Kapittel 2. Profesjon og kunnskapsformer - teoretiske tilnærminger og perspektiver
2.6 Profesjon og kunnskap
Na hora da eleição eram os telegramas, os recados, os portadores trazendo recomendações da Executiva, ordens para descarregar toda a votação em fulano e beltrano. Deputados que o povo não conhecia e que, depois, nem respondiam às cartas dos eleitores! E votação de graça: o peso da campanha, as despesas todas com a eleição, tudo ficava nas costas do pessoal do diretório, principalmente nas do chefe municipal.186
3.1 – A construção do republicanismo e o governo do Coronel Mello
A colonização alemã na região tem seu começo no ano de 1854 e o ponto de partida para esses novos imigrantes se estabelecerem nesse espaço geográfico estaria ligado à expansão das primeiras colônias localizadas no entorno de São Leopoldo, que já apresentava um excesso de contingente e falta de melhores terras para a colonização. Contando ainda com o incentivo do governo imperial, novas glebas de terras foram sendo comercializadas, através de empresas e/ou particulares, aumentando as crescentes levas de imigrantes e descendentes alemães. A partir do município de Taquari os novos colonos foram adquirindo suas propriedades em torno do Rio Taquari e, com isso, conquistando espaço nas recém-criadas localidades. Com o estabelecimento do núcleo colonial de Estrela e com a realização das primeiras eleições, ainda no período de Dom Pedro II, ficou constatada uma esmagadora maioria de partidários do Partido Liberal contra uma minoria do Partido Conservador. (SCHIERHOLT, 1989, p. 25).
Apesar da classe dominante latifundiária se encontrar descontente em relação a algumas políticas monarquistas, entender que estava sendo subordinada a uma política centralizadora e que o Rio Grande do Sul detinha pouca autonomia, percebeu-se a incapacidade do regime imperial em atender seus apelos. Todavia, “diante da conjuntura que se apresentava, a República foi a nova alternativa política e o PRR o seu instrumento partidário no nível estadual”. (PESAVENTO, 1997, p. 65-66).
A Proclamação da República e a consequente troca do modelo latifundiário imperial monarquista pelas políticas republicanas adotadas pelo PRR em nosso Estado fizeram com que entrassem em choque essas duas realidades em busca da hegemonia do poder local, ou seja, enquanto uma oligarquia latifundiária imperial era destituída de seu poder, ascendia uma nova oligarquia republicana liderada por Júlio de Castilhos e seu PRR. Vale ressaltar que não
havia somente republicanos castilhistas mas também outros grupo ligados ao republicanismo, que ficavam longe da oposição formada pelos federalistas.
Isso resulta na Revolução Federalista de 1893-1895 e a consequente consolidação da hegemonia dos republicanos sobre os federalistas. Essa vitória do PRR representa uma nova maneira de administração para os gaúchos, mas consolidado nas mesmas formas do sistema coronelista, ou seja, havendo aí uma readequação das forças dentro da rede de compromissos. Essa rede, antes sem a necessidade do aval do poder público, passa a ser o integrante principal na manutenção dessa superioridade republicana, quando detém a máquina pública.
O período conturbado na implantação do republicanismo no Rio Grande do Sul ficou marcado pela instabilidade política e pela contrarrevolução.187 A fim de se manter no governo,
Júlio de Castilhos buscou aliar-se aos grupos que poderiam dar sustentação a sua rede de compromisso, mesmo admitindo os antigos conservadores nas hostes do Partido Republicano, Castilhos almejava anular qualquer tentativa dos liberais assumirem a chefia estadual. Por isso, no caso específico de Lajeado – que conseguiu sua emancipação política e administrativa de Estrela nesse tempo tumultuoso – muitos simpatizantes do Partido Liberal acabaram sendo destituídos de seus cargos.
Com a vitória da contrarrevolução e a substituição de Castilhos por uma junta governativa, composta por João de Barros Cassal, Joaquim Francisco Assis Brasil, Domingos Alves Barreto Leite e Manuel Luís da Rocha Osório, esse momento ficou conhecido como “Governicho” – nome dado pelo próprio Patriarca Republicano. O resultado dessa destituição ganhou contornos dramáticos com o desfecho da Revolução Federalista. Na região do Alto Taquari, os proprietários de casas comerciais e industriais, na grande maioria liberais que se tornam federalistas, deram o suporte para a realização de uma guerra civil pois os republicanos restringiam-se a autoridades e empregados públicos. (SCHIERHOLT, 1989, p. 27).
