2.3 R ISK MANAGEMENT IN PETROLEUM INDUSTRY
2.3.3 Proof Testing
Segundo Pelbart (in Rago, Orlandi, Veiga-Neto, 2002), Foucault conceberia a relação entre literatura e loucura a partir do referencial proposto por Blanchot, segundo o qual a literatura seria o lugar de uma experiência originária e, paradoxalmente, de uma linguagem sem origem que fundaria um “espaço rarefeito que põe em xeque a soberania do sujeito” (p.290). É dessa perspectiva que parte Foucault ao revisitar os autores cuja leitura foi proposta por Blanchot: Sade, Hölderlin, Lautréamont, Nietzsche, Artaud. Esses autores expressariam a persistência de uma “experiência trágica encoberta pelo
surgimento da loucura enquanto fato social, objeto de exclusão, de internamento, de intervenção” (p.290). Como vimos, foi nessa experiência trágica - advinda do encontro do pensamento sobre o literário com a filosofia de Nietzsche – que Roberto Machado pôde localizar o ponto de apoio da crítica de Foucault aos saberes e à linguagem psiquiátricos. Pelbart situa esse procedimento de Foucault através da pergunta “como fazer para que a desrazão, na sua alteridade irredutível, na sua ‘estrutura trágica’ interrogue o nascimento da própria racionalidade psiquiátrica que a reduziu ao silêncio ao convertê-la em loucura?” (p.291). Essa experiência seria o fundamento normativo da crítica de Foucault (Machado, 2005).
A irrupção dessa experiência, bem como a instauração dessa linguagem - circular, autorreferente e infinita, fundadora de um espaço que só pode ser exterior em relação aos limites de nossa cultura - seriam fundamentalmente formas de transgressão. Segundo esses dois aspectos, como vimos, a experiência da literatura e a experiência da loucura estariam caminhando para um encontro efetivo de suas linguagens. Esse encontro, como explica Pelbart, se daria, segundo Foucault, na “proliferação em direção a uma exterioridade nua”, numa “linguagem como murmúrio incessante destruindo a fonte subjetiva de enunciação” (2002, p.291) e, além disso, afirmando seu próprio código e sua própria estrutura naquilo mesmo que ela diz. Trata-se daquilo que Foucault referiu como um discurso que não podia ter outro conteúdo que a própria expressão de sua forma (Rajchman, 1987, p.19).
Com essa visão da linguagem que aparecia na nouvelle critique, na escritura modernista e nas “obras de vanguarda”, Foucault buscava uma espécie de “ontologia formal da literatura”, a partir da qual seria possível inventariar as diferentes formas pelas quais as obras de arte literárias teriam adotado linguagens referentes a si mesmas. Perguntava-se o filósofo, em “Linguagem ao infinito”, “se não seria possível fazer (...) uma ontologia da literatura a partir desses fenômenos de auto-representação da linguagem?” (2006a, p.50). Essa linguagem redobrada, autorreferente, circular seria, por sua vez, própria à caracterização de uma arte modernista, que “volta-se para os seus próprios meios e materiais básicos” (Rajchman, 1987, p.16), colocando-se em questão a partir de seus próprios critérios, valores e problemas. Há em Foucault uma espécie de mito da transgressão e da resistência situado nessa expressão artística moderna. A arte faria parte de uma alegoria filosófica na qual se confrontariam a transgressão e o interdito, a resistência e a repressão. Gary Gutting (1994) apresenta o movimento
político de Foucault definido pelo abandono gradual desses mitos estéticos, desses avatares de uma persistência de uma forma autêntica, reprimida por uma ordem moral burguesa. Esse abandono se faz em nome de uma transposição dos dois valores que seriam fundamentais a essa ética da transgressão que Foucault retira dos artistas loucos – segundo Gutting, transgressão e intensidade – para o plano das lutas políticas concretas do presente, das minorias, dos excluídos, fora do âmbito da arte. A estética aparecerá então como o uma forma de dar conta da necessidade de criação de modos de vida e possibilidades de existência que possam resistir aos poderes e a dominação.
Peter Pál Pelbart também nos apresenta essa mudança de perspectiva, a partir da qual Foucault abandona uma ontologia da loucura e uma estética vinculada às formas de manifestação e irrupção de sua existência e resistência na linguagem.
