Kapittel 7. Arkitekters klienter og andre mennesker. Oppfatningene til fagets
7.8 Klienten som mesén
O ponto alto das comemorações do Sesquicentenário da Imigração alemã aconteceu em 25 de julho de 1974, data em que se comemorou de fato a chegada dos imigrantes alemães em São Leopoldo. Foi o momento em que os festejos tiveram a presença do seu mais ilustre espectador: o Presidente Ernesto Geisel. Com bastante antecedência a imprensa noticiou a sua
vinda, destacando sempre a descendência alemã daquele que representava o maior poder político do país na época:
E a efeméride do Sesquicentenário se engalana ainda mais por encontrar na Presidência da República um filho de imigrantes e colonos, o General Ernesto Geisel, e no Ministério do Trabalho, o leopoldense, Arnaldo da Costa Prieto, continuador da obra de outro leopoldense, Lindolfo Collor, criador e primeiro ocupante desse Ministério (REVISTA RUA GRANDE, 1974, p.01).
Politicamente, a presença de Geisel nas comemorações do Sesquicentenário da Imigração alemã representou muito mais do que apenas seu pertencimento étnico. Roehe (2005) aponta que este período festivo significou também um estreitamento de laços entre Alemanha e Brasil, resultando em um desenvolvimento econômico das regiões de imigração alemã, devido a investimentos vindos da Europa, fruto da parceria que se estabelecia. Sobre este tema, em entrevista realizada por Roehe (2005, p.51), Germano Oscar Möelecke, Vice- Presidente da Comissão Executiva para o Sesquicentenário da Imigração Alemã afirmou que “a festa do Sesquicentenário foi o grande boom para a industrialização da cidade de São Leopoldo, inclusive das relações com a Alemanha. As comemorações serviram como propaganda na Alemanha”. Havia também o interesse em divulgar as comemorações do Sesquicentenário da Imigração Alemã, o Rio Grande do Sul e o Brasil, de um modo geral, à Alemanha através da sua imprensa, que compareceu aos festejos, documentando-os. Assim, as comemorações do Biênio da Colonização e Imigração apresentaram-se como um evento de repercussão mundial, e a presença do Presidente da República em meio a tal visibilidade é um ato político.
A comitiva presidencial foi recebida na Base Aérea de Canoas às 11h30 do dia 25 de julho, pelo Governador Euclides Triches, pelo Coordenador da Comissão Organizadora do Biênio da Colonização e Imigração Victor Faccioni, e pelo Presidente da Comissão Executiva do Sesquicentenário Rodolpho Englert.
Dirigiram-se diretamente para São Leopoldo, onde um almoço na Sociedade Orpheu – que teve como prato principal o churrasco – foi oferecido em homenagem ao Presidente Geisel. Estiveram presentes autoridades da República Federal da Alemanha, como o Embaixador Horts Röding; o Ministro Bernhard Vogel, representante oficial da Alemanha no estado; o Deputado Federal Franz Josef Strauss, representante do Parlamento Alemão; o Cônsul Werner von Beyne; o ex-Cônsul Christian Zinsser; o historiador Jean Roche e 14 jornalistas dos principais veículos de comunicação social daquele país. Ainda durante o
almoço, o Presidente Geisel assistiu a uma apresentação do Conjunto Folclórico de Estrela, do qual fazia parte sua sobrinha e também afilhada da Primeira Dama, e foi presenteado pelas mãos do Prefeito de São Leopoldo, Henrique da Costa Prieto, com produtos da indústria gaúcha: um revolver Rossi folheado a ouro com seu nome e a data do Sesquicentenário gravada. Também foram presenteadas a Primeira Dama Lucy e sua filha Amália.
No início da tarde, marcado para as 13 horas, iniciou o espetáculo que culminaria na réplica de chegada dos primeiros alemães em São Leopoldo, às margens do Rio dos Sinos, no Largo do Sesquicentenário.
Figura 4: Espectadores presentes no Largo do Sesquicentenário para a encenação da Réplica
Histórica de Chegada dos imigrantes alemães.