Em virtude do conflito armado, as principais lideranças lajeadenses buscaram refúgio na cidade de Taquari – reduto republicano durante essa revolução e devido a isso, ocorreu a acefalia da administração intendencial. As constantes trocas de intendentes e demais cargos públicos dentro da rede de compromisso que cada governo estadual tentava articular trouxeram muitas incertezas e confusões entre os imigrantes. Vale ressaltar que durante todo o período conflituoso não houve a cobrança do imposto territorial em virtude das dificuldades
187 Desde a Proclamação da República, ou seja, um ano e oito meses depois do dia 15 de novembro de 1889, o
Rio Grande do Sul já havia sido governado por seis presidentes do Estado diferentes, demonstrando a total instabilidade política reinante no período de consolidação do regime castilhista.
resultantes dessa acefalia. Além desse problema político e econômico, a falta de comando facilitava a invasão das tropas federalistas comandadas por José Altenhofen e José Antônio de Souza, conhecido este por Palmeira.
Com o deslocamento de batalhões de Corpos Provisórios e da Brigada Militar, muitos conflitos ocorreram na região e várias invasões das vilas de Estrela e Lajeado foram reprimidas pelas tropas governistas, que sempre estavam no encalce do exército federalista. O desfecho final da guerra civil marcou a institucionalização do regime castilhista com a implantação da Constituição Estadual de 1891, que se fez a ferro e fogo. A carta “municiava o diretor político e administrativo com notáveis instrumentos de centralização, a tensão entre poder central, lideranças estaduais e municipais atingiu contornos específicos.” (AXT, 2011, p. 102)
Tabela 7 - Executivo e Legislativo de Lajeado (1893-1930)
Mandato Intendente Vice-Intendente Conselho Municipal
1893-1895 Joaquim de Morais Pereira
João Adolfo
Marder / Nicolau Diel
Frederico Heineck (presidente), João Worm, Frederico Jaeger, João Dullius, Batista Lucca Filho, Joaquim Pereira Fialho de Vargas e Filipe Bender.
1895-1896 Júlio May
1896-1900 Júlio May Júlio Jorge Schnack (presidente), Felice Laner, José Buchmann, Carlos Stoll, Filipe
Bender, José Diel e Roberto Süptitz.
1900-1902 Júlio May Emílio Schlabitz (presidente), Jacó Ruedell,
Carlos Stoll, Fernando Bechlin, Benvenuto Ronca, José Diel e Carlos Spohr Filho. 1902-1904 Francisco Oscar Karnal
1904-1908 Francisco Oscar Karnal
Frederico Jaeger (presidente), Carlos Spohr Filho, Cristiano Dexheimer, Francisco Ourique de Almeida, Adão Aloísio Rockenbah, Bortolo Secchi e José Diel.
1908-1912 Cel. João Batista de Mello Cel. José Diel
José Buchmann (presidente), João Guilherme Wayss, Cristiano Dexheimer, Jacó Ruedell, Reinaldo Arenhart, Bortolo Secchi e Pedro Ruschel Sobrinho.
1912-1916 Cel. João Batista de Mello Cel. José Diel
João Henrique Hugo Baumann (presidente), Cristiano Dexheimer, João Guilherme Wayss, Pedro Ruschel Sobrinho, Jacó Ruedell, Reinaldo Arenhart e Bortolo Secchi.
1916-1920 Cel. João Batista de Mello Cel. José Diel
Carlos Spohr Filho (presidente), Cristiano Dexheimer, Pedro Ruschel Sobrinho, Carlos Troller, Carlos Blasi, Alfredo Lopes da Silva e Valentim Teobaldo Schnack.
1920-1924 Cel. João Batista de Mello Cristiano Dexheimer
Eugênio Henrique Bender (presidente), Carlos Troller, José Weiler Filho, Augusto Schlabitz, José Luís Ruschel, Frederico Waldemar Moesch e Filipe Henrique Scherer.
1924-1928 Carlos Fett Filho Cel. José Diel
Gustavo Jaeger (presidente), Justiniano Borges Pinheiro, Jacó Schid Sobrinho, Gustavo Wiennandts, Henrique Guilherme Zart, Pedro Teobaldo Breidenbach e Paulo Frederico Schumacher.
João Brod Sobrinho, João Frederico Schaan, Américo Viana Marques, Mário Cattoi e José Francisco Algayer.
