• No results found

3.5 M ULTIOBJECTIVE O PTIMIZATION OF S PECIFICATIONS OF SIS

3.5.2 Objective Functions

Conforme explica Aurelia Armstrong (2008, p.19), Žižek acredita que, encontrando diferentes concepções de poder e resistência enraizadas nos diferentes momentos da obra e do pensamento de Foucault, isso apontaria para sua ambiguidade, incompatibilidade conceitual e inconsistência interna. A partir daí o intento de Žižek é uma crítica a uma filosofia foucaultiana da resistência137. A noção foucaultiana de resistência seria, em primeiro lugar, inconsistente por não estar baseada filosoficamente:

137 Žižek parece extrair da constatação de que as resistências são derivadas da matriz de poder à qual se opõe (o que não é algo inquestionável se considerarmos a ideia de Foucault sobre a prioridade das resistências, principalmente nos anos 1980), que elas são incapazes de derrubar ou alterar essa matriz. Dessa maneira, as resistências estariam fadadas a manifestar-se – mesmo de modos violentos, transgressores e intensos - de modo a reiterar tal matriz, sem a possibilidade de contrapor-se a ela, ou no máximo - caso o fizessem - não seriam capazes de modifica-la, sob risco de seu próprio desaparecimento.

O paradoxo aqui é o fato mesmo de não haver um Corpo positivo e preexistente, no qual seria possível ancorar ontologicamente nossa resistência aos mecanismos do poder disciplinar que fazem possível a resistência efetiva. Eles [Foucault e os “pós-estruturalistas”] são incapazes de embasar a resistência ao edifício do poder existente138.

Além disso, segundo Žižek, Foucault teria mobilizado em sua trajetória dois conceitos de resistência divergentes e inconciliáveis, que existiriam ligados a duas concepções de poder, gerando modelos excludentes da relação entre poder e resistência. A maior contradição entre eles seria talvez a ausência do sujeito139 no primeiro, e sua reposição, no segundo. Assim, seria o próprio pensamento da resistência que leva Foucault à contradição: para ancorar a resistência ontologicamente fora das relações de poder, Foucault deve reabilitar no fim de sua obra a noção que havia negado - a de sujeito e do si, isto é, da relação consigo mesmo. Segundo Žižek:

Posteriormente, no entanto (a partir do volume II de sua História da sexualidade), ele é levado a voltar a esse tópico (...) da subjetivação: como os indivíduos subjetivam sua condição, como eles se relacionam com ela140. Em suma, para Žižek, tais modelos seriam em última instância irreconciliáveis. E seriam afirmados de maneira irrefletida na obra de Foucault. É exatamente a partir da discussão sobre a noção de sujeito que Armstrong (2008) discutirá e buscará refutar a crítica de Žižek. Há, no entanto, uma outra linha de argumentação – aquela que vincula as diferentes figuras e modos de ação do poder não a um sistema ou universo conceitual Isso porque as resistências não teriam consistência ontológica própria, apagadas as instâncias que poderiam fundamentá-las desde fora do poder e que permitiriam que subsistissem a ele (para Žižek, uma delas seria o sujeito). Resistência seria uma espécie de emanação ou ainda um epifenômeno da matriz de poder, de modo que uma vez acabada essa matriz, não pode haver qualquer resistência (Žižek, p.252- 253).

138 Esboço de tradução, a partir do trecho de Žižek: The paradox at work here is the very fact that there is no preexisting positive Body in which one could ontologically ground our resistance to disciplinary power mechanisms makes effective resistance possible (...). They [Foucault and the ‘post-structuralists’] are unable to ground resistance to the existing power edifice (Žižek, 2000, p.254).

139 Principalmente, na visão de Žižek, Foucault é incapaz de conceber uma resistência efetiva sem uma instância que a abrigue fora do jogo do poder, que seria uma subjetividade (que diz no inicio do livro ser cartesiana). Ora, Foucault rechaçou a noção de subjetividade e construiu seu pensamento em oposição aquilo que se chamou “filosofia do sujeito”. Foucault mostrou que os sujeitos são engendrados pela história e pelas relações de poder, de modo que seria impossível falar de uma subjetividade fundadora e independente da história e das relações de força em um determinado momento histórico. Os próprios sujeitos são resultados de processos de objetivação e sujeição, tão bem descritos em Vigiar e punir (Cf. Žižek, p.253).

140 Later, however (starting from Volume II of his History of sexuality), he is compelled to return to this very ostracized topic of subjetctivization: how individuals subjectivize their condition, how they relate to it… (Žižek, 2000, p.253). Tradução minha. Note-se que no trecho original Žižek, a substituição da palavra subjectivization por subjetivação não é adequada. Isso pode estar relacionado à própria leitura e às premissas de Žižek. É possível suspeitá-lo, levando em conta Rabinow (1991), que, como outros autores, utiliza as expresses subjetification (subjetivação) e subjection (sujeição).

filosófico, no qual estariam em contradição, mas sim a uma configuração local e

histórica, cambiante de como o poder e as relações de força se organizam em uma dada

época, sob dadas condições.

Acreditamos, assim, que não há tal paradoxo apontado por Žižek, mas sim diversidade e localização histórica: diferentes formas de exercício do poder vinculadas às diferentes épocas e recortes históricos, às diferentes instituições e práticas sociais estudadas. Foucault afirma: “Dizendo poder, não quero significar ‘o Poder’...” (1988, p.102-103). Não se trata de formular conceitos universais de poder e resistência, ainda que Foucault mobilize conceitos que por vezes pareçam demasiado sedimentados ou fixos141. Nesse sentido, cabe relembrar – como faz Foucault repetidamente - que não há uma teoria abrangente do poder142, mas apenas mobilizações teóricas referentes a cada material histórico que Foucault analisa e que, por esse motivo, não podem ser mais que locais, referenciadas, específicas. Desse modo, não por acaso aquilo que se poderia referir como uma teoria do poder, no primeiro volume da História da sexualidade, aparece no capítulo intitulado “Método” (1988, p.102-113). A “teoria” do poder que aparece nesse livro é historiográfica, isto é, não é um constructo independente, mas uma questão de método, que visa dar conta da abordagem e do exame de todo um material histórico (Gutting, 1994, p.19).