Fonte: DUARTE, 1974, p.303.
Conforme podemos observar na imagem, o tempo, que estava chuvoso naquele dia, não impediu que muitas pessoas – cerca de 20.000 – participassem deste momento festivo. A população que se dirigiu ao Largo do Sesquicentenário exerceu este movimento de ida até o local dos festejos, para participar das comemorações, mas principalmente para ver o Presidente da República. Ocuparam a Ponte 25 de Julho, o trevo de acesso à São Leopoldo, os altos da Rodoviária, as ruas e as margens do Rio dos Sinos, espaços estes que se encontravam enfeitados com bandeiras e cartazes que saudavam o Presidente. Também foram
disponibilizadas arquibancadas de ferro para os espectadores, em uma espécie de anfiteatro de 200 metros de diâmetro, totalizando 5 mil lugares, divididos entre convidados e espaço público. No centro, formava-se um grande mapa do Rio Grande do Sul, com 35 metros de diâmetro e um metro de altura do solo ornado com frutos da terra, símbolo da fertilidade: era o palco das encenações.
Figura 5: Mapa do local em que ocorreu a encenação da Réplica Histórica de Chegada dos
imigrantes alemães.
Fonte: Programa Sesquicentenário da Imigração Alemã em São Leopoldo.
Localização: Arquivo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo. Fundo: Sesquicentenário da Imigração Alemã.
O espaço destinado a receber a encenação da réplica da chegada dos imigrantes era formado por sete arquibancadas, destinadas, como já dissemos, a convidados e à população em geral. Havia também o palco, que em formato de mapa do Rio Grande do Sul, fez parte da simbologia presente na encenação: era o local de chegada dos imigrantes. Também foi criado um espaço de destaque, uma Tribuna onde se instalou a Comitiva Presidencial, localizada em frente ao palco. No lado direito, estavam dispostas as bandeiras do Brasil, da Alemanha, do Rio Grande do Sul e de São Leopoldo. E ainda se via, como forma de homenagem à cidade
que recebeu os primeiros imigrantes alemães, em forma de semicírculo, as bandeiras dos municípios emancipados de São Leopoldo. Este Largo do Sesquicentenário foi montado e planejado para estar próximo àquele que foi o elemento que ganhou maior atenção durante a réplica de chegada dos imigrantes: o Rio dos Sinos.
O Rio dos Sinos foi para as comemorações do Sesquicentenário, um lugar simbólico e de grande importância para a encenação que se destinou a rememorar a chegada dos imigrantes, já que representa o local em que se deu o primeiro contato entre os imigrantes que chegavam e a cidade que os adotava. Ainda que o espaço físico tenha sido preparado para receber a encenação, sua simbologia já presente foi apenas reafirmada ritualmente através das comemorações, considerando que “há determinados lugares que já possuem, previamente, as características simbólicas especiais [...] que dispensam qualquer tipo de preparação específica (RIBEIRO, 2002, p.42)”.
Figura 6: Germano Oscar Moehlecke, Vice-Presidente da Comissão Executiva para o
Sesquicentenário da Imigração Alemã, Presidente da República Ernesto Geisel e Governador do Rio Grande do Sul, Euclides Triches.
Fonte: Acervo do Arquivo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Foi a chegada do Presidente Geisel ao Largo do Sesquicentenário que deu início ao espetáculo propriamente dito, através da execução do Hino da República Federal da
Alemanha, pela Banda do 19ºBIMtz, seguido pelo Hino Nacional Brasileiro, acompanhado por tiros de canhões executados por uma bateria do 16º GAC, localizadas às margens do Rio dos Sinos.
Era então o momento da encenação da Réplica Histórica da chegada da primeira leva de imigrantes alemães, sob o título “Utopia ontem. Realidade hoje”, e que contou com 200 figurantes coordenados pelo Professor Jair Quintino Líbero. Primeiramente, subiram no palco 120 dançarinas vestidas com malhas vermelhas, amarelas e verdes, cores que representavam o estado, e realizaram uma coreografia, formando ao final, um “150” e em seguida uma moldura colorida para o mapa/palco. Ao redor do mapa havia a representação de uma estrada, por onde atores vestidos de gaúchos e prendas chegavam em carretas de boi e cavalo. Mas, o ápice da encenação da Réplica Histórica foi a chegada dos imigrantes pelo Rio dos Sinos.