Segundo o autor, Foucault partiu, na História da loucura, da constatação de Blanchot de que “a existência da loucura”, confiscada de uma realidade anterior da desrazão, “responde à exigência histórica de enclausurar o Fora” (2002, p.289). Pelbart havia abordado anteriormente essa questão de modo semelhante em seu livro Da
clausura do fora ao fora da clausura, onde argumentava que, de certa forma, a história da loucura, ou seja, a história da redução de uma desrazão-sujeito-de-si a uma loucura objeto do saber e do poder médicos, corresponderia a um processo pelo qual a sociedade teria empreendido uma espécie de metabolização do Fora, enclausurando-o em seu interior. Entretanto, no texto “Literatura e loucura”, a proposta de Pelbart parece ser aquela de atribuir um novo sentido a esse enclausuramento do Fora, de modo a visualizar sua assimilação a um mundo marcado por relações de poder das quais não se pode estar fora (sendo assim, portanto, uma questão histórica: a exigência de encalusurar o Fora teria se efetivado na configuração histórica dos modos exercício do poder). Desse modo, é possível delinear uma mudança no cerne do pensamento de Foucault relativo à concepção desse Fora.
Pelbart tem em mente uma virada na interpretação foucaultiana do poder, no que diz respeito à questão da interioridade e da exterioridade das relações. Apresenta, assim, a posição de Michael Hardt que, juntamente com Antonio Negri, escreveu Império. Segundo Hardt, estaríamos vivendo uma época na qual o capitalismo seria uma realidade sem exterior. O império seria esse mundo que aboliu toda a exterioridade, um mundo sem fora (Pelbart, 2002, p.293). A percepção de Hardt, segundo Pelbart, estaria
baseada em uma inflexão no presente, como também no próprio pensamento de Foucault, segundo a qual o Fora perde os resquícios de transcendência, de algo oposto a um dentro (da cultura, da sociedade, do limite, do poder). Assim, Foucault descaracterizará a ideia de uma Exterioridade absoluta, incapturável pelo poder, que antes havia cumprido um papel fundamental em sua obra – principalmente nos escritos sobre literatura e na História da loucura. Pelbart referencia essa autocrítica do pensamento de Foucault no texto “L’extension sociale de la norme”, de 1976. Nesse texto Foucault afirma:
É ilusão crer que a loucura - ou a delinquência, ou o crime - nos fala a partir de uma exterioridade absoluta. Nada é mais interior à nossa sociedade, nada é mais interior aos efeitos de seu poder do que a desgraça de um louco ou a violência de um criminoso. Dito de outra maneira, sempre se está no interior. A margem é um mito. A palavra do fora é um sonho que não se cessa de retomar (...). E eles [os "loucos"] estão tomados na rede, eles se formam e funcionam nos dispositivos do poder130.
Essa inflexão seria o próprio ponto de ruptura – ou torção – entre a arqueologia e a genealogia, a partir de uma constatação de que sempre se está no interior de um campo de relações móveis de força, isto é, de relações de poder. Nesse sentido, tanto poder como resistência seriam constituídos na economia imanente das relações de força, sem uma distinção qualitativa ou sem qualquer relação de exterioridade ou transcendência entre poder e resistência. No trecho de Foucault vemos uma rejeição de diversas das temáticas que parecem ter orientado seu trabalho no período próximo ao da escrita da História da loucura. A própria ideia de uma voz da loucura que pudesse nos falar desde outro lugar, desde fora das capturas históricas, transgredindo-as, parece ter sido abandonada. Essa margem absoluta, a partir da qual algo sempre escapa aos jogos e as estratégias do poder é um mito. Trata-se de um mito cuja manutenção não interessa mais a Foucault. Talvez exatamente pelo fato de pensar o poder segundo o modelo filosófico dessa exterioridade, tinha conduzido Foucault não só a repor de algum modo um modelo transcendente, que tentava evitar, como também o tinha aprisionado em uma noção repressiva de poder. Afinal, o poder repressivo, manifesto naquilo que Foucault referiu como “hipótese repressiva”, não seria justamente aquele que mantém com seu
130 C’est illusion de croire que la folie – ou la délinquence, ou le crime – nous parle à partir d’une extériorité absolue. Rien n’est plus intérieur à nottre societé, rien n’est plus intérireur aux effets de son pouvoir que le malheur d’un fou ou la violence d’un criminel. Autrmenent dit, on est toujours à l’interieur. La marge est un mythe. La parole du dehors est un rêve qu’on ne cesse de reconduire (...). Et ils [les « fous »] sont pris dans le réseau, ils se forment et fonctionnent dans les dispositifs du pouvoir (Foucault, 2001, p.77). Realizei a tradução tomando como ponto de partida aquela de Pelbart (2002).
