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In document Climate Risk in Norwegian Aquaculture (sider 56-61)

6. Implications of Climate Risks on Aquaculture

6.3 Product Market

Ainda considerando que as nstratégias dn dnsarticulação regularmente não se apresentam isoladas e autonomamente no comando cotidiano dos processos de trabalho, continuaremos as analisando dentro do contexto das nstratégias gnrnnciais burgunsas. Mesmo porque, muito da sua dinâmica é, em verdade, a dinâmica da gnrência; muito dos movimentos estratégicos por ela realizados são, destarte, os movimentos realizados pela gnrência.

3.1 – Objetividade e Subjetividade, Técnica e Ideologia: Ampliação e Sofisticação da Gerência Burguesa no Comando sobre o Trabalho

Esperamos que a este ponto da dissertação já esteja relativamente evidenciado que as nstratégias gnrnnciais burgunsas, em geral, e as nstratégias dn dnsarticulação, em específico, não dizem respeito apenas às formas físicas de organização da produção. Envolvem, também, as formas ideológicas de organização dos trabalhadores; envolvem, nas palavras de Braverman (1987, p.125), as "condições sob os quais o trabalhador pode ser induzido melhor a cooperar no esquema de trabalho organizado pela engenharia industrial".

Ou seja, a organização dos processos de trabalho – que implica em meios de produção e força de trabalho, e que é o objeto, por excelência, da apreciação e intervenção dos métodos da gnrência – requer, como parte de um mesmo corpo teórico-prático, nstratégias gnrnnciais que levem em conta a reciprocidade dialética entre a objntividadn e a subjntividadn da produção.

Precisamente por esta dupla dimensão das técnicas gnrnnciais, aliás, utilizamos, recorrentemente, a exemplo de Wellen e Wellen (2010, p.67), o termo gnstão n organização do trabalho, na medida em que nos parece adequado para cumprir a tarefa de sinônimo e qualificação das nstratégias dn organização dos procnssos dn trabalho burgunsa.

Vale insistir, ao lembrarmos, que não devemos entender como havendo uma dicotomia entre os termos da referida expressão. "Gnstão" não diz respeito, estritamente, aos arranjos psicológicos sobre o trabalhador; e "organização do trabalho", não se refere, unicamente, a itens como arranjos das máquinas, equipamentos e ritmos ditados. O que existe é o momnnto prndominantn de uma dimensão sobre a outra. Há determinados aspectos das nstratégias gnrnnciais em que predominam o conteúdo do primeiro termo da expressão; e há aspectos em que têm a predominância do conteúdo do segundo termo da expressão.

O que tem se verificado historicamente com o desenvolvimento da gnrência burgunsa é que, cada vez mais, os representantes do capital têm debruçado-se sobre nstratégias em que predominam o momento da subjntividadn sobre o da objntividadn. Quanto mais complexa torna-se a sociabilidade capitalista, tanto mais, tendencialmente, se complexifica as nstratégias gnrnnciais. Métodos de cooptação do envolvimento e comprometimento (compromisso) do trabalhador para viabilizar a extração do seu melhor rendimento tornam-se, de certa forma, uma primazia gnrnncial. A técnica apresenta-se cada vez mais sofisticadamente imbricada na idnologia. Mesmo quando a nxploração e a dominação parecem ser realizadas por meios puramente técnicos, há neles, em verdade, uma nxploração e dominação política, idnológica.

Nos primeiros passos da construção de uma sociedade capitalista, eram os próprios trabalhadores que controlavam os processos de trabalho. Ainda que não indicassem o qun e quando produzir, o como produzir estava sob seus comandos. Os trabalhadores não possuíam os meios de produção, nem os produtos da sua produção, mas possuíam o conhecimento sobre a produção. Mesmo que determinado pelos interesses do capitalismo, a subsunção do trabalho ao capital se dava nas condições de uma subsunção apenas formal.