Figura 7: Encenação da Réplica Histórica de Chegada dos imigrantes alemães.
Fonte: Acervo do Arquivo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Neste momento, soaram os sinos das igrejas e apitaram as fábricas de São Leopoldo. No intuito de que todo o Rio Grande do Sul se unisse às comemorações promovidas nesta cidade, foi solicitado que todas as fábricas e igrejas do estado fizessem o mesmo.
Os lanchões – na encenação, partidos do Curtume Bier – vieram empurrados a vara por escravos, trazendo os primeiros imigrantes – homens, mulheres, crianças e idosos – até as margens junto ao Palanque Oficial. As bandeiras presentes no barco, nas cores da Alemanha, marcaram o local de origem destes imigrantes, uma designação identitária que não será esquecida. As roupas usadas pelos atores que representavam os imigrantes foram confeccionadas especialmente para este momento, sendo extraídas de enciclopédias alemãs dos anos de 1822 e 1824, em colaboração com o Consulado Geral da Alemanha que forneceu os modelos de base para a confecção. Conforme podemos ver na imagem, o vestuário utilizado se refere ao clima da época da chegada dos primeiros imigrantes, pois em julho geralmente faz frio nesta região, porém ainda existe certo debate sobre o fato de que os imigrantes chegados em São Leopoldo em 1824 não estivessem tão bem vestidos, pois estariam chegando ao estado em condições pouco favoráveis. Mas, em momentos celebrativos, estas questões recaem ao esquecimento.
O momento comemorativo não é aberto a contradições e disputas, pois o ato da memória pacifica o passado, partindo de um olhar positivo da experiência, do olhar saudoso do nostálgico. Nesse sentido, a pluralidade da realidade passada e filtrada pela construção de uma identidade étnica positiva, marcada pela tradição e pelos valores comuns vivenciados pelo grupo (BENEDUZI, 2011, p. 265).
Ao desembarcarem, tiveram seus pertences carregados pelos escravos. Os pertences trazidos pelos figurantes, que não aparecem na imagem, também foram de grande importância para a encenação, pois ali estava contido o imaginário e as lembranças da terra de origem que fora deixada para trás, a fim de se viver uma nova vida. Subiram todos ao palco e se colocaram de joelhos, em sinal de agradecimento à chegada e à acolhida. Este gesto simbólico corrobora uma das mensagens atreladas às comemorações do Biênio da Colonização e Imigração: o sentimento de gratidão, que partiu do gaúcho que acolheu as levas imigratórias, mas também dos imigrantes pela acolhida recebida. Neste momento, realizou-se um ato ecumênico regido pelo Padre Aloysio Bohnen e pelo Pastor Dr. Nelson Kirst, com a participação de corais da região. Percebemos que a fé e as crenças também tiveram espaço nesta encenação, que ao final procurou dar visibilidade à integração entre as culturas alemã e gaúcha através da apresentação do Conjunto de Dança da Schwaben Internacional, acompanhados pela Banda Marcial Alemã, e um conjunto de danças do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) “Tio Lautério”. Ainda, 500 colegiais entoaram canções acompanhados pela
Banda do 19º BIMtz em homenagem ao Presidente da República. Neste momento foi encerrada a encenação com o deslocamento dos imigrantes em carreata para a Feitoria91.
A repercussão do evento nos dias que se seguiram foi favorável, já que
As comemorações do Sesquicentenário da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul assumiram, já em seu início, dimensões das mais expressivas e tocantes. Os organizadores das festividades tiveram extrema sensibilidade, valorizando aspectos plásticos e históricos. Conseguiram reviver a chegada dos imigrantes às margens do Rio dos Sinos em São Leopoldo, com perfeição e dignidade (CORREIO DO POVO, 27 de julho de 1974, s/p).