Na vidara do século XIX para o XX, a cidade de São Paulo, até então algo pouco maior que um vilarejo que servia de passagem para tropeiros vindos do sul cruzarem a serra, e para estudantes cursarem Direito da Faculdade do Largo de São Francisco, começou a experimentar um processo de modernização e crescimento que coincidiu com o período europeu conhecido como Belle Époque.
Os anos da Belle Époque foram de prosperidade econômica e da crença de que o progresso, simbolizado pelas então recentes conquistas tecnológicas, seria capaz de equacionar os problemas da humanidade. Paris, considerada a capital cultural do século XIX, ero o modelo a ser seguido, sobretudo após as intervenções urbanas [...] que apagaram o traçado medieval e abriram parques e bulevares, sinalizando a chegada de uma nova era. (ROLIM, in CAMARGOS, 2013, p. 6)
Este papel crucial da capital francesa na história da modernização ocidental do período fez eco no hemisfério sul e reverberou no Brasil. Leite (2011) observa que,
Os modos, a moda, a cultura em voga era a que imitava a francesa, considerada a grande cultura internacional. Desde o fim do século XIX, até o princípio do XX, antes do advento da ascensão socioeconômica americana, era a França o ideal a ser seguido. (LEITE, 2011, p. 111)
Por conta disso, observa Leite (2011), que no Brasil passaram-se a construir prédios, casas e monumentos de acordo com aquela moda, destacando teatros municipais, em São Paulo e Rio de Janeiro e vários palacetes, sobretudo os da Avenida Paulista.
No caso de São Paulo, a Belle Époque coincide com o processo de metropolização da cidade.
A reorganização da malha urbana, com o alargamento das ruas para a instalação da rede elétrica de bondes, o embelezamento e a iluminação pública, teve como modelo a capital francesa, para onde convergia a elite brasileira ávida por conhecer as mais modernas invenções. São Paulo acolhia as tendências francesas na moda, nas artes e na arquitetura, enquanto o novo traçado urbano convidava aos passeios. O clima era de festas embaladas pelas últimas novidades trazidas da Europa. (ROLIM, in CAMARGOS, 2013, p. 6)
E Camargos completa:
Sob a administração do conselheiro Antônio Prado (1840 – 1929), do barão Duprat (1863 – 1926), de Washington Luís (1869 – 1957) e de Firmiano Pinto (1861 – 1938), nas suas respectivas gestões, que se sucederam de 1899 a 1925, a São Paulo da Belle Époque foi alvo de uma série de intervenções que seguiram parâmetros europeus. Remodelou-se a Praça da República, arborizou-se a Avenida Tiradentes, enquanto o vale do Tamanduateí ganhava um tratamento paisagístico [...]. (CAMARGOS, 2013, p.21)
Com efeito, o período parece ter afetado muito mais São Paulo, do que naturalmente se pensaria com relação ao Rio de Janeiro. A respeito da modernidade
que parecia ter chegado com força e influência, e pouco depois evoluiria para um modernismo na vida e na arte do nativo, pondera Mário de Andrade ao comparar as duas cidades:
Ora, São Paulo estava muito mais “ao par” que o Rio de Janeiro. E, socialmente falando, o modernismo só podia mesmo ser importado por São Paulo e arrebentar na província. Havia uma diferença grande, já agora menos sensível, entre o Rio e São Paulo. O Rio era muito mais internacional, como norma de vida exterior. Está claro: porto do mar, capital do país, o Rio possui um internacionalismo ingênito. São Paulo era espiritualmente muito mais moderna porém, fruto necessário da economia do café e do industrialismo consequente. [...] São Paulo estava ao mesmo tempo, pela sua atualidade comercial e sua industrialização, em contato mais espiritual e mais técnico com a atualidade do mundo. (ANDRADE, 1942, pp. 26-27)
Na medida em que a província ia se transformando em metrópole, as autoridades e grandes barões do café não tinham de se preocupar somente com o embelezamento da capital. Do outro lado dessa realidade, cresciam desenfreadamente bairros periféricos como resultado de um aumento demográfico acentuado, sobretudo pela migração de camponeses em busca de trabalho e pela política de imigração, que, subsidiada pelo Estado, “para contornar a escassez de mão de obra especializada e, de quebra, branquear a população” (CAMARGOS, 2013, p. 35).
Para contornar o problema, empresas como a Companhia San Paulo City Improvements and Freehold Land Company Limited adquiriram lotes imensos de terrar para expandir o centro e criar novos locais de moradia. Camargos observa que
Depois veio retalhamento das velhas chácaras, propiciando o crescimento da cidade. Em seguida, começou a divisão de lotes de vastas zonas abandonadas. Insalubres e improdutivas, elas em geral acompanhavam o traçado das estradas de ferro e os meandros dos rios Tietê e Tamanduateí. Baratos, os terrenos derivados dessas glebas [...] tornaram-se os primeiros loteamentos de fato populares. (CAMARGOS, 2013, p. 106)
De acordo com a autora, tais bairros não contavam com o mínimo de estrutura de saneamento básico, eram próximas de estações de trens e distantes das fábricas, sofriam inundações constantes e logo tornaram-se foco de proliferação de todo tipo de doença. Esta segregação de humildes imposta para afastá-los dos bairros aristocráticos, resultaria num efeito colateral imprevisto.
Por uma destas ironias dialéticas da história, acabaram-se criando, sem querer, fulcros de agitação política, ambiente de cultura e propagação de ideais revolucionários trazidos pelos imigrantes europeus, de longa tradição anarquista e socialista.
(CAMARGOS, 2013, p. 106)
Por outro lado, nas regiões centrais, velhos palacetes começavam a perder espaço para cortiços e pensões, especialmente no entorno da Estação São Paulo, atual Júlio Prestes, por onde chegavam multidões de pessoas.
Observamos que num breve período de tempo, mais ou menos vinte anos, São Paulo desperta de seu provincianismo para uma “idade do ouro”, e logo em seguida passa a experimentar as contradições da modernidade, não pela Guerra diretamente, como na Europa, mas pelo seu próprio crescimento desordenado, pela mistura de raças e línguas, e por uma elite cafeeira de postura conservadora, que no entanto seria responsável direto pela manifestação e, pode-se dizer, exorcismo, de tais contradições também por meio da arte.