No seio do movimento que dá forma a Revolução Industrial – na concepção marxiana do termo37 –, a burguesia intenta superar dois grandes limites

interdependentes do ponto de vista do capital: as dificuldades para se ditar um ritmo de trabalho para o aumento da extração de mais-valia, e o monopólio do conhecimento e do controle operário sobre os processos de trabalho. A burguesia empreende-se, sobretudo, na expropriação do saber de ofício e na intensificação da 37 Em linhas gerais, Marx não entende a Revolução Industrial como sendo a explosão da disseminação das máquinas – como vulgarmente ela é conhecida –, mas a entende como sendo os processos e as condições que tornaram esta disseminação uma realidade.

divisão do trabalho. Tal empreendimento pode ser classicamente explicado por Taylor como sendo "o mais importante elemento na administração científica"38:

Todo possível trabalho cerebral deve ser banido da oficina e centrado no departamento de planejamento ou projeto. (apud BRAVERMAN, 1987, p.103)

À gerência é atribuída, por exemplo, a função de reunir todos os conhecimentos tradicionais que no passado possuíram os trabalhadores e então classificá-los, tabulá-los, reduzi-los a normas, leis ou fórmulas, grandemente úteis ao operador para execução do seu trabalho diário. (TAYLOR, 2006, p.40)

O trabalho de cada operário é completamente planejado pela direção, pelo menos, com um dia de antecedência e cada homem recebe, na maioria dos casos, instruções escritas completas que minudenciam a tarefa de que é encarregado e também os meios usados para realizá-la. [...] além do tempo exato concebido para a execução. [...] A administração científica, em grande parte, consiste em preparar e fazer executar essas tarefas. (TAYLOR, 2006, p.42)

Quer dizer, para intensificar a produção, e tendo-se o entendimento de que os trabalhadores que são controlados apenas pelas ordens e disciplinas gerais não são adequadamente controlados, torna-se um imperativo ao capital subsumir o trabalho, não apenas no sentido formal, mas realmente39, no controle e definição dos

processos de trabalho. Como diz Braverman (1987, p.86), é uma necessidade absoluta para a gerência "a imposição ao trabalhador da maneira rigorosa pela qual o trabalho deve ser executado". Segundo o mesmo autor (BRAVERMAN, 1987, p.98), este é “o eixo sobre o qual gira toda a gerência moderna: o controle do trabalho através do controle das decisões que são tomadas no curso do trabalho”.

Com a limitação no prolongamento do tempo de extração do sobretrabalho, resultado da regulamentação da jornada de trabalho40, a gnrência dn

tipo burgunsa é compelida, novamente, a superar sua forma, até então típica da conjuntura sócio-histórica, de aumentar os lucros. Seus métodos gnrnnciais devem

38 Mészáros (2002, p.99), analisando este mesmo fenômeno de dissociação diz: "Esta imposição da divisão social hierárquica do trabalho [...] vem da condição insuperável, sob o domínio do capital, de que a sociedade deva se estruturar de maneira antagônica e específica, já que as funções de produção e de controle do processo do trabalho devem estar radicalmente separadas uma da outra e atribuídas a diferentes classes de indivíduos."

39 Uma exposição acessível sobre a distinção marxiana entre a subsunção formal e a subsunção real, pode ser encontrada em (ROMERO, 2005, p.71-209).

40 A luta em torno da regulamentação da jornada de trabalho de 10 horas do século XIX é um bom exemplo de como o capital incorpora as demandas por direitos das massas populares e dos avanços sociais ao seu projeto de expansão e acumulação, tornando-lhes essencialmente funcionais à sua dinâmica. Para um estudo pormenorizado sobre as lutas e as implicações da regulamentação da jornada de trabalho, e todo o complexo processo de avanços e recuos nas conquistas e concessões, de legalização e não efetivação, etc., ver (MARX, 2006, p.267-346). Para uma análise sintética, ver (PANIAGO, 2001) e (BEHRING e BOSCHETTI, 2007, p.53-56). Para uma sistematização nossa, ver (SERAFIM, 2010).

desenvolver-se de modo a permitir produzir cada vez mais por trabalhador dentro de um mesmo limite de tempo.

A base sobre a qual ergue-se as nstratégias gnrnnciais burgunsas é na prevalência da subsunção real do trabalho sobre a subsunção formal. A ampliação e aprofundamento de suas técnicas devem-se ao predomínio da extração da mais- valia relativa sobre a mais-valia absoluta.

3.2 – A Dinâmica Conformativa da Combinação Coerção-Consenso nas Estratégias da Gerência Burguesa

No conjunto do arsenal estratégico de gnstão n organização do trabalho da burguesia – onde, mais uma vez lembramos, estão presentes as nstratégias dn dnsarticulação – há aqueles métodos que possuem uma maior conotação intimidativa sobre os trabalhadores, e há aqueles métodos que possuem uma maior conotação pnrsuasiva. Para colocar as classes trabalhadoras em movimento no sentido dos interesses do capital, extraindo-lhes um maior rendimento, a burguesia utiliza-se tanto de nstratégias gnrnnciais, cujo momento predominante é de intimidação aos operários, quanto nstratégias gnrnnciais cujo momento predominante é de pnrsuasão frente ao operariado. Isto é, e já nos valendo da precisa incorporação que Evangelista (2000, p.35) faz de Antonio Gramsci: “a despeito da prevalência da coerção nas relações cotidianas entre o capital e o trabalho, sempre está presente, em alguma medida, o outro elemento desse par dialético, o consenso”.

