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Proceso de creación de la sociedad multicultural en

B) ESTADO DE LA CUESTIÓN

1. Origen del jazz

1.1. Proceso de creación de la sociedad multicultural en

Ciência, arte e filosofia se vão fundindo tanto em mim que algum dia certamente vou parir

um centauro

(Nietzsche)

Os momentos anteriores desta pesquisa foram fundamentais para se chegar aqui. Durante todo o meu rastreio, descobri os pontos-toques e me vi incitado a realizar pequenos e breves pousos, para chegar, finalmente, ao meu reconhecimento atento e responder aos questionamentos suscitados. Estas são as quatro variações que a atenção do cartógrafo sofre em seu processo de mapeamento do solo – neste caso, do “armário” –, segundo Kastrup. Este

reconhecimento é a conscientização de que a encenação teatral pode ser pensada como uma prática de liberdade fundamental e que deflagra um processo de estilização da vida, como diria Foucault, ou deflagra um modo de existência, como diria Deleuze. Sendo assim, identificarei, nesta terceira seção, características próprias e peculiares em minha vida, minha sexualidade e, principalmente, em meu ofício como encenador teatral na cidade de Belém, que apontam para a criação e reinvenção constante deste estilo de vida movente. Considero a tríade filosófica desta pesquisa os pensamentos de Nietzsche, Foucault e Deleuze, dada toda a autonomia e liberdade que seus pensamentos me provocaram.

Toda essa prática teatral, como encenador, me levou a criação e aperfeiçoamento de um estilo de vida próprio e singular. Através da reflexão sobre tal prática sou capaz de enxergá-la como um ponto deflagrador de todo um processo de administração de si. Nesta última subseção pretendo explorá-lo. Influenciado por Michel Onfray, em seu A potência do

existir, refletirei sobre minha ética, minha erótica e minha estética, construídas a partir de minhas encenações.

Para dar continuidade, torna-se necessário uma breve reflexão acerca da referida obra filosófica, A Potência do existir. Ao ter contato com tal escrita e forma de colocar-se no mundo me vi tocado por uma experiência singular de imersão a vida e ao pensamento de outro homem através de um manifesto brutal e corajoso por narrar os anos da sua entristecida e solitária transição da infância para a adolescência em um internato administrado por padres salesianos. Essa experiência do francês Michel Onfray, fundador da Université Populaire de

chega a dizer em um determinado momento em seu livro e, nele, lançasse uma proposição filosófica hedonista:

Resumindo: sou pois por uma contra-história da filosofia, que sirva de alternativa à historiografia idealista dominante; por uma razão corporal e pelo romance autobiográfico que a acompanha numa lógica puramente imanente, no caso, materialista; por uma filosofia entendida como uma egodiceia a construir e decodificar; por uma vida filosófica como epifania da razão; por uma perspectiva existencial com uma visão utilitarista e pragmática. O conjunto converge para um ponto focal: o hedonismo (ONFRAY, 2010, p. 27).

Este excerto é claro porque nele Onfray sintetiza todos os conceitos-chave que juntos convergem no seu sistema hedonista. No entanto, o objetivo desta pesquisa é menos de aprofundar-se em tais conceitos e mais de roubar deleuzeanamente a estrutura do seu pensamento filosófico para criar o meu próprio. Se Onfray constrói uma ética, uma erótica, uma política, uma estética, uma epistemologia e uma metafísica, a partir de agora construirei minha ética, minha erótica e minha estética, princípios deflagrados a partir – e para – de minhas encenações teatrais, “porque o existencial fornece a teoria que possibilita um retorno ao existencial” (Ibidem, p. 14).

Destarte, penso em uma ética do corpo entre, onde reflito sobre a necessidade estratégica de nunca me posicionar nas extremidades do pensamento, mas de me posicionar sempre no entre, nas interfaces. Penso em uma erótica Queer, onde reflito sobre como me aproprio de minha homossexualidade e a construo transformando-a em parte fundamental da minha existência, defendo a homossexualidade e o pensamento queer como uma salvação de uma existência de normose. Por último, aponto que minha encenação é uma encenação

homossexual, esta é minha estética. Identifico as características estéticas mais recorrentes em minhas encenações e aponto suas transformações ao longo das obras, como a questão do corpo, o discurso da homossexualidade e a religiosidade.

Este é meu reconhecimento atento, o quarto gesto de variação atencional do cartógrafo, uma espécie de conhecimento proporcionado por uma atenção movente em nível háptico do cartógrafo que reconfigura a sua relação com o campo. Este reconhecimento atento se diferencia do reconhecimento automático. Segundo Kastrup, o reconhecimento automático privilegia a ação futura e os efeitos práticos, úteis. Uma analogia esclarecedora seria a de dirigir o carro durante a noite e depois de um dia exaustivo de trabalho visando chegar o mais rápido possível em casa para descansar. Este sujeito não está interessado na percepção ao longo do processo, mas em alcançar a ação futura e seus efeitos. Isto não pode acontecer com

o cartógrafo já que eu objeto é o próprio processo e não a finalidade, logo, se trata de produzir conhecimento estando atento aos contornos singulares deste caminho: “Não se trata de se deslocar numa cidade conhecida, mas de produzir conhecimento ao longo de um percurso de pesquisa, o que envolve a atenção e, com ela, a própria criação do território de observação” (KASTRUP, 2009, p. 45).

É neste momento que cabe realizar uma breve reflexão acerca da utilização da memória nesta pesquisa, principal fonte de coleta de dados.

De modo geral o fenômeno do reconhecimento é entendido como uma espécie de ponto de interseção entre a percepção e a memória. O presente vira passado, o conhecimento, reconhecimento. No caso do reconhecimento atento, a conexão sensório-motora é inibida. Memória e percepção passam então a trabalhar em conjunto, numa referência de mão dupla, sem a interferência dos compromissos da ação. (Ibidem, p. 46).

Kastrup aponta que, para Bergson, a memória, em relação a percepção, é uma duplicadora e não uma conservadora, ou seja, ela duplica a percepção no lugar de conservá-la. Sempre que houver um contato com o objeto haverá uma duplicação da imagem: haverá a imagem perceptiva e a mnésica virtual: “Para Bergson, a memória não conserva a percepção, mas a duplica. A cada experiência com um objeto se formam dois registros: a imagem perceptiva e a imagem mnésica virtual” (Ibidem).

Sendo assim, é correto pensar que a minha relação com um determinado objeto – no caso, minhas encenações teatrais - me proporciona uma determinada percepção de mundo que não será conservada pela memória, mas será duplicada a partir de uma tentativa de reconstituição desta percepção, tendo origem dois registros: a imagem perceptiva, aquela primária, e a imagem mnésica virtual, a reconstituição desta percepção através da memória. É quando o passado se mistura com o presente. Logo, lembrar é realmente viver.

É importante salientar que o reconhecimento desta ética, desta erótica e desta estética não funciona se estas instâncias – que estão profundamente imbricadas umas com as outras – forem vistas como três leis gerais de conduta sobre a vida, a sexualidade e a arte, respectivamente, antes disso são três (re) avaliações sobre as diversas formas de ver e de se colocar no mundo e que, portanto, estão sujeitas a outras constantes (re) avaliações posteriores a fim de descobrir novas formas de se relacionar com os códigos morais.