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A família sempre foi representada na história brasileira como a instituição que moldou os padrões da colonização e ditou as normas de conduta e de relações sociais desde o período colonial. No entanto, até há algumas décadas, ainda pouco se conhecia sobre o perfil dessa família, predominando na literatura uma imagem vinculada ao modelo patriarcal extraído da obra de Gilberto Freyre, Casa grande e

senzala (FREYRE, 1973), escrita no início do século XX.

Assim, a família composta por pai, mãe e algumas crianças vivendo numa casa, ou seja, o modelo da família nuclear burguesa, às vezes, não se adapta a outras

realidades, nas quais há configurações distintas diante da necessidade adaptativa das famílias.

Corrêa (1981), discutindo a trajetória da família no Brasil, diz que sua reconstituição não deve se ater somente à história das famílias dos grupos dominantes, história da casa grande tendo como apêndice a senzala. A autora acrescenta que, no Brasil existiram diferenças importantes na organização familiar de outros grupos sociais, tais como entre escravos, grupos vinculados à mineração, comerciantes, entre outros. Essas diferenças dizem respeito à organização da vida privada relacionada às condições de trabalho e da própria vida desses grupos.

A virada do século XX, de acordo com Pereira (2003, p. 224) caracteriza-se pela quebra de uma estrutura milenar ao romper-se a ideologia patriarcal, na qual os lugares de pai, mãe e filhos são bastante claros e demarcados. Com o declínio desse modelo padrão de família, os lugares estruturantes e constituintes dos sujeitos, como função, ficaram alterados, gerando consequências e novas configurações nas formações das famílias atuais.

Ainda seguindo o autor, uma das mais relevantes consequências da queda desse modelo patriarcal foi o redimensionamento do masculino e da função paterna no novo contexto do pós-patriarcalismo.

Em meio a esse processo social e histórico, as mudanças advindas da industrialização, do aumento da vida urbana e do fluxo imigratório também incidem diretamente na estrutura das famílias, gerando novas configurações familiares. Assim, na modernidade, torna-se necessário compreender melhor a dinâmica entre contexto social, histórico e cultural. A crise, a busca e a criação de soluções vividas pelas famílias nas diferentes camadas da sociedade tiveram como consequências as transformações e as novas configurações familiares. De acordo com Filgueiras et

al. (1995) para se compreender a família como um todo, é necessário focar sobre os

vínculos de autoridade, de afetividade e as práticas existentes em cada tipo de família. Assim, nessa diversidade de forma e conteúdo, os modelos de famílias devem prover um sistema de regras que facilite e defina:

b. a divisão de trabalho e a divisão interna de papéis, que facilitem a sobrevivência do grupo e a manutenção do domicílio, papéis que sofrem também variações culturais;

c. a vivência da sexualidade e da afetividade; d. a relação entre parentes.

A classificação das famílias dos adolescentes agressores envolvidos no fenômeno

bullying seguiu o modelo da classificação encontrada em uma pesquisa realizada

em Belo Horizonte, pelos autores acima, os quais pesquisaram famílias de crianças e adolescentes e encontraram nove tipos de famílias considerados significativos por sua incidência estatística (ANEXO A).

Diante da riqueza dessas configurações familiares, Szymanski (2007, p.23) concorda que elas não correspondem ao modelo padrão mencionado anteriormente. Muitas vezes, devido a esse distanciamento da família modelo, essas novas configurações familiares eram chamadas de “desestruturadas” ou de incompletas. A autora acrescenta que, devido a essa não correspondência ao modelo, consideravam-se que os problemas emocionais das crianças e dos adolescentes poderiam advir da “desestrutura” ou “incompletude”. Portanto, o foco tornara-se a estrutura das famílias e não a qualidade das inter-relações.

Vianna (2002) acrescenta que, ao estudar-se cientificamente a família, compreende- se melhor a estrutura das sociedades e seu desenvolvimento político, econômico e sociocultural. A autora ressalta a importância de se estudar a organização familiar, que varia de uma sociedade para outra, de uma classe para outra, em uma mesma sociedade.

Sarti (2000) acrescenta que a família não é uma instituição homogênea, mas uma totalidade com um universo múltiplo de relações e que as mudanças recentes nos padrões de convívio familiar afetaram as relações internas da família. De acordo com essas perspectivas, Groeninga define a família como:

Um caleidoscópio de relações que muda no tempo de sua constituição e consolidação em cada geração, que se transforma com a evolução da cultura, de geração para geração. [...] a família é sistema de relações que

se traduz em conceitos e preconceitos, ideias e ideais, sonhos e realizações. Uma instituição que mexe com nossos mais caros sentimentos. Paradigmática para outros relacionamentos, célula mater da sociedade (2003, p.126)

Assim, nesse cenário de extrema mobilidade das novas configurações familiares, formas alternativas de convívio vêm sendo improvisadas pela necessidade de se criar os filhos, frutos de uniões amorosas temporárias que nenhuma lei (de Deus ou dos homens) consegue mais obrigar que se tornem eternas (KEHL, 2003, p.165). Nesta pesquisa, as diferentes famílias dos adolescentes envolvidos no bullying, encontradas no decorrer da sua participação dos grupos de discussão e das entrevistas realizadas, muito contribuíram para a compreensão da dinâmica das novas configurações familiares que se apresentam na atualidade e, ao mesmo tempo, compreender as suas representações sociais relativas ao fenômeno.