com as quais eu tive contato, principalmente as mais experientes, comentam que o show de bate-cabelo ficou conhecido através da drag paulistana Márcia Pantera. Ela foi uma das primeiras drag queens no Brasil, acumulando atualmente 30 anos de

carreira, e é uma expert em performances de bate-cabelo. Daí o público geralmente associar o surgimento dessa prática aos seus shows.

O cabelo carrega várias simbologias que talvez justifiquem sua grande estima no universo drag. A começar pela mitologia judaico-cristã que nos conta que um grande guerreiro, Sansão, foi abatido pelo cabelo, que, nesse contexto, simboliza força e soberania. O cabelo na modernidade pós-revolução industrial é um signo de beleza e de padronizações. Os modelos de cabelo apregoados pela mídia contemporânea: sedosos, lisos, hidratados, longos ou curtos dependendo da moda, é a verdadeira moldura da beleza. Não diferente no universo drag, que tanto preza pela beleza e excelente finalização na montagem (ou seja, fazer parecer àquela montagem o mais real possível), não poderia desconsiderar um elemento tão central para a beleza quanto o cabelo.

O cabelo drag é na maior parte das vezes sintético construído por fios de náilon tingido. A peruca/picumã varia de qualidade dependendo da qualidade desse fio, do volume de fios, da sua distribuição uniforme ao longo das camadas costuradas na touca, do famoso “laço frontal” ou front lace que simula um perfeito acabamento do couro cabeludo dando a impressão de que a peruca/picumã é um cabelo “de verdade”, “natural” ou “biológico”. Uma peruca/picumã dessa qualidade é encontrada para importação na faixa de R$ 200,00 e para compra em lojas nacionais entre R$ 450,00 e R$ 600,00. As raríssimas perucas/picumãs de cabelo humano, geralmente usadas por pessoas geneticamente carecas ou que possuem alguma doença que provoque calvície, também são encontradas no universo drag para as queens mais abastadas.

A performance bate-cabelo é acompanhada de uma música estilo house, com notas agudas. Ela é composta por uma dança inicial provocativa e irreverente em que a drag encara e instiga o público para finalmente dar sequência a um bate- cabelo frenético. Que pode ou não ser acompanhado de dublagem (tendo em vista que muitas músicas bate-cabelo possuem apenas batidas e quase nenhuma voz cantada). É até plausível considerar que a performance bate-cabelo abre uma exceção para ausência de dublagem, pois em alguns casos se resume ao chacoalhar da picumã e não se demora em dublagens ou outros elementos, mas apenas nisso.

Raras ocasiões a performance do tipo bate-cabelo aparece na Casa Blanca. Pois as drags desse cenário são em sua maioria neófitas na arte da montação. Influenciadas pelo RPDR, as drags apostam na dublagem-drama- coreografia com ênfase em espacates (splits) e death drops.

Essas drags praticamente refazem os icônicos lips-yncs americanos, porém com diferenças de contexto. Por exemplo, nos Estados Unidos as drags costumam receber dinheiro dos espectadores enquanto executam sua performance, sendo que isso não acontece no Brasil. Apesar das drags fortalezenses neófitas refazerem a trilha de atos corporais interpretados pelas americanas, a performance em si (devido à diferença de contexto) já acontece com diferenças notáveis.

O bate-cabelo brasileiro pode ser comparado com a cabelografia que por vezes é utilizada pelas norte-americanas, porém em raras ocasiões. Esse último é um estilo de dança, geralmente sensual, em que se usa o cabelo (peruca/picumã) com parte da coreografia, jogando-o para um lado e para o outro de acordo com o movimento do corpo. Esse tipo de dança cabelográfica é diferente do bate-cabelo devido à frequência com que se chacoalha a cabeça para fazer voar o picumã pelo ar. No bate-cabelo, o movimento é frenético, na cabelografia, ele é pausado e sensual.

A picumã no contexto drag é um elemento central tanto na montagem da aparência quanto na composição da performance. Uma drag que se preze tem que garantir que sua picumã esteja o tempo todo fixada na cabeça independentemente da situação. Coelho (2012) constatou que a drag que deixava a picumã cair sofria uma perda de prestígio que podia até mesmo acarretar no fim de sua carreira. No momento da minha pesquisa, essa constatação se aplica, porém de forma parcial.

O “tabu” sobre a queda da picumã ainda ronda o meio drag, entretanto é notável que essa queda sofreu uma ressignificação. O cair da picumã durante uma performance de bate-cabelo, por exemplo, significa que a drag não teve o cuidado de prendê-la corretamente segundo as técnicas usuais para isso, nesse caso a perda de prestígio é iminente. Em casos de desentendimento em que uma drag propositalmente puxa a picumã da outra com intuito de fazê-la passar vergonha, caso a picumã venha mesmo a cair, a drag vítima do ataque sofre então a perda de prestígio. Já em outros cenários em que a drag escolhe voluntariamente tirar a

picumã ou sair montada usando seu próprio cabelo, por mais curto que seja, há margem para que se entenda a atitude como avant-garde e revolucionária.

Pensemos no exemplo da Vaginal Creme Davis analisado por Muñoz (1999) para refletir sobre a potência da drag terrorista, pois ela afronta os designíos do que é padrão na drag, na homossexualidade e no movimento negro. Ela não busca se montar segundo os desígnios padrões da drag queen convencional/tradicional. Ela não quer parecer uma mulher, muito menos uma comediante. Quer colocar um batom e sair na rua com seu black power. Davis dispensa o uso da peruca/picumã, e pretende usar isso como uma potência revolucionária de desconstrução do gênero e da drag.

