2. Theoretical background
2.2. Shipbuilding
2.2.2. Product
Redes sociais são as relações entre pessoas, mediadas ou não por sistemas informatizados. Essas relações podem ser efetivadas por interações que visam a mudanças na vida das pessoas, para o coletivo ou para organizações, visto que podem ser estabelecidas em razão de interesses particulares, em defesa de outros ou em nome de organizações. Além dessas
motivações, as redes podem ser estabelecidas em função de movimentos sociais com finalidades sociopolíticas (AGUIAR, 2007a).
Uma das variações ou especificidade de redes são as denominadas “redes sociais na internet”, que se referem aos formatos de sociabilidade e de relações sociais virtuais, que se diferenciam das relações reais em termos de objetivos e dinâmica. A exemplo das ações sociopolíticas, muitas relações estabelecidas no “mundo real” passam a utilizar a internet como um ambiente adicional de interação, figurando como um espaço público complementar (AGUIAR, 2007a) e permitindo desenvolver o conceito que neste trabalho é apresentado como redes “sociopolíticas virtuais”.
Há uma necessidade dos indivíduos de se integrarem a grupos sociais específicos com que tenham interesses comuns, o que expõe a intenção de se reconhecerem quando buscam conectar-se a redes com as quais se identificam. Além disso, esse tipo de espaço de interação social, em especial o virtual, possibilita a comunicação entre usuários e favorece a desnacionalização, a desestatização e a democratização da informação, pela conectividade mundial estabelecida pela internet (CASTELLS, 1999).
Pode-se compreender a existência das redes sociais por análises sob o prisma das relações sociais e das trocas efetuadas entre os membros dos agrupamentos sociais e não da territorialidade. Para Wellman e Berkowitz (1988), as redes sociais virtuais são mais que simples definição e denominação de elementos que permitem criar uma metáfora para compreender um agrupamento: elas têm por base relações que sustentam uma estrutura em rede. Assim, os nós não representam apenas indivíduos, mas agrupamentos; os laços entre os membros não representam apenas um elemento da estrutura da rede, mas as relações entre os membros pelas quais as trocas fluem.
Diante das possibilidades configuradas pelo novo conceito de tempo-espaço, as pessoas têm passado a se estabelecer em redes no ciberespaço, que, considerando-se o avanço no desenvolvimento da CMC, é conceituado como “espaço conceptual onde se manifestam palavras, relações humanas, dados, riqueza e poder dos utilizadores da tecnologia de CMC” (RHEINGOLD, 1996, p.18). O fato é reforçado em Rheingold (1996), visto que as redes sociais virtuais se tornaram possíveis a partir das dificuldades de encontros reais entre as pessoas, possibilitando criar “laços emotivos” por meio da internet e de discussões virtuais duradouras.
O fluxo de informações interfere no formato do ciberespaço, pois a cada nova postagem, comentário ou disseminação de links, a internet e as redes são alteradas, dando origem a novas relações e modificando os nós da rede. São ações como essas ocorridas entre os indivíduos que permitem que as redes sociais virtuais sejam dinâmicas e alterem suas configurações (RECUERO, 2004a).
Para Lévy (2000, p.127), uma rede virtual “é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independente das proximidades geográficas e das filiações institucionais”. Elas “constituem o fundamento social do ciberespaço e a chave da ciberdemocracia” (LÉVY, 2002, p.67), conforme vai ser discutido. Segundo Rheingold (1996, p.18), as redes sociais virtuais são “agregados sociais surgidos na Rede, quando os intervenientes de um debate o levam adiante em número e sentimento suficientes para formarem teias de relações pessoais no ciberespaço”.
Apoiando-se na teoria neoinstitucional, Marques (2006) chama a atenção para o fato de que as ações políticas e suas estruturas de formulação e implementação não se fundamentam em ações individualizadas, mas coletivas, que são influenciadas pelos contextos nos quais ocorrem, pelas regras e normas, bem como pelo tipo de interação entre os atores envolvidos. Além disso, o autor defende a ideia de que as relações e posições ocupadas na rede pelos indivíduos influenciam a política, já que exercem grande influência na formação de alianças e conflitos.
