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In document bibliotekreform 2014 (sider 69-72)

DEL I BIBLIOTEKLANDSKAPET

5.5 mobile bibliotektjenester

Outro traço presente no texto do Panegírico, é a analogia entre a sociedade e o corpo humano. Como tratado anteriormente, a sociedade moderna compreendia-se como um corpo, e sua constituição básica não poderia ser alterada, nem pela vontade do soberano, nem pela de seu povo. Dessa maneira, a disposição dos diversos órgãos sociais, tais como a família, a igreja, as comunidades e os grupos sociais, estava impressa na tradição, assim como a disposição dos órgãos do corpo humano poderia ser lida nos tratados de medicina e nos históricos clínicos, tornando a política uma ciência quase correlata à medicina349. A partir desta perspectiva, nota-se na narrativa de Lopes Sierra e nos discursos atribuídos por ele ao governador Afonso Furtado, que o bem-estar social era como a saúde para o corpo humano. Portanto, se o objetivo final do exercício da justiça era equilibrar a sociedade, mantendo a paz e a harmonia, logo, uma sociedade em desequilíbrio estaria, por analogia, “doente”.

Esta ideia, assim como as demais colocadas anteriormente, também pode ser encontrada no início do texto, quando o autor descreve a forma como a população da Bahia, em reação impensada aos ataques indígenas, provocou a paralisação dos engenhos, e junto com eles, do comércio. Na opinião de Lopes Sierra:

[...] como as hostilidades são uma imitação por seus danos, da peste, dos que causou esta procedeu uma tal corrupção, que foram despejando uns e outros Moradores, faltando, pela parte do sul, tudo aquilo que toca a mantimentos e, pela do norte, o que é necessário à administração das fábricas [...]350

348 HESPANHA, A fazenda..., op. cit., p. 212.

349 HESPANHA; XAVIER, A representação da sociedade e do poder. In: MATTOSO, José (org.), op. cit., p.122.

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Por meio deste relato, nota-se a maneira como o autor se refere à hostilidade indígena, que configurava uma questão política e militar, como uma peste351, demonstrando a indistinção no imaginário social de uma situação de desordem causada por violência, de outra causada por doenças epidêmicas. Mais à frente, no texto do Panegírico, Lopes Sierra narra o discurso que Afonso Furtado fez diante da Junta Geral que decidiria se os paulistas deveriam ou não prosseguir com “conquista dos bárbaros”. Eis parte do “arrazoado que faz Nosso Herói ao geral concurso”:

[...] cabe-me dizer que enquanto os males afligem o corpo humano não cessa os médicos de receitar remédios, não obstante ver muitos Malogrados. Os de que esta república padece são tão grandes que não há parte que não seja atingida por suas dores que, unidas, formam um universal compêndio, e observando isso, Aplica Cada um o remédio que acha melhor, pois a todos competia o remédio, como partes interessadas352.

Aqui fica mais clara a ideia de que a organização social funcionava como um corpo humano, e, da mesma maneira, como a função do médico é sanar o desequilíbrio dos organismos dos homens, o governante deveria fazer o mesmo com relação ao corpo social. No entanto, por serem os ataques indígenas um assunto que dizia respeito a todos, de acordo com a lógica corporativa, deveria ser decidido por todos, em conjunto. Assim, ainda que a “cura” do referido mal coubesse a todos, não caberia a cada um administrar o “remédio” que bem entendesse; este deveria ser decidido corporativamente, ou seja, em conselho.

Após deliberar junto aos interessados, ouvindo todas as corporações envolvidas, Afonso Furtado se utiliza do seguinte argumento para justificar a decisão de que os paulistas prosseguissem como “remédio” à hostilidade do “gentio”:

Pelo que sou de parecer igual àquele que tomam os médicos Quando querem sanar os ataques de um corpo que, achando-se revoltosos os humores, o purgam. Os humores dos bárbaros, que são o mal do corpo desta república, estão próximos à revolta por causa dos paulistas, agora que o estão, devemos purgá-los, seguindo a conquista353.