1930-1931 Frederico Leopoldo Dexheimer Conselho Consultivo. Frederico Leopoldo Dexheimer (presidente), Oscar Hexsel e
Eugênio Schardong. 1931-1932 Manoel Ribeiro Pontes Filho
Conselho Consultivo. Roberto Stahlschmidt (presidente), Orlando Jaeger e Pedro Albino Müller.
1932-1934 Oscar da Costa Karnal Conselho Consultivo. Adelino Lopes da Silva (presidente), João Antônio Sturm e José
Alfredo Spohr.
Tabela elaborada pelo autor. Fonte: Fundo Lajeado, ABM/IHGRGS e SCHIERHOLT (1992).
Assim como Júlio May188, seu antecessor na chefia intendencial, Francisco Oscar
Karnal veio da cidade de Rio Grande para a região propagar os ideais republicanos e depois de ter exercido algumas funções públicas em Estrela, foi designado como um dos organizadores do recente município emancipado de Lajeado. Ali iria tornar-se uma figura importante na concretização do castilhismo na região, juntamente com May, que se tornou a liderança a qual materializou o Partido Republicano local, e, segundo o historiador Schierholt, “no final da Revolução Federalista, preocupou-se com a consolidação do município. Seu secretário, Francisco Oscar Karnal, endereçou ao governo castilhista a indicação do empresário e chefe republicano, Júlio May, como intendente de Lajeado.” (SCHIERHOLT, 1992, p. 115).
A primeira eleição foi realizada em 20 de junho de 1896, quando May recebeu 511 votos contra 219 do opositor federalista Francisco Xavier Müssnich. Sua reeleição foi mais
188 Imigrou da Alemanha para a cidade de Rio Grande, partindo com destino a Taquari, por volta do ano de 1871.
Daí se deslocou para a colônia de Teutônia. Na vila taquariense, em 1873, casou-se com Leopoldina Michel, filha de Pedro Michel, que trabalhava na Comissão de Colonização e Terras. Em 1879 transfere-se para Teutônia, onde abriu uma casa comercial, adjunto um hotel. Ainda em solo taquariense nasceu sua primeira filha, Paulina Leopoldina, que posteriormente casou-se com Carlos Alberto Schüller, com 23 anos de idade, na cidade de Lajeado. Junto com ela, outros três filhos nasceram em Taquari. Pelo ato nº 44, de 14 de abril de 1882, a colônia de Teutônia vira sede especial do 2º distrito de Estrela. Em 15 de outubro de 1891, já no período republicano, May é eleito conselheiro municipal, mandato este exercido até o ano de 1896. Nesse período já havia assumido o cartório de registro no distrito. Por curiosidade, o primeiro registro foi o casamento de Carlos Fett Filho, que será intendente lajeadense na década de 1920. O segundo filho, Adolfo Pedro, nascido no ano de 1875, substituiu o pai no cartório no ano de 1892. A terceira filha, Antônia Cláudia, nascida no ano de 1877, casou com Ernesto Gregoire, que possuía o cartório em Encantado, falecendo no dia 26 de outubro de 1903, com apenas 26 anos de idade. Durante a Revolução Federalista, sua casa de comércio foi saqueada e incendiada no dia 15 de março de 1894, pelas tropas federalistas comandadas por José Altenhofen, que comandou as invasões das vilas existentes no Vale do Taquari. Transfere-se para a Linha Beija-Flor [Costão], em Estrela, onde abre um abatedouro de suínos. O local era onde o comandante Altenhofen possuía suas terras e alambique. Meses após, vende o negócio para Guilherme Veirech, mudando-se novamente para Nova Berlim, atual Marquês de Souza. E no ano de 1895 fixa residência na vila de Lajeado, onde em quatro de fevereiro é nomeado intendente por Júlio de Castilhos. Mesmo ainda cumprindo o mandato de conselheiro municipal em Estrela, May recebe a incumbência de pacificar e organizar administrativamente o novo município. Em 20 de agosto de 1900, é reeleito com 1.208 votos, como candidato único. Em nove de fevereiro de 1902, durante seu segundo mandato, acaba falecendo. O subintendente da vila, Abrelino Magalhães Machado, assumiu a intendência e organizou as eleições que o secretário municipal Francisco Oscar Karnal venceu.
tranquila em 1900, quando recebeu 1.208 votos em candidatura única e nomeou João Batista de Mello como secretário intendencial. É sob as lideranças de May, Karnal e Mello que ficou marcado o cenário republicano durante quase toda a República Velha. Em pleno segundo mandato, Júlio May acabou falecendo após uma enfermidade repentina havendo então a necessidade de novas eleições, marcadas para o dia dois de abril de 1902 e Karnal sendo eleito intendente municipal com 2.080 votos, também em chapa única.
