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4. SIMULERT OPPDRAGSLØSNING VED (UT)DANNELSE I LEDERSKAP

4.3. Simulert lederskap

4.3.4. Profesjonsfellesskap

Os dados acima não causam surpresa ou estranheza. Sabe-se que para manter os interesses da classe dominante, desenvolveu-se no Brasil uma imagem deformada do negro que mais tarde se estendeu aos mestiços, como incapazes para o trabalho, imbecilizados e rudes, com baixo nível intelectual, pagãos, bárbaros culturais, incapazes de sentimentos civilizados, a não ser

que houvesse a impregnação de virtudes dos brancos, através do exemplo ou de cruzamentos inter-raciais.

De que maneira essa imagem ideologizada afetou e afeta ainda hoje a construção ou a re-construção da identidade dos negros?

Para Silva (in: SANTOS e SILVA, 2005), existem vários conceitos de identidade e esse termo leva sempre à noção de singularidade, “à sensação de que possuímos uma existência

própria formada por uma totalidade integrada” (p. 37). Para a autora, essa forma de olhar a identidade pode resultar num processo de autodefinição, isto é, de como cada indivíduo consegue ao longo do seu desenvolvimento internalizar as características que lhe são atribuídas socialmente.

Na sociedade brasileira, as características físicas das pessoas (fenótipos) funcionam como meio de classificação e a construção da identidade torna-se um processo mais difícil, e (eu diria) mais doloroso para os negros. Com isso e em decorrência do racismo inerente a esse modo de classificar as pessoas, o tema da identidade torna-se objeto de interrogação, tanto nos debates sobre relações raciais quanto no meio acadêmico como objeto de estudo.

Partindo do princípio de que a construção da identidade é histórica, pode-se afirmar que esta se dá no jogo das relações sociais, ou seja, da relação indivíduo-sociedade. É nessa relação que se obtém o reconhecimento do outro e o fortalecimento do sentimento negativo ou positivo de identidade. Assim sendo, para falar de identidade não se pode ignorar as relações raciais presentes na sociedade e no dia-a-dia. São essas relações que impedem o reconhecimento igualitário das pessoas, principalmente dos negros e indígenas. Esse reconhecimento se constitui das atividades diárias de superação da discriminação, preconceitos, estereótipos, estigmas, rótulos e outras expressões que obstaculizam o desenvolvimento e cumprem o papel de integrar a população negra e indígena na sociedade de classes de forma subalterna.

Ao se analisar a trajetória dessas populações na construção de sua identidade, tem que se que considerar as várias formas de expressão do racismo e de como essas no decorrer da história de vida do negro e do índio tornam-se o principal fator de desvalorização de suas matrizes raciais e, portanto, de sua cultura. Para a sociedade brasileira, o fato de os negros estarem em posição de subalternidade não é visto como desigualdade social ou racismo, mas sim como um processo natural, com raras exceções.

Esse processo de naturalização acima citado serve bem para exemplificar a forma natural como à sociedade brasileira trata o racismo, o preconceito e as diversas formas de discriminação encontradas no seu contexto. Os principais alvos ou vítimas desde os tempos da colonização são sempre os negros e os indígenas.

Este tratamento preconceituoso, discriminatório e, em muitos casos, racista tem como fundamento os estigmas criados e mantidos pela sociedade que, segundo Goffman (1988), desde os tempos dos gregos foram criados para se referir aos sinais corporais que evidenciam o

extraordinário ou o mau sobre o status moral do indivíduo, sendo o ambiente social o

responsável pela categorização das pessoas de acordo com as marcas/estigma que apresenta. No caso brasileiro os negros e os índios são estigmatizados pelo seu fenótipo (a partir da cor da pele, traços fisionômicos, etc.) e sua cultura, tornando-os susceptíveis a aceitarem a forma como são vistos pelos outros, podendo inclusive aceitar o estigma como algo natural e, ainda entrar num processo de autodepreciação e uso do estigma como desculpa para fracassos ocorridos por outras razões. Logo, para o autor há uma relação entre identidade e estigma.

No processo de interação social a que todo ser humano é submetido, o estigma a ele atribuído (caso dos negros e indígenas) serve de parâmetro para a inferência de outras características indesejáveis e passa a reger a relação social, dificultando ou até impedindo a mobilidade social do indivíduo. Para isto, são criadas ideologias, tais como a democracia racial e a meritocracia com o fito de manter o estigmatizado na periferia do sistema, lugar que Goffman chama de menos valia. A pessoa estigmatizada geralmente é insegura em relação a como os demais a percebem e como será recebida ou tratada no contato social. Goffman chama isso de

identidade deteriorada, ou seja, o resultado do impacto da estigmatização étnico-racial na

identidade pessoal. Esse impacto é causado pelas atitudes de discriminação, preconceito e

racismo sofridos pelo estigmatizado.

