O que todos têm em comum é o fato de se encontrarem desempregados e a maior parte, nem sequer se encontra inscrita no centro de emprego. Como meio mais fácil de fazer dinheiro, fácil mais segundo os entrevistados, para evitar roubar ou "fazer mal", recorrem a esta atividade para ganhar alguma coisa para sobreviverem. No caso de António Pereira, ser arrumador de carros é não ter horário fixo para trabalhar. Pode trabalhar mais cedo, ou mais tarde. Revela a flexibilidade de ser arrumador de carros, como algo positivo, mencionando assim que, “Isso (arrumar carros) não tem horas certas pah!! (risos) Não tenho horas pa...horas certas pa trabalhar, atão tou aqui logo há duas horas, à noite passar mais duas, como posso”.
Manuel Diogo tem capacidades para ser estocador e pintor. Apenas arruma carros, porque não encontra outro trabalho para auferir o mínimo para viver, “ser arrumar é...não ter trabalho, a minha profissão é estocador, pintor estocador...”.
Para Jorge Manuel, ser arrumador de carros é estar desempregado e não haver outras possibilidades de trabalham, que lhe permitam auferir o montante suficiente para o quotidiano, sendo assim a única possibilidade que tem de fazer dinheiro, sem praticar atos ilícitos. A
57 imagem, enquanto aspeto físico, é algo que “danifica" a imagem do arrumador de carros, associando-a à toxicodependência. Ao contrário de outros participantes, Jorge encontra-se inscrito no centro de emprego, mas até hoje ainda não conseguiu arranjar outro ofício e não tem um local fixo para arrumar carros. Por palavras suas, Jorge menciona que, “...tou nesta vida...pois vai-se arrumando uns carrinhos e vai-se ganhando, pelo menos pa se comer alguma coisa e pra comprar o tabaquinho (...) tou inscrito no centro de emprego já algum tempo...tenho lá a ficha de inscrição e a partir daí, não consegui arranjar mais trabalho. E então dediquei-me a estacionar uns carros, pois não...não se ganha muito, mas prontos é melhor do que andar aí a roubar e a fazer outras coisas, que possam...prejudicar as pessoas (...) Pois...é uma profissão que normalmente a gente fica uma pedacinho queimados, porque as pessoas geram um arrumador de carros, uma pessoa toxicodependente, não é? (...) Prai (sic) uns dez anos (duração da atividade) (...) Não…costumo andar aí de um lado pro outro".
Na opinião de Carlos, ser arrumador de carros e arrumar carros é vergonhoso. Apesar disso continua a arrumar carros, pois tal como outros seus colegas, as possibilidades de encontrar outro trabalho/emprego são poucas ou inexistente, como o mesmo diz, "olhe, pra mim é vergonhoso, pra é vergonhoso digo-lhe já, tou...nesta situação, porque não tenho ah…trabalho…pronto".
João Negrão revela que o desemprego é o principal fator, responsável por ser arrumador de carros. Tal como Jorge, é uma forma de auferir rendimento e evitar a prática de crimes. João já arruma desde 1991 no mesmo parque de estacionamento junto ao estádio de S. Luís. João revela algumas dificuldades, mas apesar disso, continua a fazer o que consegue todos os dias da semana, nunca pedindo a clientes por moeda. Como diz, "é assim não há trabalho, mas uma pessoa tem de se jogar a qualquer coisa pra não fazer asneiras não é? Pois, arruma-se uns carrinhos e espero pela caridade das pessoas, de cada um (...) é o que eles podem ajudar dão, há muitos que não dão nada, nem bom dia dizem e é assim.…é o dia-a-dia".
Na perspetiva de Hélder, arrumar carros é uma atividade que se resume a moedas, não dá para acumular riqueza, ter uma boa qualidade de vida e por vezes ser as suas necessidades básicas satisfeitas, como a alimentação ou o vestuário, "ora bem...isto aqui, isto é um...é uma coisa, é umas moedas...isto aqui um gajo não ganha grandes fortunas. Mal dar isto um gajo comprar um papo-seco isto é que...tem dias que nem faz aqui, nem, nem pa comer uma sandes...".
58 Ser arrumador de carros, para António Negrão, é ser livre, sendo também a possibilidade de conhecer pessoas e estabelecer laços sociais. O espaço que partilha com o irmão João, é um local onde os clientes que costumam usufruir do parque regularmente já os conhecem e sempre que aparece alguma viatura vandalizada, os utentes do parque já sabem que não foram os irmãos Negrão, pois os mesmos consideram-se mais do que arrumadores de carros para com os seus utentes, ou seja, a confiança que têm dos utentes, dada o seu longo período de atividade no terreno. António, menciona que, “é assim, olha...é…é mais huh...é um bocado mais livre (...) conheço as pessoas, são pessoas amigas, o único parque que a gente trata por tu é este, as pessoas tudo da boinha (sic) com a gente, olha que não tenho, logo te dou amanhã na boinha (sic) logo me dá e depois às vezes é ofertazinhas daqui, dali, dali...Os paraquedistas vêm aqui, riscam os carros às pessoas, só que as pessoas sabem que nós nunca fazemos isso (...) já sabem que se isto aparecer aqui assim não somos nós".
Quintério de Jesus encontra-se também desempregado e não recebe apoios económicos e sociais, como tal a solução que encontra é arrumar carros. Não é aufere muito, mas o suficiente para não passar por necessidades. Quintério não gosta que interfiram com o seu trabalho e o que gosta mais quando arruma carros é o reconhecimento e valorização, que os seus clientes lhe conferem. É arrumador há cerca de quatro anos. Posteriormente recebia apoio da segurança social, possivelmente, o rendimento social de inserção (RSI). Basta-lhe três horas por dia de manhã, no parque de estacionamento do mercado municipal de Faro para conseguir o valor que considera ser suficiente. Nas palavras do mesmo, "arrumar carros é uma pessoa que não tem trabalho, não tenha nada não (...) dá pra uma pessoa se desenrascar (...) O que é que eu gosto menos? É que se tejam a meter no meu trabalho (...) O que é que eu gosto mais é de arrumar carros e...as pessoas dizem...que eu sou boa pessoa e sei trabalhar (...) Há uns quatro anos. Já arrumei mais tarde, mas e po (sic) parei...arrecebi uma cena da segurança social não é? E agora há quatro anos, que eu tou a trabalhar outra vez nisto. Três horas, três horinhas. Tou sempre aqui na praça. De manhã tou sempre aqui, das nove ao meio-dia tou sempre ai" (Quintério de Jesus).
Manuel Diogo, também ele desempregado, reconhece que a atividade de arrumador de carros não permite auferir elevados montantes, mas apesar disso, consegue controlar e fazer gestão dos rendimentos que consegue auferir num dia. Mantém um nível de vida equilibrado, evitando gastar logo tudo o que ganha num dia. A experiência de vida de Manuel e as dificuldades, que passou e algumas que ainda passa, permitiram-lhe pensar e gerir a sua vida de um modo mais moderado. Segundo palavras suas, "eu consigo juntar dinheiro! É que
59 eu...admira-me é essas pessoas que não conseguem, mas eu consigo juntar dinheiro! Eu chego ao fim do dia sempre com dez, doze, treze, catorze e quinze no bolso...eu não me estico. (...) Vou ao cafezinho, tomar o meu cafezinho, ainda hoje fui ao restaurante, três euros e vinte a refeição (...) há pessoas que não andaram tanto como eu sabe? Não sabem o que é querer e não ter. Não sabem o que é querer e não ter" (Manuel Diogo).