Figura 13 - Júlio May, intendente de Lajeado de 1895-1902, falecendo no exercício do cargo
Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Lajeado
Mesmo encerrada a Revolução Federalista e com a consolidação do poder pelos castilhistas, aconteceram alguns eventos que poderíamos entendê-los como resultado dos desdobramentos do conflito. Como visto anteriormente, a região toda esteve envolvida na guerra civil, inclusive tendo as vilas de Estrela e Lajeado caído para as tropas federalistas comandadas por José Altenhofen em várias oportunidades e durante o mandato de Karnal ocorreram três conflitos que denotaram a preocupação por parte das autoridades.
O primeiro foi em maio de 1902, que ficou conhecido como os Monges de Pinheirinho e mesmo não sendo um dos objetivos desse trabalho, acredito que uma explanação sobre esse conflito seja necessária para entendermos o desenrolar da consolidação republicana no Alto Taquari. Um grupo de caboclos permaneceu, por meses, em terras devolutas do Estado entre os municípios de Estrela e Lajeado, na época, na barranca esquerda do Rio Taquari, bem próximo do florescente povoado de Encantado. Mesmo que os registros referentes ao
movimento tenham origem messiânica, não podemos deixar de contextualizar a situação dos membros desse grupo.
Tratava-se de pessoas humildes, caboclos marginalizados pela expansão das colônias ítalo-germânicas e que não possuíam nenhum tipo de posse. Quando a detinham, foram simplesmente expulsos das terras devolutas onde havia pequenas plantações para a sua subsistência. Como essas pessoas estariam subtraindo alimento das plantações vizinhas ao acampamento, os colonos próximos procuraram as autoridades para manifestar a apreensão quanto à existência desse grupo famigerado que foi mal vistos pela população colonial, por isso alguns moradores das localidades de Conventos Vermelhos – atual Roca Sales – e de Encantado – então segundo distrito de Lajeado – buscaram amedrontar os caboclos e foram reprimidos em um conflito que resultou na morte de alguns colonos.
Foi o pretexto ideal para a intervenção de um Batalhão da Brigada Militar189, que
dizimou o grupo com a intenção de manter a ordem pública. O historiador Schierholt não ficou somente com a tese do grupo ter origem messiânica como comparação aos Muckers, mas contextualizou a situação como resultado de uma análise econômica e política ao afirmar que
As empresas imobiliárias, latifundiárias e promotores de colonizações adquiriram grandes quantidades de terras onde os caboclos já viviam. Subdivididos os latifúndios em lotes coloniais e vendidos aos imigrantes, eram os posseiros coagidos a abandonar seu habitat e embrenhar-se nas matas e serranias. Sobreviviam da colheita de erva-mate, pinhão e algum artesanato de cipó. Muitos destes serranos e ervateiros engrossaram as fileiras do exército federalista, com a promessa e esperança de melhores dias. (SCHIERHOLT, 1992, p. 128).
Como nenhum tipo de manifestação poderia ser tolerado durante a consolidação do regime republicano e, se surgisse um conflito, o mesmo deveria ser exterminado com o propósito de manter da ordem pública. Qualquer desavença corria o risco de ser enquadrada nesse quesito e não admitida aos partidários do castilhismo, que buscavam amenizar a situação alegando simplesmente ser foco de prováveis federalistas descontentes com o resultado final da Revolução de 1893-95.
189 O comando desse batalhão foi confiada a Ramiro de Oliveira, Subchefe de Polícia da região de Cachoeira do
Sul e Santa Maria. Ele ficou conhecido por sua atuação como delegado político de Júlio de Castilhos e de Borges de Medeiros. Influente liderança positivista no interior do Estado, Ramiro tornou-se um braço leal do regime borgista. A formação de uma rede de compromisso com os chefes políticos sob sua jurisdição foi determinante para a construção da hegemonia de Borges de Medeiros depois das crises internas do PRR, principalmente a de 1907. Importante mencionar que “os subchefes de polícia eram muito mais do que funcionários responsáveis pela segurança pública, pois exerciam na prática atribuições de agentes políticos. Ramiro de Oliveira intercedia junto às lideranças de diversos municípios [...] costurando acordos com os coronéis em benefício do governo.” (AXT, 2011, p. 111)
As outras duas divergências ocorreram no ano de 1903 sem vítimas fatais nem perseguições ou violência arbitrária como fora encontrado no evento descrito anteriormente. Um outro grupo de ervateiros e serranos estaria circulando na localidade de Linha Caçador, pertencente ao atual município de Nova Bréscia e, como preocupação no sentido de evitar o que havia ocorrido no povoado de Encantado, os colonos desta picada procuraram as autoridades para que fosse averiguada a situação desses caboclos. A Guarda Municipal foi solicitada, mas, ao chegar em Caçador, não encontrou o referido grupo, que acabou se dispensando. Em mensagem enviada ao Conselho Municipal, em seu relatório anual referente à administração intendencial, o Coronel Karnal mostrou o cenário que esses grupos encontravam na região ao se movimentarem pelas picadas existentes e seriam repelidos pela força.