Dessa forma, a ideologia da democracia racial esconde uma realidade que vem desde a abolição da escravatura: a falta de condições sociais e econômicas para essas populações ascenderem socialmente dentro da sociedade de classes. Essa realidade pode ser modificada, pois

“O processo de fortalecimento da identidade racial brasileira é uma possibilidade de enfrentamento da discriminação racial” (SILVA, in: SANTOS e SILVA, 2005, p. 40). Esse fortalecimento se dá pela valorização dos vários componentes da matriz cultural africana, sejam eles, componentes fenotípicos, lingüísticos, artísticos e intelectuais, pois

a marcante contribuição cultural da população negra definiu este espaço como o único lugar de expressão social, ao mesmo tempo em que a ideologia de acomodação dos conflitos sociorraciais, conhecida por mito da democracia racial, sustentou a subalternidade do negro na sociedade de classe brasileira, na medida em que não ocorria uma maior expressão da população negra em outros espaços sociais. (SANTOS, in: SANTOS e SILVA 2005, p. 47).

Quanto aos indígenas, para estes a imagem criada e fortalecida ao longo do tempo foi a de hostil, indolente e ocioso, possuidor de forte espírito de liberdade, portanto, mais difícil de escravizar. Segundo Ribeiro (1996), quando um grupo indígena consegue manter suas famílias unidas (pais e filhos) a identificação étnica tribal permanece viva, dando aos mesmos a capacidade de resistir às guerras, à transformação ambiental de seu habitat, ao assédio religioso e a outras formas de europeização. A etnia demonstra dessa forma ser uma das maiores forças da cultura humana.

Para o autor, a única força à qual a identidade étnica não resiste é:

[...] a escravização pessoal que, desgarrando as pessoas de sua comunidade, as transforma em mera força de trabalho, possuídas por um senhor e vivendo a existência que ele lhe impõe. [...] Só conseguem assim desculturá-los, transformando-os em ninguéns, que não sabem de si e não servem para ser índios nem civilizados. (p. 12).

A passagem da condição de índio para a de índio civilizado/aculturado acontece sob pressões de toda ordem, obrigando o povo indígena a modificar seus modos de ser e de viver, para resistir e sobreviver a estas pressões que continuam acontecendo até os dias de hoje. Frente a esta realidade, muitos grupos indígenas engolidos pela fronteira da civilização e influência religiosa, em muitos casos a própria zona urbana (ex.: Dourados – MS), vêem-se obrigados a converterem-se em trabalhadores assalariados ou a tentarem produzir alguma mercadoria (geralmente mandioca, milho verde, frutas e artesanato) que lhes garanta condições mínimas de sobrevivência.

O Considerando que os povos indígenas continuam tendo suas identidades, direitos e valores violados, estes vêem o acesso ao ensino superior como uma forma de aquisição de instrumentos de defesa e combate a todo contexto discriminatório, e não como forma de perda da identidade indígena.

A crença de que os negros e mulatos são inferiores aos brancos na sua capacidade intelectual, portanto incapazes, vigora ainda na sociedade e academia brasileiras, agora sob a

forma de um discurso mais ameno e plenamente justificável do ponto de vista do capitalismo: o discurso meritocrático. Este defende a idéia de que só vencem os melhores, os mais capazes, no caso brasileiro, os brancos ricos e depois os brancos pobres. Negros e indígenas de acordo com dados estatísticos não chegam à universidade, o que lhes impede também a chegada ao mercado de trabalho qualificado, a construção ou re-construção de uma identidade étnico-racial, consciência política e, dessa forma, a mudança de classe social.

O termo re-construção é usado por alguns autores na expectativa de explicar que essa identidade já existe em cada sujeito, porém o contexto interétnico sob o qual se vive no Brasil provoca um abafamento da identidade étnica positiva do negro e, aqui acrescenta-se também o indígena, impossibilitando os mesmos de lutarem contra o sistema de opressão existente, fazendo-os assumir uma postura de submissão, introjeção e alimentação de imagens e valores considerados negativos a respeito de si mesmos e de seu povo, auxiliando na manutenção do sistema de discriminação e racismo que tem seu nascedouro no eurocentrismo, base da cultura brasileira.

Somente a partir dessa percepção, será possível a construção ou re-construção de conceitos de raça e etnia que conduzam a um conceito mais consolidado de identidade étnico- racial que realmente represente a população brasileira, desbancando a ideologia da mestiçagem, que tem como propósito passar uma imagem aparente de tolerância e paraíso racial, mas que esconde um cruel processo de racismo, pois faz com que as vítimas (negros e índios) se sintam culpadas pelo próprio fracasso, incapazes e não-merecedoras das benesses que os brancos usufruem.Assim, dá para explicar o fato de tantos pretos e pardos não se declararem negros e omitirem o fato de ter prestado vestibular pelo sistema de cotas.