Rheingold (1996) apresenta como exemplo uma rede social virtual, a Comunidade WELL (Whole Earth Eletronic Link), desenvolvida em São Francisco, nos EUA, em 1985, caracterizada como um sistema de teleconferência precursor e formada por vários tipos de conferências em formato de texto. As teleconferências possibilitaram o intercâmbio social relacionado a certos temas, como lazer, educação, ciência, política, artes, e o envolvimento emocional e a cooperação entre os membros. O autor a considera um tipo de comunidade virtual com capacidade de reproduzir o “mundo real” das pessoas.
As redes sociais virtuais são efetivadas por ciberespaços criados por TICs e diversos recursos disponíveis, entre os quais se destacam listas de discussão, sistemas de boletins eletrônicos (BBSs), e-mails e seus grupos, chats e, em especial, softwares sociais. Entre os principais setores envolvidos nesse tipo de rede estão economia e negócios de diferentes naturezas, educação e sistemas de ensino, bem como movimentos sociais e culturais, como a luta por
questões ambientais, de grupos de minoria e direitos humanos (MACHADO; TIJIBOY, 2005).
O desenvolvimento das redes sociais on-line é uma forma de “fazer sociedade”, comunidades virtuais e uma chave para a ciberdemocracia. Pode-se conceituar comunidade virtual com o entendimento de que “é simplesmente um grupo de pessoas que estão em relação por intermédio do ciberespaço”, o que esbarra em várias definições clássicas de sociólogos a respeito do que é comunidade (LEMOS; LÉVY, 2010, p.101).
Os espaços de convivência digital ampliam as possibilidades de interação, de comunicação e de acesso a informações, possibilitando a criação de redes complexas, nas quais a estrutura não segue um padrão regular e, por isso, as informações se propagam além do raio de ação direta. Diante disso, uma das principais características desse tipo de rede é a falta de controle e de previsão quanto ao direcionamento das informações, que provocam constantes mudanças em termos de tempo e espaço (SCHLEMMER et al., 2006).
As redes sociais virtuais apresentam diversas possibilidades aos indivíduos, entre as quais se destacam condições de criar um perfil público ou parcialmente público, acessar outros perfis de usuários, criar uma lista de amigos, participar ativamente ou apenas como expectadores de discussões, desenvolver conhecimentos e habilidades, bem como manter contatos com pessoas já conhecidas fora do ciberespaço (HARRISON; THOMAS, 2009; SANTOS JÚNIOR; MANTOVANI, 2010). Portanto podem ser compreendidas como comunidades individuais, por relações personalizadas, nas quais os indivíduos elegem seus laços sociais por análises e categorizações em função das personalidades demonstradas nos perfis virtuais (RECUERO, 2004a).
Com as relações estabelecidas, os indivíduos têm a possibilidade de escolher aqueles com quem desejam se relacionar, diferentemente das relações estabelecidas com a família e a comunidade, que se dão como primeiro processo de socialização. Além disso, as redes suportam não só laços relacionais frágeis, mas laços fortes e íntimos, e podem permitir que esses laços estabelecidos nas redes virtuais tenham também presença na “vida real” dos envolvidos (WELLMAN, 1999; 2002; WELLMAN; GULIA, 1999).
Primo (2000) esclarece que os sistemas de Comunicação Mediada por Computador (CMC) proporcionam dois tipos de interação social: interação mútua, na qual cada usuário pode se expressar e receber retornos de suas postagens, por meio de fóruns, listas de discussões, mensagens públicas nos perfis de outros usuários ou mensagens privadas para um usuário
específico; interação reativa, que depende apenas da avaliação e decisão de um usuário, em algum momento, como aceitar outro usuário para sua lista de amigos ou para um grupo no qual é moderador.
Outro ponto importante das redes virtuais é a capacidade que apresentam de permitir que as relações sociais sejam mantidas independentemente da distância geográfica. Para Wellman (2002) a manutenção dos laços sociais e o aumento das redes se tornaram possíveis com as transformações dos meios de transporte e de comunicação, que suprem a demanda das redes sociais por comunicação colaborativa e compartilhamento de informações. O autor denomina o processo de “glocalização”, palavra que remete à extensa interação global e à intensa interação local, possibilitadas especialmente pela internet, que aproxima as pessoas das informações globais e acentua os laços sociais locais.