objeto uma relação de exterioridade? Não seria justamente um poder que vem de fora, que encontra o objeto sobre o qual se aplicará já constituído, previamente à relação entre eles, de modo que sua função máxima poderá ser reprimir ou extinguir esse objeto? E a resistência não estaria presa em uma espécie de mito que olha para o poder de modo puramente pessimista, confiando em uma instância primeira onde tal poder não existiria e para a qual conviria voltar? São questões que cabe aqui registrar. Nem teríamos condições de respondê-las no âmbito desse trabalho. Basta que coloquemos mais alguns elementos para podermos futuramente pensar essa mudança que a noção de Fora sofre no pensamento de Foucault, e juntamente com ela, por exemplo, as noções de loucura e literatura.
Em 1961, Foucault chamava atenção para o grande fato estético que aproximava as linguagens (“estruturalmente herméticas”) da loucura e da literatura, para o “grande protesto lírico” que ele via como esforço dos grandes artistas trágicos “para tornar a dar à experiência da loucura uma profundidade e um poder de revelação que haviam sido aniquilados pela internação” (2010b, p.163). Em 1976, como vimos sua posição mudará. Essa mudança tem um aspecto político fundamental que toma forma de uma dúvida, para Foucault, em relação ao poder subversivo da escritura literária. Ainda que continue estimando as figuras daqueles que para ele foram os grandes “heróis míticos” – utilizando a expressão de Gutting – da História da loucura, como Hölderlin e Sade, o filósofo suspeita, como mostra John Rajchman (1987), que os escritores que proclamam que toda escrita é subversiva, estão na verdade argumentando em favor da preservação de seu lugar social privilegiado, distanciado das lutas sociais concretas. Tais escritores, estariam “despachando-se da atividade política” (2010b, p.243). Pergunta Foucault, em 1970:
Será que a função subversiva da escrita subsiste ainda? A época em que só o ato de escrever (...) bastava para expressar uma contestação, no que diz respeito à sociedade moderna, já não estaria acabada? (...). Agora que a burguesia, a sociedade capitalista desapossaram totalmente a escrita (...) não estaria o fato de escrever apenas reforçando o sistema repressivo da burguesia? Não seria preciso parar de escrever? (2010b, p.244).
Nesse trecho é possível perceber a desconfiança que Foucault nutrirá, nos anos 1970, em relação às pretensões subversivas da escrita.
Para esse Foucault que escreve nos anos 1970, a mudança social não pode vir de um movimento estético no âmbito da linguagem, pelo contrário: a linguagem só poderá
se alterar quando se alterarem as relações sociais concretas. A literatura perde sua função de subversão social. Esses questionamentos são expressos por Rajchman (1987, p.13-15) e caberá voltar a eles em breve.
Essa suspeita em relação à literatura se vincula com uma mudança na forma de conceber o poder que, como mostrou Pelbart (2002), procedeu por uma espécie de imanentização. Assim, sempre se estaria dentro das relações de força e em confronto com elas: formando novas relações, sendo solicitado e formado também por elas. Assim, a exterioridade, antes marcada pelo signo de uma distância que a aproximava da transcendência, será, no período genealógico, vista como “Fora imanente”. O fora imanente seria aquele grande campo de forças no qual estamos, e para fora do qual não podemos ir. Tudo é interior, mas estamos sempre no interior desse Fora imanente. Arriscaríamos aqui supor que há, por parte de Foucault, uma substituição de uma interpretação da noção de Fora a partir daquela ideia de uma Alteridade fundamental, que localizamos em Blanchot, pela ideia de um Fora como superfície de jogos e relações de força, onde poder e resistência confrontam-se continuamente na tentativa de alterar a economia dessas relações de força131. Ora, nem mesmo a loucura - antes exterioridade absoluta - permanece preservada das redes do poder. Os próprios loucos, Foucault nos diz em 1976, seriam produtos dessas redes e dessas relações: essa mudança põe um grande desafio à História da loucura132.