351 E tal como uma peste merece ser purgada, os indígenas hostis mereciam ser eliminados por meio da

“guerra justa”, tendo em vista que de acordo com a lógica portuguesa da época, Afonso Furtado estava buscando não somente restituir a paz à capitania, como também reparar uma injúria feita pelos “bárbaros”, ou seja, contrabalancear uma situação que ele não havia gerado, restaurando a paz por um lado, e fazendo justiça, por outro.

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LOPES SIERRA, op. cit., 61.

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O Governador decide que não seria prudente mudar o “remédio” ou cessar de administrá-lo. Como os indígenas já estavam extremamente agitados em virtude das investidas dos paulistas, e próximos a uma revolta geral, Afonso Furtado argumenta que a conquista deve continuar, para que o “mal da república” possa ser finalmente purgado, retornando esta ao estado de sanidade. Por meio desse raciocínio repleto de metáforas médicas, d. Afonso busca convencer o conselho de sua opinião, pretendendo, assim, que as várias partes entrassem em consonância quanto ao assunto, o que o torna um discurso de justiça, tanto no âmbito da junta geral, como no âmbito geral da capitania, pois segundo sua deliberação, a “conquista dos bárbaros” restauraria a situação natural de paz e harmonia, isto é, far-se-ia justiça.

Se a imagem da sociedade constituída como um corpo humano, e todas as analogias médicas que a envolvem, era comum, não é de admirar que o seu inverso também o fosse, ou seja, que se visse o organismo humano como se via a sociedade. Isto pode ser observado no Panegírico, no momento em que Lopes Sierra narra a primeira visita dos médicos a d. Afonso, em virtude de uma febre que o havia acometido. Eis como o autor descreve o episódio:

Visitaram-no os médicos e foi mandado sangrar Quatro vezes. Com isto deu mostra o inimigo de haver-se retirado, deixando a perna enxuta. Não faltou a algum conhecer que era ardil de guerra o retirar-se, para com mais poder assaltar parte mais forte, que vendo cauteloso não acabar de sair mais picadas, com que duplicadas de força, de má que era, a febre se fez maligna e tão cheia de cólera que, intrusa, nas veias, ganhou os melhores postos das Artérias, de onde assentou toda sua bateria ao mais forte do coração354.

Aqui, o corpo é comparado à sociedade, ou melhor, um corpo doente é assimilado a uma praça atacada por tropas inimigas, da mesma maneira como a capitania da Bahia havia sido atacada pelo “gentio” hostil. Esta passagem completa a ideia que anteriormente havia servido ao governador para justificar a continuidade da “conquista dos bárbaros”, pois assim como aconteceu com a febre do governador, que segundo Lopes Sierra, “de má tornou-se maligna e cheia de cólera”, era possível que com os indígenas hostis sucedesse o mesmo: revoltados com as entradas dos paulistas, eles acabassem por tentar um ataque generalizado à capitania, e destruíssem a cidade que, segundo Frei Vicente do Salvador, era um “coração no meio do corpo”, deixando todas as outras sem socorro e acabando com a conquista da coroa, assim como a febre, ao atingir o coração de Afonso Furtado, o havia sentenciado à morte.

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A partir do que foi colocado, podemos concluir que a sociedade vista como um corpo, além de demonstrar que cada órgão social possuía uma capacidade relativamente autônoma de regular-se, também ressalta a concordância que deveria existir entre eles, para que a sociedade se mantivesse saudável. Um corpo fortemente coeso funciona melhor, e, portanto, possui melhores chances de resistir e expurgar uma doença. Nesse sentido, para garantir a coesão do corpo social e mantê-lo são, os diversos órgãos contavam com o governante, como sua “cabeça”, cuja função, por excelência, era a de administrar a justiça: manter o equilíbrio das partes, e, assim, garantir a paz e a tranqüilidade, ou, metaforicamente, a “saúde social”.

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CAPÍTULO 4

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