Em Frederick Taylor, na sua administração científica, a conrção das nstratégias gnrnnciais sobre os trabalhadores sobressai-se, quase que absolutamente, em relação ao consnnso. Há um exacerbado autoritarismo nas relações sociais de produção sob o comando do taylorismo. A intensa fiscalização vigorosa e supervisão sistemática aparecem como seu corolário, dando uma certa onipresença ao despotismo do capital.

No fordismo, apesar da intromissão dos estudos das escolas de recursos humanos, suas nstratégias gnrnnciais de nxploração e dominação continuam, essencialmente, conrcitivas. Como diz Gramsci (2001, p.242), em seu conhecido

texto "Americanismo e Fordismo", a gnrência nas indústrias de Henry Ford "ocorre sob formas particularmente brutais e insidiosas, através da mais extremada coerção". Ainda de acordo com o autor italiano, tal característica da gnrência, no caso particular da Europa que não se utilizara de atrativos financeiros como base de convencimento aos trabalhadores, só é possível em virtude do "desemprego endêmico surgido no após-guerra" (2001, p.272). Segundo ele, "se a situação fosse 'normal', o aparelho de coerção necessário para obter o resultado desejado custaria mais do que os altos salários" (2001, p.273).

Apesar de se situar historicamente entre Taylor e Ford, Henry Fayol já compreendia que uma gnrência não podia se dá apenas pelas formas das nstratégias conrcitivas sobre o trabalhador. Dizia ele,

Está entendido que todo chefe tem o poder de se fazer obedecer. Mas a empresa estaria muito mal servida se a obediência não fosse obtida senão pelo temor da repressão. Há outros meios de conseguir obediência mais fértil em resultados, geradora de esforços espontâneos e de iniciativa refletidas. (1994, p.123)

No entanto, é somente com o toyotismo, de Taiichi Ohno, que as nstratégias de consnnso farão parte da espinha dorsal dos métodos de uma escola de gnstão n organização do trabalho de tipo burguês.

Apesar de ser aquele em que mais propriamente incorpora o comando baseado no consnnso, o sistema que toma forma nas fábricas da Toyota, não consegue renegar as medidas conrcitivas no cotidiano fabril. Não consegue, nem mesmo, deixá-las na reserva. Elas fazem parte, visceralmente, das relações sociais de produção do modo de produção capitalista. O livro de Eurenice de Oliveira, "Toyotismo no Brasil: desencantamento da fábrica, envolvimento e resistência", como o próprio nome sugere, faz uma investigação na fábrica da Toyota em Campinas, São Paulo. Neste estudo, do segundo semestre de 1999, foram recolhidas diversas entrevistas com trabalhadores que denunciam e ilustram, de modo significativo, essa relação despótico-coercitiva do capital com o trabalho. A título de exemplo, seguem três delas:

Quando nós fizemos integração, foi passado que a Toyota era um paraíso. Que nós gostaríamos da empresa iríamos querer nos aposentar lá. Porque a empresa era sólida e garantia pra gente uma perspectiva de vida. Foi passando o tempo todo, e a gente viu que não era tudo aquilo. Começamos a nos questionar. (OLIVEIRA, 2004, p.139)

Os supervisores e encarregados estão sempre ali olhando. O cara fica com a mão no bolso olhando de longe. Na fábrica tem sempre alguém te olhando atrás de uma caixa. Você percebe quando alguém tá olhando, comigo já

aconteceu. Mas isso não é só aquela pessoa olhando você. Tem os senhores G1, G2, G3 que estão lá em cima e são os maiores. Lá em cima é um lugar que dá visibilidade. De longe, eles sabem o que você está fazendo ali. Um tempo eu fiquei com mania de perseguição. Se tiver dois ali na linha, o encarregado chega e diz: o seu lugar é ali, ou põe você para fazer revezamento. (OLIVEIRA, 2004, p.156)