Importantes contribuições das redes sociais virtuais são a geração e o aprimoramento do capital social e do capital cultural. Além disso, os indivíduos encontram possibilidade de compartilhar ideias, informações e conhecimentos, de forma intensa e diversificada, o que possivelmente não ocorreria com os próximos em redes locais, em virtude das restrições de tempo e espaço (COSTA, 2005).
O termo “capital social” por vezes tem sido utilizado, em estudos sobre redes sociais na internet, como forma de explicar a capacidade relacional entre os indivíduos e seus laços. Nos estudos sobre redes sociais virtuais não é diferente, como pode ser encontrado no estudo de Recuero (2006), que analisa a dinâmica de uma rede social virtual, o Orkut. Este tipo de capital é demonstrado como importante fator para a dinâmica de uma rede social e se mantém por conexões estabelecidas e pelas formas como os laços se desenvolvem e os usuários interagem. A autora aponta que a dinâmica de uma rede social virtual se dá em função da busca por capital social e depende de certos fatores, como a competição e a cooperação entre os usuários das redes e da popularidade de memes13.
Para Wellman (1988), as primeiras redes sociais apresentavam caráter público, já que um de seus principais objetivos estava baseado em interações e fóruns de discussão, enquanto as redes sociais se apresentam mais voltadas para as redes pessoais das quais os indivíduos são o
13 Os memes são fenômenos da internet, podendo ser figuras, vídeos, informações e/ou pessoas que se popularizam de maneira rápida devido à velocidade na propagação. Podem ser observados por meio de comportamentos coletivos e relacionados ao capital social na medida em que sua propagação é associada, direta ou indiretamente, aos valores de um grupo.
centro, denominando-as de “redes egocêntricas”. Porém o autor alerta que, mesmo havendo maior isolamento em redes egocêntricas ou pequenas redes, há que se ressaltar a sua importância para os fluxos que ocorrem em redes de maior escala na qual se inserem:
egocentric network studies have documented the pervasiveness that recent large- scale social transformations have produced isolation and alienation. Numerous scholars have described how networks link individuals through and weak ties, situate them in larger social systems, and affect the flows of resources to and from them (WELLMAN, 1988, p.28).
Para Chua, Madej e Wellman (2011), grande parte das pessoas mantém um mapa mental das redes de relações que tecem socialmente, sejam elas formadas por amigos ou inimigos, o que parece confirmar que o mundo gira em torno do indivíduo pertencente à uma dada rede, conforme a ideia de que “the world revolves around ‘Me’”. É este tipo de formulação que permite considerar que as redes são redes egocêntricas. As redes pessoais podem ser consideradas como off-line e on-line, sendo que estas últimas surgiram para incrementar a comunicação e “reduzir a distância” que limitava a interação entre os envolvidos não conectados (CHUA; MADEJ; WELLMAN, 2011).
Portanto, as redes sociais virtuais podem ser compreendidas como a apropriação de um espaço no ciberespaço por um indivíduo que deseja ser visto e constrói sua identidade, dando origem a um “eu” na rede (RECUERO, 2004). Para Sibilia (2003) citada por Recuero (2004a), existe um imperativo da visibilidade na sociedade que decorre de uma ligação entre os âmbitos público e privado do indivíduo. Para existir no espaço dos fluxos é necessário ser visto e se tornar parte da rede.
Rheingold (1996) analisa o papel das redes sociais virtuais na atualidade e afirma que estas não apenas possibilitam a interação e encontro de pessoas, mas se tornaram um ambiente no qual se pode alcançar objetivos definidos pela coletividade, além da possibilidade de se criar e obter informações relevantes que constituem a inteligência coletiva. Machado e Tijiboy (2005, p.8) também defendem que as redes sociais virtuais podem ser úteis como espaços de aprendizado coletivo e de trocas cooperativas de conhecimento, contribuindo para “a mobilização dos saberes, o reconhecimento das diferentes identidades e a articulação dos pensamentos que compõem a coletividade”.
Apesar das considerações positivas acerca da CMC e do crescimento das redes sociais no ciberespaço, existem considerações negativas, como perda de privacidade, distorção da realidade e alienação da opinião pública. Estas se mostram cada vez mais preocupantes, considerando-se as possibilidades de apropriação do discurso e sua comercialização por
políticos interessados em distorcer e massificar informações. Mas o controle das variáveis negativas pode ocorrer diante do desenvolvimento de normas de conduta e do modo como as pessoas utilizam as redes (RHEINGOLD, 1996).
