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In document bibliotekreform 2014 (sider 125-128)

DEL I BIBLIOTEKLANDSKAPET

7.6 programmet norsk digitalt bibliotek

Como foi colocado anteriormente, a natureza do cargo de governador-geral compreende dois corpos, o natural e o político. No discurso do Panegírico, Lopes Sierra adapta essa fórmula para explicar de que forma era possível que d. Afonso, mesmo tendo sido uma boa cabeça política, houvesse motivado queixas, em razão das quais ofereceu satisfações e pedidos de desculpa aos descontentes. De acordo com o pensamento do autor, a explicação estava ligada à ideia que se tinha do exercício da justiça. Acerca deste tema, eis o que propõe Lopes Sierra:

Repitamos de Novo as palavras de nosso Herói. Diz que não foi sua intenção ofender, mas o ser homem trazia consigo poder errar. Falando filosoficamente, Digo que entre ambos, estes dois sujeitos têm razão e justiça [...].

Todos sabem e ninguém ignora a segurança com que correm esses Astros dentro do seu natural movimento e como não há coisa que possa impedir a serenidade de sua roda, a qual dá com igualdade luz a um e outros Mortais e vida a umas e outras essências.

Assentado o dito, vemos turbarem-se os céus, batalharem os elementos, o Ar destruindo o que encontra, o mar fazendo saírem os rios de seu curso, O fogo arrojando raios com trovões. A terra com tremores arruinando e subvertendo cidades. E sendo estes os motivadores Da desordem, Todos lançam a culpa ao céu dizendo que, por haver-se destemperado, procedem aqueles danos e isto Não é assim, Porque o céu Nem é destemperável, Nem há coisa que destemperá-lo possa427.

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Nesta alegoria, pode-se interpretar que o céu é sempre constante e harmonioso, enquanto os elementos que se encontram abaixo dele estão sujeitos às próprias intempéries; a sua natureza intempestiva ocasiona eventuais desacordos entre eles. Como foi colocado no item anterior, de acordo com a opinião do autor, a figura do príncipe, assim como a do governador, representava o céu, por si, ou por sua imagem, enquanto os homens representavam os elementos. Portanto, a figura de Afonso Furtado representava o céu e sua constância, ou, a “justiça, paz e verdade428”. Dessa maneira, a

representação da figura do governador, pode ser compreendida como seu corpo político, “uma reta justiça429” que não se submete às imperfeições humanas. No entanto, abaixo

do céu encontravam-se os elementos, que alegoricamente correspondiam aos homens e suas relações políticas, representadas pelas controvérsias das forças elementares. Mesmo que a figura do governador (ou como colocaríamos, seu corpo político) representasse uma justiça perfeita, “o ser homem trazia consigo poder errar”, ou seja, o corpo natural de Afonso Furtado estava sujeito às imperfeições da natureza humana, e, portanto, poderia cometer erros. Apesar de ser passível de desacertos devido ao seu corpo natural, tais desacertos eram provenientes de outros homens, que por não saber controlar suas paixões não se contentavam com seu lugar originário na organização social do corpo. Dessa maneira, embora o corpo físico do governador fosse suscetível de erros, estes teriam sua origem sempre no comportamento daqueles que não se ajustavam à ordem social e política.

À primeira vista, a alegoria de Lopes Sierra pode parecer paradoxal. Ela busca explicar, por meio dos fenômenos naturais, as relações entre as forças políticas, mesmo as que poderiam ser consideradas politicamente “antinaturais”, como as estratégias dos homens para dominar uns aos outros sob falsas justificativas. Assim como os elementos da natureza entram em choque diversas vezes, mas sempre retornam à serenidade com que o céu dita seu curso, os homens políticos entram em conflito uns com os outros, mas sempre retomam a paz, que é o objetivo do príncipe que busca o bem-comum. Sendo assim, a oposição dos elementos, tal como a oposição das esferas políticas eram apenas manifestações naturais, que embora alterassem o curso natural, faziam parte dele, e desde que houvesse o céu e o príncipe para contrabalançar essas relações entre eles, essa ordem poderia ser mantida. Ainda que houvessem desajustes durante o

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Ibidem, p. 194.

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governo de d. Afonso, foram episódios passageiros, que sucumbiram perante a prudência e a constância do governador.

Outro ponto supostamente contraditório do discurso é quando Lopes Sierra afirma que a intenção de Afonso Furtado é perfeita, mas que em razão da sua imperfeição humana, ele estava sujeito a cometer erros. Tal contradição desaparece quando percebemos no texto, uma adaptação da fórmula dos dois corpos do rei. Percebemos, na narrativa do Panegírico, três níveis, ou três ordens, a divina, relativa a Deus e aos anjos, a celestial, que está ligada à organização dos astros e a natural, que rege tudo que se encontra abaixo do céu, inclusive a sociedade. Existe uma correspondência entre essas ordens, que se organizam de maneira semelhante, porém a única organização perfeita é a divina, pois não pode sofrer alterações. As outras duas, a celestial e a natural podem ter sua organização temporariamente (ou aparentemente) perturbadas; a primeira, pelo choque dos elementos e a segunda, pelas disputas de poder. Segundo a metáfora de Lopes Sierra, no nível político, encontramos correspondências da ordem celestial e da natural, haja vista o caráter insondável da ordem divina. O céu é representado pelo corpo político de Afonso Furtado, ou pela sua “intenção”, que assim como os astros não corre fora de seus eixos. Por outro lado, os homens concorrem no âmbito político, sendo representados pelos quatro elementos, e que, assim como eles, eventualmente medem suas forças entre si. Embora, segundo Lopes Sierra, o embate das forças elementares altere a ordem celestial apenas aparentemente, pois o céu permanece sempre “pacífico e sereno430”, as disputas de

poder poderiam perturbar a ordem política, por meio do corpo natural do governador, ou, como coloca o autor, do seu “ser homem”, que estava sujeito a cometer erros, ou melhor, que o deixava vulnerável ao erro alheio, pois a sua “intenção”, assim como seu corpo político, seria sempre “um céu e uma reta justiça431”.

Nesse sentido, assim como a “chegada providencial” de Afonso Furtado havia restituído a ordem na América portuguesa, sua boa morte também foi um momento de restituição da justiça, pois os feitos que ele realizou antes de morrer garantiram a continuidade do corpo político da sociedade, que estava ameaçado pelos procedimentos “tirânicos” dos “maus ministros”.

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LOPES SIERRA, op. cit., p.194.

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