Conforme Gary Gutting, a construção das teorias - e dos métodos utilizados em cada uma das diferentes análises de Foucault - está sempre subordinada às necessidades táticas de cada análise particular, de modo que eles não podem ser empregados em qualquer situação ou contra qualquer alvo143. Assim, para Foucault, a questão seria teorizar “em resposta às demandas de um projeto histórico e crítico específico”, de

141 Para Thomas Flynn, na leitura de Foucault, “power do not exist (...) there are only individual instances of domination, manipulation, edification, control, and the like” (p.39). É necessário algum cuidado ao formular a afirmação de que “o poder não existe”, de modo a não tornar invisíveis as relações sociais de poder e dominação efetivas, bem como as reivindicações dos grupos e agentes que por primeiro sofrem os efeitos do poder, o que sem dúvida não é o caso de Flynn. O poder não existe ontologicamente, segundo uma essência imóvel, é o que ele explica. No entanto, é necessário visualizar o poder em ação: as instâncias individuais que Flynn descreve compõe aquilo que podemos chamar de “poder” na obra de Foucault.

142 Cf. “Sujeito e poder” (Dreyfus e Rabinow, 2010); “Estruturalismo e pós-estruturalismo” (Foucault, 2005b).

143 Concepts, theories and methods are “always subordinated to the tactical needs of the particular analysis at hand. They are not general engines of war that could be deployed against any target. This is why each of Foucault’s books has the air of a new beginning” (Gutting, p.4).

modo que as teorias propostas a partir disso não tem a pretensão conceitual de estruturas permanentes144.

Trata-se – ainda que isto não esteja formulado de maneira exata na História da

loucura, principalmente devido à noção de experiência que a obra traz145 - de um

nominalismo histórico146, no âmbito do qual “os universais não existem, apenas singularidades existem”147. Trata-se de um nominalismo como tarefa de “fazer passar a história pelo gume de um pensamento que recuse os universais”(Veyne, 2011, p.20), de um pensamento que recuse os universais a cada passo, quando se trata de pensar o poder – ou outras questões e objetos a partir de uma metodologia que opere a partir da noção e de poder. Assim sendo, os conceitos de poder e resistência, quase-conceitos, tendo um núcleo referente às relações de forças, ao sentido das forças, seriam, por outro lado, sempre dependentes de conformações históricas particulares, da configuração singular das relações de forças, das estratégias, dos dispositivos e diagramas presentes em um dado momento que organizem essas relações. Dessa maneira, é possível conceber dois modelos da relação entre poder e resistência – mas é possível localizar outras combinações instáveis, que se distanciam de dois modelos abrangentes. A noção de poder seria então sempre múltipla, polivalente, vinculada diretamente às operações de poder em um dado campo de relações de forças.

Ora, se a noção de poder nos remete a essa instabilidade fundamental, além de podermos acompanhar a proliferação dessa noção, bem como dos contrapoderes, sempre em suas configurações locais, podemos ainda admitir uma complementaridade entre essas diferentes figuras, entre as diferentes estabilizações relativas das relações de forças. Assim, poderíamos, por exemplo, localizar pontos de coexistência entre operações do biopoder e do poder soberano, de um poder capilarizado, difuso e microfísico, disseminado sobre os corpos dos indivíduos, como também poderíamos

144 “Theorizing (...) in response to the demands of a specific historical and critical project”; “the theories devised are not intended as permanent structures, enduring in virtue of their universal truth” (Gutting, 1994, p.16).

145 Roberto Machado não subscreve a ideia de Foucault como nominalista, pelo menos no que diz respeito à arqueologia da percepção realizada na História da loucura.

146 Segundo aponta Thomas Flynn, “Foucault’s method is radically anti-Platonic and individualistic. His sympathy with the Sophists, Cynics, and other philosophical ‘out-siders’ is based on a profound distrust of essences, natures, and other kinds of unifying, totalizing, and exclusionary thought that threaten individual freedom and creativity”; “What Foucault calls his ‘nominalism’ (…) treats such abstractions such as ‘man’ and ‘power’ as reducible for purposes of explanation to the individuals that comprise them” (Flynn in Gutting, 1994, p.39).

147 “Como ele escreve no Nascimento da biopolítica, os universais não existem, apenas singularidades existem” (Veyne, 2011, p.72).

localizar, em outro âmbito e em coexistência, o poder do Estado na gestão da população. Seria possível, assim, afirmar pontos de coexistência das formas de poder sobre a vida: biopoder, ou como chamam Dreyfus e Rabinow, “biotécnico poder” (gerir a vida) e poder soberano (poder causar a morte). Não se trata, no entanto, de gerar uma indistinção geral entre as formas do exercício do poder. Trata-se de introduzir, em cada caso, um princípio de interpretação: sondar, perguntar qual força predomina, qual forma de poder integra mais pontos, mais linhas, mais elementos. Que operações e estratégias de poder mobilizam e capturam as outras. Fazer esta pergunta, no entanto, poderia sim levar a uma localização baseada em diferentes momentos da obra de Foucault, contanto que não aceitemos totalizações fáceis.