Assim, tanto as redes sociais virtuais quanto as redes sociais tradicionais apresentam características positivas (como amizade, amor e tolerância) e negativas (como violência, ódio, vergonha e pornografia). Em ambos os casos, a justificativa pode ser feita pela utilização, ou não, das normas de etiqueta (“netiqueta”) e pela presença, ou não, de desvios de conduta e rebeldia (PRIMO, 1997). Além disso, deve haver um sentimento de respeito aos demais usuários da rede, visto que regras de etiqueta, formais e informais, são criadas e informadas pelos participantes, normalmente os membros mais antigos ou os moderadores. Entre essas regras figuram as relacionadas aos comportamentos esperados de cada participante e ao modo de realizar a interação, sem hostilidades, ofensas e informações desqualificadas, como forma de disciplinar o comportamento do grupo (SILVA; GOEL; MOUSAVIDIN, 2008).
As redes virtuais, apesar de parecerem ameaçar a sociabilidade, se mostram úteis sob o ponto de vista do dinamismo e da vitalidade social, por permitirem que se estabeleça um espaço que potencializa as conexões entre os indivíduos. Apesar disso, Primo (1997) defende que não são democráticas, como normalmente se presume. Pelo contrário: ao criar espaços de interação em torno de interesses comuns, elas possibilitam a criação de subúrbios virtuais e resultam em formas de seleção e exclusão. Além disso, a distância física das pessoas nas redes virtuais e a falta de interação face a face podem não permitir assistência, informação e suporte de forma recíproca a todos os membros (WELLMAN; GULIA, 1999).
Com base nos diversos conceitos apresentados, é possível criar três categorias de possibilidades ofertadas pelas redes sociais virtuais, de acordo com a literatura estudada: sociabilidade, cooperação e política. O Quadro 2 sintetiza as informações que interessam a este estudo.
Quadro 2 - Possibilidades presentes nas redes sociais virtuais
Categoria Possibilidades Autores
Sociabilidade
Sociabilidade e relações Recuero (2004a); Aguiar (2007a); Lemos e Lévy (2010)
Criação de laços emotivos e comunitários
Rheingold (1996); Recuero (2004a) Comunicação e discussões
virtuais
Rheingold (1996); Wellman (2002); Schlemmer et al. (2006); Chua, Madej e Wellman (2011) Redução das distâncias Wellman (2002); Chua, Madej e
Wellman (2011)
Criação de capital social Costa (2005); Recuero (2006)
Cooperação
Interesses comuns e reconhecimento mútuo
Castells (1999); Lévy (2000) Trocas diversas entre usuários Berkowits (1988); Lévy (2000);
Recuero (2006); Rheingold (1996) Aprendizado coletivo Rheingold (1996); Machado e
Tijiboy (2005)
Política
Democratização das informações
Castells (1999) Ações políticas e movimentos
sociais
Machado e Tijiboy (2005); Marques (2006); Lemos e Lévy (2010)
Influência política Marques (2006); Lemos e Lévy (2010)
Ciberdemocracia Lemos e Lévy (2010 Fonte: Elaborado pelo autor, 2015.
O campo sociopolítico tem sido intensamente impactado e alterado em função das possibilidades das redes sociais virtuais. Novas configurações de relações políticas têm se estabelecido e permitido organizar grupos e ações, colaborando com a formação de comunidades políticas no ciberespaço. Obviamente, as Redes Sociopolíticas Virtuais são constituídas por participantes de interesses distintos, bem como diferentes formas e intensidades de participação, características de vários outros sistemas democráticos. Mas as formas democráticas desenvolvidas no ambiente virtual requerem maior aprofundamento nas discussões como forma de conhecer as características inerentes ao contexto político.
Na seção seguinte, apresenta-se uma série de discussões sobre a democracia e seu desenvolvimento no mundo, dando especial atenção à crise de representação política e suas consequências para os sistemas e processos democráticos, como a expansão da democracia participativa e os sinais do estabelecimento da democracia digital, neste trabalho chamada de ciberdemocracia. Conceito, características e aplicações desse modelo democrático pela internet têm especial atenção, por fornecer pistas para outras discussões.