O aprimoramento cognitivo pode ser entendido de duas formas. Uma primeira diz respeito ao uso de medicamentos que podem melhorar a cognição, que podemos chamar de aprimoramento cognitivo através de fármacos. Uma segunda relaciona-se as alterações genéticas, que constituem o aprimoramento genético da cognição295.
O aprimoramento cognitivo pode ser associado ao uso de medicamentos para aumentar a capacidade cognitiva. Dentro dessa perspectiva, pode ser associado com o methylphenidate (Ritalin), que tem sido usado nas crianças, desde 1963, para combater o déficit de atenção. Um destes estudos é o de Eliot (1997), Effects of methylphenidate on spatialworking memory and planning in
healthy young adults. Eliot trata do impacto do uso de methylphenidate em
pessoas saudáveis, mostrando como ele ajuda a melhorar a memória espacial e o planejamento, mas não melhora a atenção e a fluência.
Um estudo semelhante, When we enhance cognition with Adderall, do we
sacrifice creativity? A preliminary study foi realizado por Farah (2009). Esse
estudo aborda o uso de Adderall (amphetamine) (que são utilizadas para o déficit
de atenção e hiperatividade) e seu impacto sobre a criatividade. A autora apresenta um experimento com 16 pessoas, para avaliar as relações entre o Adderall e a redução da criatividade em jovens adultos saudáveis. Nesse experimento, ela chega à conclusão de que o uso do Adderall conduz a um aumento de criatividade em indivíduos que antes apresentavam um baixo poder criativo e causa uma diminuição de criatividade nos indivíduos que já tinham um alto nível criativo. Farah também menciona que esses resultados já foram encontrados em outros experimentos relacionados ao Adderall.
À luz das contribuições de Rawls, o texto de Farah é bastante interessante, porque, na sua opinião, a droga seria um exemplo ideal de aplicação da igualdade de oportunidades, em nível de talentos naturais. E isso porque, aumentando o nível de criatividade das pessoas que têm um baixo nível, ela colocaria em nível de igualdade os de condição inferior. Em relação aos de condição superior, eles simplesmente não precisariam receber o medicamento, pois não haveria melhora e até mesmo poderia haver uma piora em seu desempenho.
Outra reflexão que Farah desperta é que haveria limites no nosso aumento de criatividade. Ou seja, depois de atingido um certo nível, não seria possível aumentá-lo. Isso é bastante interessante, se pensarmos que a natureza humana tem seus próprios limites de aprimoramento. Seguindo esse mesmo raciocínio, pode- se pensar que o aprimoramento cognitivo não seria ilimitado, tendo, após a ingestão de uma determinada quantidade de Adderall ou Ritalin, uma nulidade de melhora. Isso lança uma importante reflexão sobre o atual entendimento do
aprimoramento.
Uma segunda linha diz respeito aos pensadores que ressaltam uma validade do aprimoramento genético da cognição. Nessa linha, podemos citar Newson, em
Should we undertake genetic research on intelligence (1999). Esse estudo
pretende mostrar uma visão positiva do aprimoramento genético da inteligência, fazendo uma defesa do aprimoramento genético que serve, com muitos
argumentos, para a defesa do aprimoramento cognitivo. Um primeiro passo que Newson coloca e que contribui para nossa tese é seu conceito de inteligência:
[...] inteligência é uma capacidade mental geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar abstratamente, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender da experiência... ela reflete uma ampla e profunda capacidade de compreensão das coisas ao redor de nós.296
Em seguida, o autor coloca a discussão bastante polêmica sobre qual a influência genética e qual a influência social na formação da inteligência e apresenta vários problemas do aprimoramento genético que podem prenunciar os problemas possíveis com o aprimoramento cognitivo, apresentados no próximo item.
Outro autor que pensa o aprimoramento cognitivo por meio de fármacos é John Harris, em Towards responsible use of cognitive-enhancing drugs by the
healthy (2008). Nesse texto, Harris pretende apresentar o aprimoramento cognitivo como positivo para a sociedade atual, desde que sejam tomadas certas
medidas: uma pesquisa apropriada e uma regulação. O texto cita duas substâncias químicas utilizadas para o tratamento de doenças que têm sido usadas para o
aprimoramento cognitivo, o Modafinil e Aricept (donepezil).
O primeiro argumento na defesa do aprimoramento visa a demonstrar que nós devemos ver as tecnologias para o aprimoramento cognitivo como sendo da mesma categoria que os outros aprimoramentos, como a educação e os bons hábitos de saúde297. Para isso reconhece que o primeiro tem certa semelhança com
os segundos, apesar de ter diferentes efeitos morais.
Explica que os argumentos utilizados para negar o aprimoramento
cognitivo por meio de drogas não são válidos, pois são argumentos vinculados aos
296 “[...] [intelligence is] a very general mental capability that, among other things, involves the ability to reason,
plan, solve problems, think abstractly, comprehend complex ideas, learn quickly and learn from experience… it reflects a broader and deeper capability for comprehending our surroundings.” Newson, 1999, p. 328.
297 Um ponto que chama a atenção é o fato de considerar a educação e os bons hábitos como aprimoramento.
Apesar de essa aproximação não ser própria dos autores, mas ser usada também por Kass (apud p. 703, 1) ela tem um efeito benéfico na possível aceitação do aprimoramento cognitivo através de drogas, uma vez que o aproxima
efeitos, e estes são os mesmos de outras práticas, que, por terem tais efeitos, não são consideradas inválidas. Por exemplo, os benefícios do sono não requerem esforço, os benefícios da alimentação envolvem a ingestão e, portanto, são invasivos e os benefícios da internet não são acessíveis a todos.