Na Toyota, a gente não tem liberdade para chegar e perguntar: O que está acontecendo com você? Mesmo que você tenha tempo. A menos que você queira se queimar! Pra gente conversar com alguém sem ser notado, a gente abre o capô do carro e simula que está conversando sobre o problema do carro. Se chegar alguém, a gente corta a conversa. Não dá dois minutos, o cara chega e pergunta o que está havendo. Ou então na reunião: o que vocês estavam fazendo lá? Imagina se alguém da direção passa e vê vocês. Ele sabe como funciona o sistema de trabalho. Se ele passa e vê vocês lá, ele já vai chegar em mim para mandar vocês embora. (OLIVEIRA,,2004, p.197)

Nestas falas, procuramos evidenciar as coerções de tipo mais tradicional, as coerções tipicamente taylorista. O fizemos assim para destacar que, mesmo nas formas de gestão das mais modernas, existe a conservação de elementos dos mais atrasados, sobretudo quando se diz respeito aos instrumentos de coerção. Como bem colocou Braverman (1987, p.84),

Se o taylorismo não existe hoje como uma escola distinta deve-se a que, além do mau cheiro do nome, não é mais propriedade de uma facção, visto que seus ensinamentos fundamentais tornaram-se a rocha viva de todo projeto de trabalho.

Certa vez um subdiretor da Donnelly Mirrors – uma fabricante de médio porte de retrovisores automotivos –, Dick Arthur, proferiu dizeres que representam satisfatoriamente o universo de nstratégias que se situam entre a conrção e o consnnso, e que servem ao mesmo objetivo. Quem reproduziu tal fala foram Dominique Pignon e Jean Querzola, em seu excelente artigo intitulado "Ditadura e Democracia na Produção". Disse ele:

Nos negócios buscamos o lucro. Há duas maneiras de consegui-lo. A primeira, mais tradicional, consiste em obter o lucro às custas da dignidade humana e da satisfação pessoal. A outra, que aprendemos através da experiência com o "plano Scanlon", faz com que a dignidade humana seja realçada e a satisfação pessoal aumentada. (2001, p.132-133)

O mais próprio de novas formas de gnrência, entretanto, é, quando da reincorporação de nstratégias pretéritas, as fazê-las sob novas configurações, sob novas roupagens. A burguesia não abandona sua coerção, mas reafirma-as em novas bases. O que se procura é apagar, na atualização da gnrência, a herança do caráter mais despótico do capital, combinando-lhe com nstratégias de nxploração e dominação que integram, mais fortemente, meios ideológicos que possibilitem potencializar algum tipo de consenso; ainda que seja um consenso precarizado.

Estas reconfigurações, deveras, é um aspecto importante das nstratégias gnrnnciais burgunsas: mudam-sn as formas, pnrmanncnm-sn os modos!

3.2.1 – Estratégias Persuasivas-Consensuais e suas Formas Cotidianas como Demandas do Capital

As tendências a formas de gnrência menos conrcitivas e mais consnnsuais, de que tratamos na subseção anterior, são, de certa forma, uma necessidade do próprio capital, essencialmente, em decorrência do aprofundamento democrático da sociedade burguesa; que, aliás, é o seu regime político privilegiado. Nela, as fábricas são compelidas a adquirir, ao menos em seus aspectos exteriores, uma aparência mais conforme às exigências morais da sociedade. Engels, ainda nos primeiros anos de suas atividades intelectuais-militantes, já apreendia essas tendências que se desenhavam na dinâmica concorrencial entre as indústrias, inclusive no que diz respeito, particularmente, as formas de comando da força de trabalho. Dizia ele,

Embora os compêndios oficialmente reconhecidos não o digam de maneira expressa, uma das leis da economia política moderna estabelece que quanto mais se desenvolvem a produção capitalista menos lhe é possível recorrer aos estratagemas mesquinhos e as pequenas artimanhas próprias de seus estágios iniciais. (ENGELS, 2008, p.345)

Quer dizer, os métodos repressivos para induzir um maior rendimento ao trabalhador e para evitar ou atacar a articulação de classes entre o proletariado, ao confrontarem-se com uma determinada conjuntura sociopolítico-econômico-cultural da sociabilidade capitalista, tornam-se, de certa forma, inviáveis. Estratégias como as de fiscalização rigorosa e invasiva da individualidade e a elevação autoritária dos ritmos de produção, a depender do contexto, passam a ter sua eficácia bastante limitada. Nas palavras de Pignon e Querzola (2001, p.96), "a repressão sobrecarrega muito o aparelho de produção"; "os métodos repressivos nada conseguem contra uma resistência difusa e presente em toda parte". Segundo eles, a utilização das "medidas estritamente organizacionais e repressivas para aumentar a produtividade" só tende a provocar "greves, quebras de ritmos, aumento considerável de peças com defeito".