O terceiro caso aconteceu na Linha Esperança, então pertencente ao distrito de Guaporé, e também teve a intervenção da guarda municipal no apaziguamento da situação para manter a paz e a ordem. Segundo Schierholt,
o padre Teodósio Sanson, vigário da localidade, convidou os padres capuchinhos para abrir uma casa de formação de religiosos, que chegou a ser construída. O vigário escolheu para a sede da igreja um local perto de sua propriedade, contando com o apoio de alguns líderes, enquanto os capuchinhos escolheram outro local. (Ibid., p. 128).
Estava determinado o conflito, porque um grupo defensor do padre Sanson e de outros partidários dos capuchinhos, que, desde 1897, não aceitaram a indicação feita pelo vigário, resultando num acirramento dos ânimos. Nesse tempo também aconteceram três secas seguidas, o que prejudicou muito a exportação do excedente para os grandes centros comerciais. E como o município de Lajeado começava a receber um contingente numeroso de imigrantes e descendentes alemães e italianos, essa prolongação da seca prejudicou a arrecadação das receitas intendenciais. Junto com isso estava em andamento o pedido de emancipação política da colônia de Guaporé, que num surto espetacular de desenvolvimento, recebeu uma grande quantidade de imigrantes italianos oriundos do excedente populacional das antigas colônias da região serrana.
Em março de 1903 a região recebeu a única passagem realizada por Borges de Medeiros ao Alto Taquari. Em visita dos núcleos coloniais, o sucessor do patriarca Júlio de Castilhos passou pela colônia de Guaporé e foi recebido pelo jovem engenheiro Vespasiano Rodrigues Corrêa, diretor da comissão de Terras e Colonização. Na sequência passou por Lajeado e Estrela e no seu retorno à capital gaúcha, o intendente Karnal remeteu-lhe uma longa missiva explicando a situação embaraçosa que estava encontrando o subintendente Nicolau Petry com
o próprio diretor Vespasiano Corrêa. O domínio do poder junto aos imigrantes e seus descendentes quando da existência de duas autoridades constituídas sempre causava uma disputa.190 Isso fazia com que as relações de poder nem sempre fossem amistosas entre essas
lideranças com colonos, muitas vezes, alheios a essas contendas porque quando pendiam para algum dos lados em disputa, sofriam perseguições ou eram usados como forma de pressão.
Um dos principais embaraços que poderia causar sérios problemas políticos nos núcleos coloniais eram as questões relacionadas ao pagamento de impostos. Junto com a cobrança do fisco, muitas vezes vinha a inadimplência de tais taxas, o que resultava em multas e queixas de abusos das autoridades. E era justamente isso que vinha ocorrendo no distrito de Guaporé, quando o diretor Corrêa teria acordado com os colonos que trabalhassem na construção das estradas, teriam o seu pagamento sendo uma parte em dinheiro e o restante em resgate da dívida fundiária. Com a crescente chegada de colonos no novo núcleo instalado, houve a necessidade de contratação de várias turmas de imigrantes para a abertura das estradas de rodagem mas como o Estado não havia repassado a verba para o pagamento dos trabalhadores, muitos colonos foram surpreendidos com a aplicação de uma multa de 50% sobre seus débitos por falta de pagamento, estava portanto, armado o conflito.
Os imigrantes trabalhadores das estradas se sentiram ludibriados por Vespasiano Corrêa e apresentaram uma petição no consulado italiano exigindo que o governo de Borges de Medeiros desse uma prorrogação maior ao prazo de pagamento, já que o recurso deveria vir dos cofres do Estado pelo serviço prestado. Em agosto de 1903, o agente consular Luigi Zanella, que residia no povoado de Encantado, comunicou aos colonos que havia entrado em acordo com o governo estadual mas a cobrança persistiu, agora até com ameaça de expropriação do lote colonial por falta de pagamento. Alguns imigrantes entraram na justiça