Assim como Davis, algumas drags locais se arriscam a sair sem picumã. Exemplo disso é Dadá que por muitas vezes encontrei na rua apenas maquiado usando brincos enormes de argola. Ele/ela não se importa em parecer homem ou mulher, ou apenas um meio termo entre os dois.

Já outro contexto é quando a drag deixa a picumã cair acidentalmente. Um exemplo é a ocasião em que a drag Pabllo Vittar deixou a peruca/picumã cair durante uma apresentação em um desfile de moda. A atitude para muitos foi considerada como grosseira e descuidada, entretanto, para outros, que enxergam na Pabllo uma potência revolucionária, viram ali uma afronta aos padrões drag e até mesmo a sociedade heteronormativa. Então, dependendo do contexto, a queda da peruca/picumã pode ser fatal ou vetor de desconstrução de tabus.

Fotografia 1 – Pabllo Vittar

Durante as observações que fiz nas casas noturnas, percebi que: se a característica marcante, assinatura, das drags-divine é o bate-cabelo, o que marca as drags neófitas é a cultura dos bailes e das apresentações com espacates, death drops e voguing dance. Além de influências estéticas assimiladas e reproduzidas na maquiagem, nas roupas, nos tipos de penteados etc.

Um dos estilos de dança que é largamente utilizado pelas drag queens que competem no RuPaul’s Drag Race é o voguing dance. Esse estilo de dança é herdeiro das casas noturnas nova-iorquinas dos anos 1980/90. Consiste basicamente em expressões corporais sincronizadas com batidas musicais de tal maneira que os movimentos sejam extremamente alinhados e combinem perfeitamente com a batida. Geralmente a posição dos braços, pés, mãos e cabeça formam figuras geométricas e lembram as combinações de golpes marciais usados pelos lutadores de caratê, sumô e outras lutas orientais. Devido a isso a casa noturna que abrigava shows com esse tipo de dança ficou conhecida como “Ninja”, na Nova York dos anos 1990.

Porém, a verdadeira referência a qual a dança remete são as modelos das capas da revista de moda “Vogue”. Os intérpretes do estilo de dança voguing dance imitavam as poses feitas pelas modelos retratadas na revista. Tal fato se dava em uma tentativa de simular o glamour e luxo que elas exalavam em suas roupas de alta-costura e suas joias de alto valor. Esse contexto combinava perfeitamente com a tendência das drags que se apresentavam nessas casas noturnas em reproduzir uma estética corporal e performática inspirada nas top models. Os desfiles, as competições, o vogue dancing, tudo isso era uma reprodução do mundo da moda no microcosmo da performance drag e travesti.

O voguing dance compõe parte da tradição norte-americana do gueto negro e gay, então para eles o que se configura como tradição, para as drags alencarianas se configura como uma novidade. Sua estética e performance é enraizada na cultura americana, tendo em vista que faz parte da produção sócio- histórica das drag queens em solo estadunidense. Dessa forma, o voguing dance é representada de formas diversas na cultura e até mesmo no mainstream e na televisão. É o caso do que acontece no contemporâneo reality show RuPaul’s Drag Race. RuPaul é uma drag queen que vivenciou a experiência das casas noturnas de

Nova York dos anos 1980/90, portanto assimilou e reproduziu a tendência do voguing dance.

O documentário Paris is Burning, que retrata o cenário em que os bailes e sua cultura estiveram em ascensão, é constantemente citado no programa de RuPaul. Tais fatos, e o consumo do reality show no Brasil, me levam a realizar paralelos e encontrar pontos em comum entre a performance drag comercializada na TV e as performances vivas que observo na prática. Essa constatação se deu e ficou evidente a medida que fui me aprofundando no campo de estudo, ao observar e reproduzir as práticas, estéticas e tendências que me eram apontadas.

Essa cultura em viagem é mediada, sobretudo através da mercantilização empreendida pela TV nas suas investidas em cooptar a drag. Essa captura é essencialmente moldada para transformar a alteridade em um produto limpo, polido, bem finalizado e palatável ao público de massa. Se por um lado o mainstream dissemina para milhões de pessoas ao redor do mundo uma cultura subalterna e marginalizada, por outro a “deteriora” ao transformá-la em algo aceitável aos padrões da “moral e dos bons costumes”, usando muitas vezes o humor, riso e paródia como formas de facilitar a recepção nos públicos mais conservadores (dessa forma estaria mais reproduzindo do que subvertendo a ordem vigente).

É inegável a presença de estilos diferentes dentro do universo drag contemporâneo na cidade de Fortaleza e que ele já não é mais o mesmo que foi pesquisado por Coelho (2012) e Gadelha (2009), tendo em vista toda uma mudança da configuração espacial das festas (a começar pelo fechamento da boate Divine) e pela influência da recepção do reality show RuPaul’s Drag Race na nova leva de drag queens que surgiram na cidade nos últimos dois anos.

A seguir trago uma reflexão teórica sobre os conceitos que estão sendo utilizados nesse texto, sua relação e utilidades para compreensão do contexto estudado. Vejamos a seguir.

3. LINGUAGEM, PERFORMATIVIDADE E PERFORMANCE: UMA TRILHA PELO

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