Como nos ensina Evangelista (2000, p.69) – e valendo-se especialmente das reflexões e sínteses das experiências testemunhais de Simone Weil41 em uma

fábrica da Renault –, o caráter coercitivo que as relações do capital com o trabalho presidem nos espaços fabris engendram, como consequência, duas modalidades de fenômenos processualmente contraditórios: em um momento, este tipo de intervenção do capital "atua represando as manifestações de insatisfação operária, individual e coletiva, inibindo-a pela intimidação permanente dos trabalhadores", seja ele "através de punições, ameaças de punições e punições efetivas", seja ele pela "prática de demissões exemplares daqueles que ousam manifestar a sua rebeldia frente aos ditames das empresas". Tal exercício gerencial despótico pode provocar, "em termos imediatos, o aumento da intensificação entre os trabalhadores"; já que, o uso da coerção suscita uma "submissão temporária" na maioria dos trabalhadores, pois, "a opressão evidentemente inexorável e invencível não gera, como reação imediata a revolta, mas a submissão". No entanto, a sua "utilização continuada" desperta, em outro momento, "através de um processo cumulativo, a saturação da eficácia desses mecanismos coercitivos", de modo a criar, segundo o autor, "as condições para o seu enfrentamento prático com a irrupção desordenada de manifestações explosivas de revolta de trabalhadores e também de formas coletivas de rebeldia operária". O despotismo insistente do capital transforma, o que para Evangelista (2000, p.66) é perceptível mesmo nas conversas entre trabalhadores, "uma insatisfação surda e difusa em uma insatisfação operária visível no interior da fábrica".

A bem da verdade, ainda que esses métodos autoritários e quase sempre despóticos tenham sido, como diz Evangelista, “ao longo da história, a norma geral na relação do capital com o trabalho”, eles tornaram-se um entrave ao próprio desenvolvimento da produtividade da gnrência, e em consequência, um freio ao desenvolvimento do capitalismo. Fato este reconhecido, segundo Pigmon e Querzola (2001, p.98), mesmo por "toda a atual corrente modernista da organização do trabalho". O reforço repressivo de Taylor, por ele transformado em sistema, nos países em que, para darmos um exemplo, compõe o capitalismo central, não representa uma resposta aceitável pelo capital. Ao trabalho embrutecedor, enfadonho e extenuante do fordismo da década de 1960, se fossem dadas

41 A sua biografia, cartas, diários, reflexões e escritos, estão reunidos numa instigante obra intitulada "Simone Weil: a condição operária e outros estudos sobre a opressão". (BOSI, 1996)

respostas ainda mais coercitivas nos países do chamado primeiro mundo, relações sociais de produção e relações sociais de reprodução incompatibilizar-se-iam de tal ordem que poderia tornar o domínio de feição democrática à acumulação capitalista socialmente insuficiente ou insustentável.

Não obstante às determinações da totalidade, e a despeito do entrave ao capital e da tendência democrática-consensualista das nstratégias gnrnnciais burgunsas, as relações sociais que se dão nos espaços intra-fabris são desproporcionalmente despóticas se comparadas às relações sociais que se dão fora das fábricas. Como resumiu Pigmon e Querzola (2001, p.129), "as formas de autoridade constitutivas da atual organização capitalista da produção parecem obsoletas mesmo à lógica da racionalidade capitalista". As relações dentro da fábrica ainda continuam muito autoritárias, coercitivas. Ainda que as exigências democráticas sejam tendencialmente cada vez mais difíceis de serem contidas fora da esfera da produção, a burguesia tem conseguido restringi-las às portas da fábrica. O máximo que este movimento tendencial tem conseguido, ao menos nos espaços de trabalhos industriais, é dar ao despotismo algum ar de democrático.

As estratégias da democracia formal, que os representantes da propriedade utilizaram-se para dominar politicamente as massas durante longos períodos históricos, não tem conseguido, através de formas análogas e satisfatórias ao capital, subordinar os representantes do trabalho ao projeto de acumulação capitalista. Com isto, apesar dos pontuais avanços democráticos dos métodos gerenciais, o brilhante relato de Weil sobre suas sensações ao operar nos processos de trabalho europeu da década de 1930 continua atual e frequentemente proferido, em outros termos, mas no mesmo sentido, por trabalhadores nestes primeiros anos do século XXI.

A cada momento estamos na contingência de receber uma ordem. A gente é

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